Engenheiro faz história na F-1

O engenheiro Ricardo Divila, diretor-técnico da Prost Junior Team, equipe de Fórmula 3000, é uma daquelas figuras que têm e fizeram história no automobilismo. E, principalmente, em Interlagos. Dos seus 55 anos de vida, 32 foram dedicados às corridas de automóveis, sendo 22 na Fórmula 1. No total, ele esteve presente em 276 Grandes Prêmios. Divila participou, ao lado de Émerson e Wilsinho Fittipaldi, do projeto do primeiro - e único - Fórmula 1 brasileiro, o Copersucar-Fittipaldi, no final dos anos 70 e início dos 80. Também trabalhou na Lotus, McLaren, Brabham, Minardi, March e Fondmetal, sempre como diretor-técnico ou projetista. No auge de seu fascínio pela profissão, há quatro anos, como diretor-técnico da Nissan, conseguiu a proeza de passar 343 dos 365 dias do ano fora de casa, num sítio na cidade de Magny-Cours, região central da França. "Dormi mais em avião que em qualquer outro lugar. Conheço mais um motor Cosworth que minha mulher", brinca. Não por acaso, sua mulher, a dona-de-casa inglesa Cristina, é ecologista radical e odeia automobilismo. "A Cristina acha que automóvel só serve para poluir o ar", afirma. "Se dependesse dela, não existiriam corridas de automóveis. Tudo o que é gasto neste esporte seria destinado às crianças carentes e educação." Divila não é contra os princípios da mulher. O problema é que ele não consegue viver sem automóveis. Tanto que, nessa passagem por São Paulo, vasculhou a casa da mãe, no bairro de Jardim Prudência, zona sul da cidade, e encontrou um tesouro: uma velha e empoeirada maleta de viagem com fotos, relatórios, adesivos e outras lembranças da equipe Copersucar, na qual trabalhou entre 1975 e 1982. Alguns dos documentos, por sinal, ele garante que vai emoldurar e colocar nas paredes de sua casa. Eles mostram que a equipe conseguiu bons resultados e que teve como pilotos, além de Émerson, o finlandês Keke Rosberg, campeão mundial em 1982. "Ainda vou lançar um livro contando minhas memórias no automobilismo. Tenho orgulho de ser brasileiro e de ter trabalhado numa equipe como a do Émerson. Era um time de primeira. Ele deixou de ganhar dois títulos mundiais para se dedicar ao projeto." O orgulho de ter nascido no Brasil vem de longe. Ricardo Divila gosta de contar que toda sua formação como engenheiro foi construída, em escolas como a FEI, no ABC paulista. Apaixonado por aviões, ele pensou em cursar engenharia aeronáutica, mas acabou indo para os automóveis por influência de amigos. "Só não volto a morar no Brasil porque o mercado de trabalho no automobilismo de competição está muito restrito", afirma. "Mas esse é um país fantástico, de um potencial imenso. As coisas aqui mudam a cada semana. Isso não acontece na Europa." Justamente pela opção de viver das corridas de automóveis, Ricardo Divila diz ter abandonado a Fórmula 1. Ele não se conforma com o fato de os regulamentos restritivos e os interesses comerciais terem superado o talento e a criatividade de pilotos e engenheiros. "Hoje, prefiro trabalhar numa competição como o Paris-Dakar, na qual os desafios são diários, a criatividade é que conta." Esses ingredientes, paradoxalmente, não existem na categoria em que trabalha hoje, a Fórmula 3000. Os chassis e os motores são os mesmos para todos os pilotos. "Estou na Prost porque esse campeonato é um dos poucos que ainda não ganhei em minha carreira. E sei que este ano, pela própria condição da equipe, não somos os favoritos. Mas esse é apenas mais um desafio a ser superado."

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