Reprodução/Instagram
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'Fiquei com medo de morrer', diz piloto de 23 anos da Stock que pegou coronavírus

Bruno Baptista, que ainda está com o vírus e em quarentena, conta como foi ficar oito dias internado e tomar até cinco antibióticos ao mesmo tempo

Sergio Neto, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

13 de abril de 2020 | 11h00

O novo coronavírus já mostrou que não distingue as pessoas na hora da contaminação. Jovens e esportistas também estão sujeitos a contrair a doença. Atletas de alto nível como Paulo Dybala e Kevin Durant já foram infectados. A covid-19 pegou em cheio também um piloto da Stock Car. Trata-se do brasileiro Bruno Baptista, corredor da categoria de apenas 23 anos e que passou oito dias na UTI de um hospital em São Paulo.

Baptista completou 23 anos no dia 24 de março e, de "presente", contraiu a doença que está causando milhares de mortes no mundo inteiro. Só no Brasil, mais de 1 mil pessoas já morreram. "Eu não sei aonde peguei a doença. Antes de pegar o vírus, estava em isolamento no interior de São Paulo, num lugar mais tranquilo e sem sair de casa", contou. "É difícil ficar 100% em isolamento, pois eu acho que a pessoa tem de sair para o supermercado, farmácia... E fiz essas coisas apenas."

Bruno conta ao Estado que não esbarrou em ninguém e respeito as distâncias pedidas pelos médicos. "Eu não como peguei, não dá para saber. Ninguém próximo a mim estava com o coronavírus. Tem pessoas que são assintomáticas, que não demonstram os sintomas e talvez tive contato com essas pessoas sem saber", contou o piloto. Segundo ele, o único momento em que saiu de casa foi para comprar medicamentos para parentes mais idosos.

Mesmo sem saber onde teve contato com a covid-19, Bruno logo começou a apresentar os efeitos característicos de um resfriado comum. "Comecei com os sintomas de uma gripe normal: dor no corpo, um pouco de febre e corisa. Pensei que fosse uma gripe normal, pois estava em isolamento, e jamais pensei que pudesse ser coronavírus. Mas não passava a minha febre, não parava a minha dor no corpo. A cada dia piorava um pouco. Até que um dia, falei: 'Vou para casa, vou lá para São Paulo e procurar um hospital. Não estou me sentindo legal e preciso ver o que é isso'", relatou o paulista.

Bruno conta ainda que, quando decidiu ir a um hospital, foi diagnosticado com uma gripe comum e acabou voltando para casa com medicamentos mais leves. No atendimento, foi dito a ele que não poderia fazer um exame para o coronavírus porque os testes estavam em falta e eram feitos apenas em pacientes com sintomas mais graves. Ele aceitou a explicação e foi embora.

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Quando estava parado, em casa, eu ia no banheiro e parecia que tinha corrido dez quilômetros
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Bruno Baptista, piloto de Stock Car

Seu quadro de saúde não melhorou e o piloto só passou a sentir uma piora em seu fôlego e o aumento das dores do corpo. Decidiu então entrar em contato com um médico particular e de sua confiança, que o tratou com maior atenção. Após muitas queixas de falta de ar, o profissional da saúde então optou por realizar o teste do coronavírus, que acabou por acusar positivo. "Quando estava parado, em casa, eu ia no banheiro e parecia que tinha corrido dez quilômetros", relatou. "É horrível."

Ao chegar novamente no hospital, foi submetido a novos exames que detectaram broncopneumonia com vidro fosco, que já tinha comprometido 40% da sua capacidade respiratória. "Esse vidro fosco é o causador do coronavírus, que é aí que você identifica que o coronavírus está no pulmão", explicou o piloto, repassando o que ouviu dos médicos. Ele achou que os 23 anos pudessem lhe valer alguma coisa nessa pandemia. 

"Depois disso, meu emocional foi lá para baixo. Começou isolamento, não paravam de fazer exames em mim. Médicos vinham e eu tomava um monte de remédio na veia. Tive de trocar o acesso na veia umas quatro, cinco vezes, pois os remédios que estavam me dando eram tão fortes que me machucavam. Chegue a tomar cinco antibióticos por dia", relatou. De todas as consequências do novo coronavírus, o fator psicológico é tão impactante quanto os problemas físicos. "Ficar em isolamento no hospital é a pior coisa que tem. Chegou uma hora que estava com medo de morrer. Eu pensava: 'Eu sou novo, não sou grupo de risco e estou aqui com falta de ar'. Vou morrer. Tinha dias lá que eu chorava muito. Meu emocional estava lá em baixo."

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Ficar em isolamento no hospital é a pior coisa que tem. Chegou uma hora que estava com medo de morrer
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Bruno Baptista, piloto de Stock Car

Passados alguns dias na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e sob constante observação, seu quadro de saúde começou a mostrar certa estabilidade."Eu entrei no hospital e não piorei mais. Não precisei de oxigênio, consegui controlar a minha respiração. Ainda bem que fui para o hospital o quanto antes, porque se tivesse ido um pouco mais tarde talvez a pneumonia tivesse atacado mais meu pulmão", declarou o piloto.

"É muito difícil ficar lá no hospital sozinho. Todo mundo me tratou muito bem, os médicos, enfermeiros... Todo mundo com uma garra absurda. Todo mundo com vontade de curar as pessoas. Você também vê medo nas pessoas. Foi tenso. Foram dias tristes, em que tive pensamentos errados, de que fosse morrer."

Após não apresenta recaída, Baptista então teve alta e hoje completa seu tratamento em casa, ainda não recuperado totalmente da doença e ainda ter cerca de 30% dos pulmões comprometidos. "Graças a Deus já estou em casa, mas ainda estou com coronavírus, pois eu fiz o teste de novo e deu positivo. Estou em isolamento, estou tomando antibióticos, ainda estou em estado debilitado, mas estou muito melhor."

Com apenas 23 anos, Bruno Baptista é uma das pessoas que têm como experiência de vida uma vitória sobre uma doença que tem afetado o mundo todo. "Não é uma gripezinha como estão falando. Quem pega e demonstra esses sintomas é muito difícil", disse. "Eu espero que todo mundo fique em casa, porque não é brincadeira. Eu acho que é só o começo da nossa batalha."

NAS PISTAS

O paulista foi um dos destaques da Stock Car na última temporada. Ele venceu uma das etapas e se tornou um dos mais jovens a conquistar o feito na categoria, aos 22 anos. Foi eleito o piloto revelação de 2019 e teve seu contrato renovado com a equipe RCM. "O pessoal está saindo de casa. Não é para sair de casa, porque vai chegar a hora que o Brasil vai chegar no pico. A gente não está no pico ainda de infectados e de mortes. Então, pelo amor de Deus, a gente tem de ter consciência", alertou Bruno.

"Eu tenho 23 anos, sou atleta, faço exercícios todos os dias, sou super saudável, me alimento bem... E olha como estou. Olha minha voz. Estou ofegante ainda. Imagina uma pessoa de 50, 60, 70 80 anos quando ela pega a doença. Uma pessoa mais velha do que eu, que não tem o mesmo porte físico que o meu, vai sofrer muito mais. É algo que me assusta, me assustou e está me assustando ainda. Espero que todos no Brasil tenham consciência de fazer sua parte e ficar em casa", disse, alertando sobre a importância dos procedimentos de segurança e saúde pública adotados no mundo, como lavar as mãos com sabão.

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