Andrew Boyers/Reuters
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Com autódromo de R$ 700 milhões, Rio quer tirar a Fórmula 1 de São Paulo

Projeto de nova pista a ser construída em Deodoro busca receber provas da categoria a partir de 2021

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

16 Dezembro 2018 | 04h30

O Rio de Janeiro quer entrar na briga com São Paulo para receber o GP do Brasil de Fórmula 1 a partir de 2021. A Prefeitura da cidade publicou na última semana o aviso de licitação no Diário Oficial para comunicar que em 29 de janeiro abrirá concorrência pública para execução das obras de um novo autódromo. O projeto de R$ 697,4 milhões prevê a construção de uma pista em Deodoro, próximo ao Parque Olímpico, com recursos privados e a concessão do espaço por 35 anos. 

"A ideia é que o Rio de Janeiro volte a ter condições de sediar as competições esportivas internacionais de Fórmula 1, Fórmula Indy, Moto GP e outras modalidades do automobilismo", disse ao Estado o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. O plano é concluir a obra até o fim de 2020, data que vai coincidir com o encerramento do atual contrato para realização da etapa brasileira da Fórmula 1 em Interlagos, São Paulo. A capital paulista, no entanto, vai brigar para renovar o vínculo.

"O projeto do novo autódromo foi modelado de modo a não se falar em dispêndio de verbas municipais. Assim, todo o investimento inicial e dispêndios para operação e manutenção ficarão a cargo da concessionária", completou Crivella. 

Em novembro, o novo chefe da Fórmula 1, Chase Carey, viajou ao Rio alguns dias depois do GP do Brasil, realizado em Interlagos, para conhecer o projeto carioca. O dirigente se encontrou com o prefeito e o governador eleito, Wilson Witzel, que disse na ocasião considerar um compromisso receber a F-1 em 2021. Questionada pela reportagem, a administração da categoria disse que não comentaria o tema.

A cidade recebeu pela última vez a principal categoria do automobilismo em 1989. Ao todo foram dez GPs, todos realizados no antigo autódromo de Jacarepaguá, demolido em 2012 para dar lugar ao Parque Olímpico da Barra da Tijuca, local das principais competições dos Jogos do Rio. Desde 1990, a F-1 realiza a etapa brasileira em Interlagos.

A construção do novo autódromo do Rio é um tema recorrente. Desde o fim de Jacarepaguá, a cidade assumiu o compromisso de erguer um novo circuito e encontrou o local ideal em Deodoro, na região da Floresta do Camboatá. A área de 2 milhões de m² pertencia ao Exército e foi cedida à Prefeitura.

O terreno precisou primeiramente passar por uma ampla limpeza. Durante cerca de 60 anos o Exército utilizou o local como depósito de munições e explosivos. Então, foi necessário realizar uma descontaminação do terreno. 

O Ministério do Esporte investiu R$ 60 milhões no trabalho. Ao longo de três anos, escavações de até dez metros de profundidade e a atuação de 250 militares resultaram na retirada de cerca de 4 mil granadas enterradas.

Em março do ano passado, a construção voltou a avançar. A prefeitura do Rio abriu o Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) para receber propostas sobre a construção de um novo circuito, dentro das exigências técnicas de infraestrutura e de acordo com o cumprimento de requisitos ambientais. O projeto vencedor passou por correções, análises, consulta pública e audiências. Agora, ele serve para nortear a licitação futura, porém não é um modelo definitivo e pode passar por algumas modificações de acordo com a empresa vencedora.

Um grupo de 60 profissionais das áreas de marketing, meio ambiente e engenharia apresentou o projeto de um autódromo de 5,4 km de extensão, média de velocidade de 220 km/h e capacidade para 100 mil pessoas. O traçado é assinado pelo escritório do arquiteto alemão Hermann Tilke, autor da maioria dos desenhos das novos pistas da F-1, como, por exemplo, na China, Cingapura, Abu Dabi, Rússia e Bahrein. 

