Equipes da F1 na mira dos hackers

O GP da Austrália marca a volta da telemetria bi-direcional à Fórmula 1, recurso proibido pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) em 1993, junto de outros equipamentos eletrônicos.Trata-se de uma técnica capaz de enviar dos boxes, via ondas de rádio, informações para a alteração no gerenciamento de sistemas instalados no carro enquanto este está na pista. Como a telemetria bi-direcional é um prato cheio para os hackers, as equipes entraram em alerta. "Se as mensagens não forem bem codificadas, corre-se o risco de um hacker intervir e explodir o motor do carro", diz Sam Michel, chefe dos engenheiros de pista da Williams. Na lateral da carenagem que cobre o motor de alguns carros de Fórmula 1 há um sensor. Sobre a mureta dos boxes da sua equipe, um canhão de ondas de rádio direcionado na sua direção. Essas ondas têm a capacidade de "acertar" o sensor do carro e fazer com que, por exemplo, a mistura ar/combustível do carro seja alterada. Mais: o diferencial possa vir a trabalhar com mais ou menos carga e o controle de tração intensifique ou diminua sua ação. É isso o que foi liberado pela FIA, definida como telemetria bi-direcional. "As equipes codificam essas mensagens para não serem surpreendidas por adversários interessados em estragar sua corrida e até por aventureiros (hackers)", diz Gary Anderson, da Jordan. As vantagens são menores das supostas por causa de esses recursos estarem já disponíveis nos próprios carros. "Acho que é uma preocupação a menos para nós", explica Rubens Barrichello, da Ferrari. "Hoje já são 14 botões no volante para controlar tudo isso. Se alguém de fora, até com mais dados do que nós sobre o funcionamento desses sistemas, pode intervir por nós, melhor." Um display instalado no volante mostra ao piloto, desde que ele acione uma tecla selecionando a função da telemetria bi-direcional, lhe expõe o que está sendo alterado no seu carro. Esse quadro de vulnerabilidade a uma informação externa, ainda que codificada, já deve ter causado várias reuniões de hackers em muitas partes do mundo. "Potencialmente estamos sujeitos a suas ações", admite Sam Michel. As consequências, além da citada no motor pelo técnico australiano da Williams, podem ser até mesmo perigosas. "Se, de repente, o diferencial atuar com uma carga completamente oposta à esperada pelo piloto, por ter recebido ordens de fora para modificar sua atuação, as reações do carro podem surpreendê-lo, causando um acidente." A saída, segundo o técnico, é desenvolver sistemas complexos de mensagens e sensores bastante específicos, sensíveis apenas a essas mensagens. A Renault já se disse vítima, ano passado, da ação de hackers, que teriam invadido seus programas de computador a fim de roubar dados do revolucionário motor usado pela equipe, com ângulo de 111 graus entre as bancadas de cilindros, diante dos 90 graus adotados pela Ferrari, Mercedes, BMW e Honda.

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