Fabio Lucio/Estadão
Projeto do Instituto Família Barrichello ensina kart para crianças carentes Fabio Lucio/Estadão

Barrichello aposta no kart para inspirar crianças carentes

Curso gratuito é uma das iniciativas do instituto criado pelo ex-piloto de F-1 para aliar esporte e educação

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2019 | 04h30

Desde pequeno, Rodrigo gostava de ver as corridas de Fórmula 1. Foi aí que começou sua paixão pelos carros. Essa era a parte boa de sua infância. A parte ruim era que seu pai bebia e ficava violento. Uma vez, avançou com uma faca para cima dele, do irmão e da mãe, dona Rosana. Depois de três boletins de ocorrência na Delegacia da Mulher, ela decidiu se separar. Hoje, ela é auxiliar de Serviços Gerais. Aos sábados, é diarista e completa a renda vendendo bolos no pote. Rodrigo encontrou no kart uma maneira de se reequilibrar após o divórcio dos pais.

Histórias como a de Rodrigo são comuns nas aulas oferecidas pelo Instituto Família Barrichello, no Kartódromo Granja Viana, em São Paulo. Famílias de baixa renda são o foco do programa IBKart, uma das inúmeras iniciativas da entidade que aposta no esporte como uma oportunidade de mudança social. O instituto foi criado pelo ex-piloto Rubens Barrichello em 2005. Os alunos são escolhidos por meio de parcerias com o Centro de Referência da Assistência Social de Cotia e o projeto Âncora, associação que mistura as atividades de comunidade de aprendizagem, ONG e escola e se localiza  na região de Cotia, também na grande São Paulo. As aulas de kart beneficiam 90 alunos por ano.

O diretor William Oliveira explica que as aulas vão além da pilotagem e ensinam lições éticas, como ajudar o companheiro e pensar mais na equipe do que no lado individual. Elas se apoiam em uma metáfora: guiar um carro numa pista é como pilotar a própria vida. Como numa corrida, é preciso conhecer as curvas, planejar seu percurso, frear e ser firme ao volante. A aluno Kaylane Kalyan ouve atenta, com os olhos arregalados. Parece que entendeu o recado. “Quando estou no kart, eu consigo fazer coisas legais”, explica o aluno Caíque Luna.

O Estado visitou a aula da última segunda-feira. Dezessete crianças contavam os minutos para o início. Capacete, macacão e equipamentos de proteção são colocados num zás-trás. Com só 9 anos, toda miudinha, Wandra Lima quase desaparece no capacete azul. Meninos e meninas pilotam de verdade máquinas que atingem 70 km/h. Nas primeiras aulas, só aceleram e freiam em uma pista restrita. Depois, pé em baixo. “Nossa função é controlar para que não acelerem muito”, conta o professor Giuliano Raucci.

Antes da pista, eles começam a sentir a adrenalina em aulas  de skate. Esse é o primeiro passo. O curso também tem oficinas de roda, em que fazem seus próprios brinquedos. As três atividades - skate, kart e oficina de roda - são complementares. “Quem vai bem no skate é chamado para o kart”, conta a coordenadora Cibele Barzaghi. “Observamos comprometimento, participação, responsabilidade, autonomia”, diz.

O foco não é descobrir talentos para o automobilismo. O objetivo é criar a chance para as crianças experimentarem a velocidade e aprenderem. “O carro de corrida mexe com o sonho das crianças. Pensamos em um projeto que envolvesse o kart, mas sempre como ferramenta de desenvolvimento”, diz Rubinho.

Mesmo assim, três adolescentes que passaram pelo projeto recentemente começaram a pilotar no programa competitivo do kartódromo, como uma espécie de segundo degrau na modalidade. Participam de competições locais. Esse é o sonho de Rodrigo, aquele que está superando a separação dos pais.

O esporte é caro. Aulas como esta, oferecidas gratuitamente, custam R$ 200 no mercado. Um final de semana de competição fica em média R$ 10 mil. Hoje, o projeto de Rubinho conta com o apoio da Blau Farmacêutica e Ticket Log, via Lei de Incentivo ao Esporte. O kartódromo faz um preço camarada no aluguel para as aulas. O desafio do projeto é atrair mais patrocinadores. 