"Representantes da Fórmula 1 estiveram aqui no Rio com interesse. Há uma negociação adiantada com as 24 Horas de Nurburgring e a Moto GP já assinou um protocolo de intenções", afirmou JR Pereira, CEO da Crown Consulting, empresa que desenvolveu o estudo do autódromo carioca. "O arquiteto gostou de utilizar a elevação do terreno e tentou recriar uma espécie de Spa Francorchamps no Rio de Janeiro", comentou Pereira em referência ao famoso autódromo na Bélgica.

A intenção inicial é estimular os espectadores a irem ao autódromo de transporte público, com a utilização da estrutura construída em Deodoro para os Jogos do Rio, de 2016.

IMPACTO DO AUTÓDROMO DE DEODORO

Pela estimativa do prefeito do Rio, o novo autódromo pode trazer para a cidade a geração de 7 mil empregos e um impacto econômico anual acima de R$ 600 milhões. O Brasil, geralmente, recebe a penúltima prova da temporada.

Para o presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) Waldner Bernardo, o projeto carioca mostra uma nova tendência do esporte a motor de reconquistar investimento privado. "Reposicionar a cidade no mapa do nosso automobilismo é fundamental para colocarmos o esporte a motor no lugar de onde nunca deveria ter saído."

 

 

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Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2018 | 04h30

A Fórmula 1 tem com o Rio de Janeiro uma relação marcada por episódios marcantes e curiosos na história do GP do Brasil. Na década de 1980 o antigo circuito de Jacarepaguá abria o calendário do campeonato e recebia as equipes para os testes de pré-temporada realizados durante o verão carioca.

Entre 1983 e 1989 a pista foi o primeiro GP do ano. Por isso, a categoria desembarcava no Rio semanas antes da estreia, para trocar o inverno europeu pelo forte calor, mais propício para se testar a resistência das peças e dos pneus.

A pré-temporada estava longe da formalidade e do segredo de hoje em dia. Fotos da época mostram mecânicos e engenheiros sem camisa trabalhando nos carros, pilotos de shorts e sem o boné de patrocinadores, além do público circulando livremente nos boxes em busca de autógrafos. Fora do expediente no autódromo, os pilotos costumavam ir à praia e curtir a noite no Rio.

"O circuito era muito interessante. Tinha um traçado com boas curvas e uma ampla área de escape, com grama e areia. A vista em Jacarepaguá também era muito bonita", relembra o ex-piloto Wilson Fittipaldi.

O clima descontraído da pré-temporada acabou em 1989, não só pela despedida do Rio do calendário e a ida para São Paulo, como também por um grave acidente. O francês Philippe Streiff guiava durante os testes quando capotou e o carro caiu virado de cabeça para baixo. 

O atendimento foi demorado e executado de maneira incorreta, sem a proteção do colar cervical para o transporte. O francês acabou levado de carro a um hospital. As lesões na coluna lhe deixaram tetraplégico.

Mesmo com episódio, as corridas em Jacarepaguá guardaram também histórias marcantes para o automobilismo brasileiro. Em 1986, a vitória de Nelson Piquet, da Williams, e o segundo lugar de Ayrton Senna, da Lotus, deram ao País uma dobradinha dentro de casa. Além de 1986, Piquet ganhou na pista também em 1983.

Senna, inclusive, realizou no Rio a sua estreia na Fórmula 1, em 1984, pela Toleman. O maior rival dele na carreira, o francês Alain Prost, foi quem mais teve sucesso na pista. Foram cinco vitórias. 

A primeira prova de Fórmula 1 no Rio, em 1978, teve como ápice o segundo lugar de Emerson Fittipaldi. O bicampeão mundial era na época chefe da equipe pela qual corria, a Copersucar. O único carro brasileiro da história da categoria surpreendeu no fim de semana e só ficou atrás do argentino Carlos Reutemann, vencedor da prova.

Na década de 1990 o autódromo recebeu outras categorias internacionais. Uma pista de oval foi montada para provas da Fórmula Indy e o circuito com o traçado original foi utilizado para Moto GP pela última vez em 2004. Logo depois a pista acabou reduzida para dar lugar a obras do Pan de 2007, porém continuou a receber categorias nacionais como Stock Car e Fórmula Truck até 2012.

 

 

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