Arrows sem dinheiro até para luvas

Nem tudo o que se refere à F-1 condiz com a fama de riqueza e glamour da competição. Ao mesmo tempo em que equipes como McLaren investem mais de US$ 2 milhões na construção de um luxuoso motorhome e Michael Schumacher estréia seu novo jato Falcon, transcontinental, os recentes episódios com a capenga Arrows sugerem que também nesse universo de fartura, por vezes perdulário, existem os primos pobres. Nesta sexta-feira, por exemplo, Enrique Bernoldi, piloto da escuderia, teve de pagar do próprio bolso uma multa de US$ 4,5 mil de seu time se desejasse participar do GP da França. E ele acabou nem treinando. Motivo: briga entre os sócios da Arrows, ao que tudo indica, falidos. No treino de aquecimento do GP do Canadá, dia 9 de junho, Bernoldi acionou no volante da sua Arrows o botão que limita em 80 km/h a velocidade do carro na entrada dos boxes, mas ele não funcionou. Resultado: o radar o flagrou a pouco mais de 88 km/h. A regra na Fórmula 1 é clara. A equipe deve pagar US$ 500 por quilômetro a mais do limite. E Tom Walkinshaw, proprietário de 60% da Arrows, cumpriu bem a primeira parte da sua tarefa, ao enviar à Federação Internacional de Automobilismo (FIA) um cheque de US$ 4,5 mil. Os problemas começaram no segundo capítulo da história. "O chefe da equipe me chamou, nesta sexta-feira pela manhã, e me disse que se eu não pagasse eu não poderia entrar na pista porque o cheque da multa voltou, estava sem fundos", contou Bernoldi. "Telefonei para o meu banco em Mônaco e orientei que mandassem para a conta da FIA os US$ 4,5 mil", falou o piloto. "O pessoal da FIA me avisou que só me autorizariam treinar depois de o banco deles, em Paris, lhe enviar um fax aqui para o autódromo confirmando o recebimento do dinheiro", explicou Bernoldi. A seguir ele descreveu seu acordo com Walkinshaw. Se Michael Schumacher ou Jacques Villeneuve, os pilotos mais bem pagos da Fórmula 1, souberem, darão gargalhadas. "Caso a falha fosse minha e não do sistema de limitar velocidade do carro eu deveria pagar a multa, esse é o trato", disse Bernoldi. "A equipe comprovou que foi falha dela." Até esta sexta-feira à noite Bernoldi e seu companheiro, Heinz-Harald Frentzen, não sabiam se neste sábado poderão iniciar a disputa do GP da França, por causa da luta jurídica entre os sócios da Arrows. Das 8 às 9 horas acontece a sessão que definirá o grid, com transmissão ao vivo pela TV Globo. Nesta sexta-feira, no primeiro treinamento livre para a prova que pode definir o campeonato para Michael Schumacher, da Ferrari, David Coulthard e Kimi Raikkonen, a dupla da McLaren, foi a mais veloz. Mas esse não deve ser o panorama da sessão de classificação, neste sábado. Ferrari e Williams têm tudo para estabalecerem as quatro melhores posições no grid. Mas enquanto os ricos se digladiam, histórias de penúria da Arrows, surgidas nesta sexta-feira, propõem o questionamento se o atual modelo de distribuição de recursos, provenientes dos direitos de TV, não merecem uma revisão já. Bernoldi corre há três provas, por exemplo, com um par de luvas usado por um mecânico. "Meu número é 8, mas a equipe só tinha as de número 10. Descobrimos um mecânico que usava um par número 9. Foi a solução", contou o jovem talentoso de Curitiba. Um par de luvas de piloto de Fórmula 1 custa US$ 100. "A equipe está em atraso com o fornecedor (a empresa Sparco)", explicou o piloto. "O problema é que essas luvas endurecem com o tempo e nós não temos direção hidráulica. Minhas mãos chegam a sangrar depois da corrida." Essas dificuldades financeiras comprometem a segurança dos pilotos. Frentzen, por exemplo, gosta de guiar com os braços bem esticados, enquanto Bernoldi prefere o volante bem mais próximo do corpo. Cada um tem um volante. "Num teste em Barcelona, só havia o volante dele disponível. Meus mecânicos encheram de arroelas o espaço da coluna de direção para levar o volante mais perto de mim", contou Bernoldi. Em um treinamento em Silverstone ocorreu fato pior. "A Bridgestone me ofereceu a chance de testar 12 jogos de pneus para eles. Me senti o máximo. Acontece que não havia rodas suficientes para montar os pneus", conta. "Por sorte ou azar, não sei, havia no autódromo um carro usado para as promoções da equipe. Não deu outra, o pessoal foi lá e tirou as rodas daquele chassi." Ocorre que elas não tinham as travas de segurança e em plena curva Stowe, onde se acidentou Schumacher em 1999, as duas rodas se soltaram de uma vez. "Dei sorte de não bater feio. Fiquei parado no meio da brita, sem as rodas na frente." Por vezes a performance de um piloto deve ser vista de um ângulo mais abrangente, segundo Bernoldi. "Já fui para a classificação com o motor perto do fim da sua vida útil (400 quilômetros) e com orientação dos mecânicos para trocar as marchas numa rotação mais baixa do normal para não estourá-lo." Esse, no entanto, não será o problema de Michael Schumacher e de Juan Pablo Montoya, da Williams, neste sábado, na luta pela pole position.

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