As aulas de kart são apenas uma parcela da atuação da entidade criada por Rubinho. Hoje, a instituição possui nove projetos voltados para o desenvolvimento humano e a qualidade de vida. O público-alvo são crianças, adolescentes, jovens e idosos. Hoje, são beneficiadas 1900 pessoas em 18 comunidades em São Paulo.

O projeto Viver Melhor, por exemplo, ajuda idosos a melhorar seu condicionamento físico. Ele funciona como uma “escola” em busca uma vida mais saudável. O projeto trabalha com idosos visando melhorar sua força, equilíbrio, flexibilidade e agilidade.

O projeto Esporte na Rua atende crianças e adolescentes que residem em região de alta vulnerabilidade social na região de Marsilac, Parelheiros e Barragem, extremo sul da cidade São Paulo. Atividades esportivas e de expressão corporal são oferecidas duas vezes por semana 20 grupos de 25 pessoas, em cinco núcleos de atendimento. 

Também existem projetos de capacitação. O Roda de Conversa qualifica educadores de ONGS e professores de escolas públicas em educação pelo esporte e educação pautada em valores. Ele é oferecido a partir da articulação do instituto junto aos órgãos públicos de educação e assistência social.

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'O carro de corrida mexe com o sonho das crianças'

Uma das iniciativas do Instituto criado pelo ex-piloto de Fórmula 1 ensina kart para crianças carentes

Entrevista com

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2019 | 04h30

O ex-piloto de Fórmula 1, Rubens Barrichello, é o recordista do número de corridas disputadas: 326. Em 2005, ele criou o Instituto Família Barrichello, que oferece inúmeros projetos sociais em que o esporte é uma ferramenta de desenvolvimento e transformação social. Um deles oferece aulas de kart para crianças carentes no kartódromo da Granja Viana, em São Paulo. Em entrevista ao Estado, ele conta que tenta retribuiu a ajuda que recebeu ao longo da carreira. 

1. Porque criar um projeto social voltado para o kart?

No kart, assim como todas as outras atividades que fazemos no Instituto, o esporte é o meio, a ferramenta de educação e desenvolvimento humano que está presente em 14 núcleos de atendimento para crianças e idosos. Hoje, são 2000 mil pessoas sendo atendidas em regiões vulneráveis de São Paulo. Além de ser a minha paixão – por isso foi natural incluir um projeto de kart dentre tantos outros projetos -, o carro de corrida mexe com o sonho de todas as crianças. Pensamos em um projeto que envolvesse o kart, mas sempre focados em oferecer a experiência do kart como ferramenta de desenvolvimento humano, dando a oportunidade para que as crianças possam experimentar a velocidade e superar seus limites.

2. Você costuma ir até lá com frequência?

Eu acabo indo menos do que eu gostaria, mas quando estou, estou presente de corpo e alma. Temos uma equipe bem estruturada e que trabalha incansavelmente para fazer o melhor, por isso também me sinto tranquilo. O projeto tem crescido bastante, e pretendemos que o IFB ajude mais e mais pessoas, e eu trabalho para estar cada vez mais presente. Eu sei o impacto positivo que traz a presença de uma pessoa pública e de um atleta na vida das pessoas e crianças mais vulneráveis.

3. Qual é o balanço que você faz do projeto até hoje?

Já atendemos mais de 500 crianças no kart e o foco maior é a educação, formar cidadãos e ajudar essas crianças a viverem melhor consigo mesmas, respeitar o próximo.

4. O projeto tem um público-alvo muito claro: crianças de baixa renda. Como foi sua infância?

Eu não posso dizer que eu tive dificuldade, pois nunca me faltou comida na mesa. Foi uma infância bem simples, mas meu pai me ensinou a ter muita garra para ir atrás dos objetivos. A gente brinca que o meu kart era meio “feijoada” (risos), uma parte de um, cabeça de outro, carburador de um, motor emprestado de alguém. O objeto era fazer com que aquela criança, que parecia tão feliz no kart, não deixasse de ter aquele kart. Eu tinha garra, mas tive também muita ajuda. Como eu fui muito ajudado, cabe a mim hoje retribuir tudo isso.

5. Quais os próximos passos do projeto?

Crescer exponencialmente o número de pessoas atendidas, crianças, jovens e idosos. Hoje operamos com uma estrutura bem enxuta e toda a nossa captação é para aumentar o número de pessoas atendidas. Não gastamos em infraestrutura, nós vamos até os núcleos com a nossa equipe e usamos os espaços disponíveis no local e de parceiros para operar.

 

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