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Reginaldo Leme
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De volta ao México

Tenho boas lembranças do GP do México, mas não da cidade do México. Nunca vi trânsito pior (e olha que vivo entre São Paulo e Rio). E quanto ao jeito de ser, nem os nossos alegres e simpáticos baianos são pessoas tão malemolentes como os mexicanos. Eu não vivi a primeira fase mexicana na Fórmula-1, entre 1963 e 1970, mas na segunda, de 86 a 92, estive em todas. Sofri no trânsito, com os policiais que nos paravam para pedir "propina" por causa da placa de nossos carros alugados, sem saber que eles eram alugados. Mas o pior não foi na F-1 e, sim, na Copa, também em 1986.

Reginaldo Leme, O Estado de S. Paulo

31 de outubro de 2015 | 03h00

A Copa aconteceu quatro meses antes de ser reinaugurado o GP do México, e as distâncias a percorrer para cobrir treinos de seleções (eu estava escalado para fazer o grupo da Argentina) eram bem maiores e, inevitavelmente, tínhamos que passar pelo Elevado (lá se chama Periférico). Aquilo, sim, é terrível. E olhe que estamos falando de 23 anos atrás. De lá pra cá o número de carros nas ruas da capital mexicana cresceu 80%. Na F-1, graças à experiência anterior da Copa, elegemos o Holiday Inn próximo ao aeroporto como o nosso hotel. De lá não precisávamos passar pelo maldito Periférico. 

Durante a Copa aprendi a conhecer o jeito mexicano, No começo, me irritava. Depois continuou irritando, mas cada dia menos. Eles usam muito a expressão "ahorita mismo", sempre que você pede alguma coisa. 

Depois de trinta e tantos dias convivendo com o "ahorita mismo", fui convocado para fazer a última reportagem da Globo no México, um dia após a final da Copa, para encerrar o JN. A ideia era tentar uma tradução mais aproximada possível da tal expressão que se ouvia o tempo todo. E o resultado foi muito engraçado. Entrevistei gente de todas as idades, classes, profissões e não ouvi uma única resposta igual às outras. Mas, no fundo, todas elas queriam dizer um tipo de "segura aí, que já vem" do brasileiro.

Mas eu fui mais fundo para tentar determinar decifrar o quanto poderia demorar o "ahorita mismo". Mais uma vez, as respostas não batiam uma com as outras. Ninguém se incomodou em responder, mas ficou claro que poderia significar alguns poucos minutos, cerca de meia hora ou, como encerrou a reportagem com a frase vinda de um policial: "Puede ser uma eternidad". E ponto. Era a definição mais precisa daquilo que nos acompanhou a Copa inteira. E o policial mexicano acabou encerrando o JN daquela segunda-feira.

A Fórmula-1 passou a existir para os mexicanos graças à aventura de dois irmãos amantes do automobilismo, os Rodriguez, Pedro e Ricardo. Foi pelas mãos deles que o também mexicano Jo Ramirez conseguiu levar seu conhecimento de mecânica até a principal categoria do mundo. Após a morte dos irmãos, Ramirez foi trabalhar com Jackie Stewart, depois participou do nascimento da equipe Copersucar-Fittipaldi e, no final dos anos 80, se tornaria figura importante na melhor fase da McLaren, a de Senna e Prost. Por falar bem o português, ele teve participação até mesmo na contratação de Ayrton Senna no final de 87, quando serviu de interlocutor entre Ron Dennis, dono da McLaren, e Tereza Brown, brasileira casada com Creighton Brown, sócio da equipe.

Depois da primeira fase (1963-1970), a F-1 voltou ao México nos melhores anos da categoria, de 86 a 92, e agora, 23 anos depois, os mexicanos retomam o seu GP, no mesmo "Hermanos Rodriguez", completamente reestruturado, não apenas em acomodações moderníssimas, mas numa pista que passa de alta para média velocidade, embora tendo a reta mais longa (1.314 metros). Não existe mais a desafiadora curva Peraltada, onde Ayrton Senna sofreu uma capotada. Existe agora uma série de curvas lentas, que são traços característicos do arquiteto Herman Tilke. Mas, inegavelmente, o conceito de "estádio" copiado do circuito alemão Hockenheim, é uma solução inteligente.

No asfalto, por ter sido usado pela primeira vez, os pilotos mal conseguiam parar na pista. Mas até amanhã estará em condições de proporcionar uma corrida com ultrapassagens. Vamos torcer para não vir a chuva prometida, porque limparia a borracha que deixou o asfalto no ponto.


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