Yuri Kochetkov / EFE
Yuri Kochetkov / EFE

Charles Leclerc causa impacto na Ferrari e na Fórmula 1

Piloto de 22 anos termina o ano à frente de seu companheiro de equipe, Sebastian Vettel, tetracampeão mundial

Ian Parkes, The New York Times

03 de dezembro de 2019 | 10h00

Charles Leclerc disse que se sentiu “intimidado” quando chegou à Ferrari. Não se sente mais. O piloto Leclerc mostrou por que é “especial”, de acordo com Stefano Domenicali, ex-diretor da equipe, e por que Mario Andretti, vencedor do título de 1978, disse: “Ele é um campeão em formação”.

Após a corrida final da temporada de Fórmula 1, domingo, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, Leclerc, 22 anos, terminou o ano na quarta colocação com 264, à frente de seu companheiro de equipe, Sebastian Vettel, da Alemanha, quatro vezes campeão, que somou 240.

De fato, Leclerc foi impressionante na classificação. É uma conquista notável para quem, aos 21 anos e cinco meses, começou a temporada como o segundo mais jovem da história da Ferrari. Ricardo Rodríquez detém o recorde, estreando aos 19 anos e sete meses, em 1961.

A ascensão de Leclerc não surpreende Domenicali. “Quando eu estava lá, já estávamos de olho em Charles, ele ainda corria de kart”, disse Domenicali, diretor da equipe de 2008 a 2014 e agora diretor executivo da Lamborghini. “De imediato, ficou claro que ele era um grande talento e que tinha um grande futuro pela frente”.

Domenicali disse que ficou impressionado com Leclerc quando ele venceu uma corrida de Fórmula 2 em Baku, Azerbaijão, em 2017, quatro dias depois da morte de seu pai, Hervé. “Perder o pai tão jovem e vencer a corrida alguns dias depois, com força e frieza, é sinal de que você é diferente, é especial”, disse Domenicali.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

The lap that made me start from pole for my 1st ever Formula 1 win.

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Em 2016, Leclerc ingressou na Ferrari como membro da academia de pilotos, um programa que ajuda a desenvolver jovens promissores. Naquele ano, Leclerc ganhou o título da GP3, uma categoria de acesso à Fórmula 1. Ele foi campeão da Fórmula 2 em 2017.

A Sauber forneceu a Leclerc uma vaga na Fórmula 1 em 2018. Ele fez corridas incríveis, muitas vezes além do desempenho do carro, incluindo a sétima colocação nas três últimas corridas no México, Brasil e Abu Dhabi. Em setembro, a Ferrari já havia decidido que promoveria Leclerc para a equipe, ao lado de Vettel.

Leclerc teve de controlar os nervos. “No começo, quando cheguei à Ferrari, fiquei muito intimidado por causa de todas as pessoas lá, por causa da própria Ferrari”, disse Leclerc. “É o maior nome do esporte a motor”.

Antes desta temporada, Leclerc já sabia o que queriam dele. “Assim que assinei com a Ferrari, ficou claro para mim que as pessoas esperavam grandes performances”, disse ele. “Ainda que as pessoas fossem realistas o suficiente para ver que eu estava apenas começando minha segunda temporada e que ainda tinha muito a aprender”.

A curva de aprendizado tem sido íngreme e, às vezes, dolorosa. Na segunda corrida, no Bahrein, Leclerc liderava a 11 voltas do final, quando seu carro teve uma falha no cilindro do motor. Ele terminou em terceiro. Na Áustria, em junho, quando também liderava, ele foi ultrapassado na penúltima volta por Max Verstappen, da Red Bull, e terminou em segundo.

Sua primeira vitória ocorreu em setembro, em um fim de semana difícil para o esporte a motor. Anthoine Hubert morrera em uma corrida de Fórmula 2, no circuito de Spa-Francorchamps, no dia anterior. Uma semana depois, Leclerc foi a sensação da Itália ao vencer o Grande Prêmio de Monza. Foi a primeira vitória da Ferrari em casa em nove anos.

“Essa primeira vitória, antes de acontecer, sempre parece muito distante”, disse Leclerc. “Em Monza, houve muita pressão dentro e fora da pista. Primeiro de tudo, a semana inteira girou em torno da Ferrari e de nós, pilotos, pressionando pela vitória na Itália. Na corrida, acho que não tive uma volta com mais de dois segundos de vantagem sobre o cara que vinha atrás”.

Depois de duas temporadas na Fórmula 1, Leclerc impressionou Andretti. “Ele deu provas de que é um veterano em termos de capacidade”, disse Andretti. “Definitivamente, é um daqueles pilotos sobre os quais você ouvirá por um bom tempo. A Fórmula 1 está em boas mãos com pilotos assim, com esse tipo de talento”.

Mattia Binotto, diretor da equipe, começou a temporada nomeando Vettel como seu piloto número 1. Leclerc rapidamente o fez mudar de ideia. “Ele me surpreendeu pela rapidez desde o início”, disse Binotto. “Acho que ele é realmente muito rápido, e é importante para uma equipe quando você pode contar com um piloto assim”.

Leclerc estabeleceu um forte relacionamento com Binotto, que foi nomeado chefe de equipe no início do ano. “Para mim, ele tem sido muito, muito positivo”, disse Leclerc. “Obviamente, houve momentos difíceis, em que eu precisava de alguém, e ele sempre esteve lá para me ajudar, para me fazer entender quais eram os erros”.

Com dois pilotos em diferentes estágios da carreira, Binotto também teve de manter a paz no ambiente. Em Cingapura, Leclerc, que havia largado a pole, ficou descontente com a estratégia de corrida, que o deixou atrás de Vettel. Foi a primeira vitória do piloto alemão em mais de um ano.

A corrida seguinte, na Rússia, teve um desentendimento logo no início, quando Vettel se beneficiou do vácuo atrás de Leclerc, que largara na pole, para assumir a liderança. Vettel não permitiu que seu companheiro de equipe retomasse a primeira posição, apesar do acordo feito antes da corrida.

No Brasil, Leclerc e Vettel abandonaram a prova depois de colidirem enquanto disputavam o quarto lugar. Após o incidente, Binotto disse: “Eles têm um bom relacionamento e estão indo bem juntos. Certamente o que aconteceu hoje não ajuda, mas não acho que seja um grande problema. Vejo isso mais como uma oportunidade para deixarmos algumas coisas bem claras para o próximo ano”.

Essa relação harmoniosa será necessária se a Ferrari quiser acabar com o domínio da Mercedes em 2020. A equipe Mercedes estabeleceu um recorde nesta temporada, conquistando os títulos de pilotos e construtores pelo sexto ano consecutivo. “Da minha parte, sei que ainda sou jovem e tenho muito a melhorar”, disse Leclerc. “Leva tempo. Na Fórmula 1, nada é fácil, mas sinto que estou dando os passos certos, que estou trabalhando da maneira correta”. /TRADUÇÃO RENATO PRELORENTZOU

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