Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Conheça o empresário que quer levar o GP do Brasil de Fórmula 1 para o Rio

Candidatura carioca pretende receber a Fórmula 1 a partir de 2021 em autódromo a ser construído em Deodoro

Ciro Campos, Felipe Rosa Mendes, O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2019 | 10h45

O GP do Brasil de Fórmula 1 será realizado no próximo domingo, em Interlagos, em um clima de expectativa sobre o futuro da prova. A cidade de São Paulo tem contrato com a categoria para realizar o GP somente até o próximo ano e enquanto negocia para renovar, enfrenta ainda a concorrência de outra candidatura. O Rio de Janeiro quer receber a prova a partir de 2021 e um autódromo a ser construído em Deodoro por R$ 700 milhões. O projeto tem o apoio do presidente Jair Bolsonaro.

Tão surpreendente quanto o anúncio de Bolsonaro em maio de que a Fórmula 1 iria para o Rio de Janeiro, a figura de José Antônio Soares Pereira Júnior à frente do projeto gerou diversas perguntas no mundo do automobilismo nacional. A principal delas: quem é o desconhecido empresário, de bom papo, que encabeça a empreitada carioca de tentar tirar o GP do Brasil do autódromo de Interlagos?

Chamado de JR Pereira, o mineiro de Belo Horizonte é formado em Engenharia Eletrônica pela PUC de Minas Gerais. De família de classe média, herdou da mãe uma fazenda e cabeças de gado. O pai tinha uma pequena construtora. "Nunca trabalhou para o governo", frisa o empresário, em entrevista ao Estado. Boa parte dos 45 anos de vida se passou nos Estados Unidos, onde desembarcou menino, aos 14.

Por lá ele se desenvolveu profissionalmente em grandes empresas da área Militar e do Direito, e ganhou o título de Cidadão Honorário Americano. Sua principal atuação foi como conselheiro e consultor de empresas interessadas em fazer negócios no Brasil. Assim foi na Squire Patton Boggs LLP, "um escritório de Direito e de Lobby sediado em Washington", segundo aponta seu currículo. Na área militar, trabalhou para a Lockheed Martin, uma das maiores produtoras de artefatos militares (mísseis e caças) do mundo. Só depois o automobilismo apareceria como área de interesse.

"Aconselhava empresas de fora do país que pretendiam lançar um novo negócio no Brasil. Também aconselhava companhias interessadas em fusões e aquisições de empresas brasileiras. Ajudava empresas a entender e navegar pelas exigências das leis brasileiras em termos de contabilidade, crédito e finanças", diz o engenheiro, em seu currículo.

Ele se aproximou da área militar desde cedo quando serviu nas Forças Armadas dos EUA. Fez treinamento como atirador de elite e chegou a se tornar recordista brasileiro e norte-americano no tiro esportivo.

No retorno ao Brasil, atuou no comando da Crown Consulting, empresa especializada em segurança e processamento de dados. A companhia desenvolveu o primeiro automóvel conectado à internet. Nesse trabalho ele também enfrentou polêmicas. Seu nome foi citado no relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Correios, em 2006, por ter recebido empréstimo de R$ 21,8 mil da SMP&B, uma das empresas do publicitário Marcos Valério envolvidas no Mensalão. JR Pereira confirma que recebeu o dinheiro e já quitou o empréstimo para entrar num empreendimento de golfe em Belo Horizonte. Ele nega qualquer envolvimento em atos ilícitos. Ele não foi indiciado na investigação.

Em outro caso polêmico, foi apontado como doador de dinheiro para Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT. Pereira diz que contratou Delúbio como consultor para obter informações sobre o Brasil para empresas estrangeiras. Ao fechar a Crown, o empresário deixou dívidas trabalhistas, estimadas atualmente em R$ 24,7 milhões. "Essa dívida já foi maior, mas estou pagando aos poucos a cada um dos meus ex-funcionários", explicou o executivo.  

A proximidade com empresários de diversos setores e com integrantes de diferentes governos faz parte do seu trabalho, diz Pereira. "Meu trabalho sempre foi o de não aparecer, sempre foi passar despercebido", afirma ao Estado. A discrição dos seus trabalhos contrasta com os quase dois metros de altura e as respostas inesperadas. "Não tenho porta-retratos em casa", disse, ao revelar que não tem filhos e que seus pais já morreram. O sonho de erguer um autódromo no Rio já teve como resultado o acordo selado com a MotoGP, que terá uma etapa em Deodoro a partir de 2022.

Foi sua habilidade comunicativa que lhe propiciou diversos contatos e amigos em diferentes setores profissionais. No Exército Brasileiro, por exemplo, se tornou figura conhecida entre generais por causa da época em que atuou na área militar nos EUA. Quando trabalhava para a Lockheed Martin, esteve envolvido em contratos que superavam R$ 1 bilhão, afirma.

E foi assim que a F-1 atravessou o seu caminho. Foram políticos ligados ao Exército, diz ele, que o incentivaram a buscar investidores para recriar o autódromo do Rio de Janeiro, como compensação para a destruição do circuito de Jacarepaguá. JR Pereira preferiu buscar somente parceiros privados, quase todos estrangeiros. "As empresas estão bancando tudo", garante.

A atuação nos bastidores chegou ao fim em maio deste ano. Então desconhecido, Pereira se tornou nome fácil no noticiário esportivo meses atrás ao aparecer em evento público ao lado de Jair Bolsonaro, com quem nega ter relação próxima, apesar do passado em comum no Exército. Naquela ocasião, o presidente da República surpreendeu ao afirmar que a Fórmula 1 iria ser disputada no novo autódromo, com "99% de chance ou mais".

O anúncio na época pegou até JR Pereira desprevenido. "Fui pego de surpresa, mas agradeço ao presidente. Depois daquelas declarações, as portas se abriram", explica.

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