Ecclestone arquiteta novo acordo na F1

O "pacotão" anunciado por Max Mosley, presidente da FIA, modificando radicalmente o regulamento esportivo e técnico da Fórmula 1, rompeu com tradições que a acompanhavam praticamente desde a sua origem, em 1950, como a reclusão dos carros num parque fechado entre a classificação, sábado, e a corrida, domingo. Seria igualmente bom para os interesses da própria Fórmula 1 se os assuntos que envolvem sua administração abandonassem a desgastada receita do segredo absoluto e fossem públicos, por exemplo.Nesta quinta-feira, no circuito Albert Park vieram à tona mais detalhes do plano de Bernie Ecclestone, promotor da Fórmula 1, de rever o Acordo da Concórdia, conjunto de normas que gerenciam a competição, em especial o muito dinheiro arrecadado, o que a curto prazo poderia revolucioná-la.É mesmo uma pena que diante da abertura proposta por Mosley as informações da iniciativa de Ecclestone tenham de ser ouvidas de fontes que se pronunciam em voz baixa. O maior responsável pela Fórmula 1 transformar-se num evento milionário, Ecclestone, está propondo completa revisão dos termos do Acordo da Concórdia.Surpreendentemente, os representantes das montadoras que investem na Fórmula 1 encontraram-se pela primeira vez com o dirigente, nesta qunta-feira em Genebra, Suíça, para conhecer suas idéias. Os últimos acontecimentos relativos à aprovação do "pacotão" gerou profundo desconforto nessa relação.Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari, Frank Willliams, da Williams, e Ron Dennis, da McLaren, dentre outros, vêm criticando com regularidade Ecclestone. "A Fórmula 1 mais forte que ele deseja seria mais facilmente alcançada se uma parte maior do dinheiro que nós geramos ficasse conosco mesmo e não com ele e seus sócios", disse recentemente Frank Williams.A primeira providência de Ecclestone seria readquirir os 75 % que vendeu da Slec, holding que detém os direitos de TV do evento, sua maior fonte de renda, algo perto de meio bilhão de dólares por ano. Hoje eles estão com os três bancos que financiaram a sua compra pelo grupo alemão Kirch, que quebrou e não pagou a dívida.São eles JP Morgan Chase, Lehhman Brothers e Bayerische Landesbank. Ecclestone já teria até lhes oferecido um milhão de libras, US$ 1,6 bilhão. Os outros 25% já são de sua propriedade. Há quem diga também na Fórmula 1 que Ecclestone e Mosley falaram tanto em crise nos últimos tempos com o objetivo de abaixar a cotação dessa que hoje está com os bancos. Ecclestone a compraria por um valor bem menor do que vendeu.A partir do momento em que o dirigente inglês de 72 anos tornar-se novamente dono sozinho da Slec, a principal reivindicação das montadoras que criaram a empresa Grand Prix World Championship (GPWC), para organizar um campeonato próprio em 2008, seria atendida: redistribuição do dinheiro arrecadado pela Slec. "Não faz sentido nós ficarmos com 47%, para dividir entre todos, e o senhor Ecclestone com 53%", diz em quase todos encontros com a imprensa Luca di Montezemolo.Prazo - O Acordo da Concórdia, que definiu essas porcentagens, com a anuência dos mesmos homens que hoje o criticam, termina no fim de 2007. Ecclestone quer um novo contrato que atenda mais os interesses de todos e estender o compromisso até o término do campeonato de 2015.Nesta sexta-feira representantes das montadoras que fazem parte da GPWC começam a discutir a questão em Genebra. É uma abertura que até há pouco não existia. Pode ser o início da imprescindível reestruturação da Fórmula 1 que, se ocorrer, trará benefícios quase imediatos às equipes, como alguns de seus proprietários não associados a montadoras deixarem de circular com o chapéu na mão recolhendo doações para não fechar as portas. Quem sabe, por isso, esse novo acordo seja chamado de Acordo da Misericórdia.

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