Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Fórmula 1: O guia da temporada 2019

Com nova regra de pontuação, campeonato pode coroar Lewis Hamilton como o segundo maior piloto da história

Ciro Campos, Felipe Rosa Mendes, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2019 | 04h30
Atualizado 15 de março de 2019 | 17h45

A temporada 2019 começa domingo, dia 17 de março, na Austrália, com a expectativa de uma nova coroação de Lewis Hamilton e da chegada de jovens pilotos brasileiros à Fórmula 1. O inglês da Mercedes tentará ser hexacampeão e se aproximar do recorde de títulos do alemão Michael Schumacher, enquanto adversários diretos como Sebastian Vettel e Valtteri Bottas tentam surpreender. 

O 70.º campeonato da história da Fórmula 1 traz como novidade a presença de brasileiros como pilotos reservas, de testes. Pietro Fittipaldi e Sérgio Sette Camara tentam neste ano se preparar e mostrar serviço para se candidatar ao posto de piloto principal. A longa temporada terá 21 corridas e só vai terminar em dezembro, no GP de Abu Dabi, um depois do Brasil.

A principal novidade no regulamento de 2019 será na pontuação dos pilotos. Depois de 60 anos, está de volta ao regulamento dar ponto extra para quem fizer a volta mais rápida da corrida. De certa forma, isso estimula o pé no fundo do acelerador. Mas apenas vai valer se o dono da marca estiver entre os dez primeiros colocados. Apesar de parecer uma diferença pequena, esse regulamento teria coroado outros campeões do mundo em 2007 e 2008 caso estivesse em vigor. Em 2008, por exemplo, o campeão seria Felipe Massa.

Hamilton busca o hexa para ser o segundo maior da história da Fórmula 1

O piloto inglês Lewis Hamilton, da Mercedes, tem a chance de comemorar o título que tanto a seleção brasileira busca na Copa do Mundo de futebol. O hexacampeonato é uma oportunidade real para o inglês. Vencedor nas quatro das últimas cinco temporadas e maior competidor da Fórmula 1 na atualidade, ele tem a chance de fechar o ano com uma posição histórica honrosa na categoria.

O sexto título mundial deixaria Hamilton atrás somente do heptacampeão Michael Schumacher em número de conquistas. A nova taça faria o corredor inglês superar ainda a lenda argentina Juan Manuel Fangio, campeão na década de 1950, e se isolar como o segundo maior piloto de todos os tempos em números de campeonatos conquistados. As conquistas recentes do inglês lhe fizeram superar nomes como Ayrton Senna, Niki Lauda, Sebastian Vettel e Alain Prost, quatro lendas do automobilismo, com Vettel ainda nas pistas. Agora, ele busca outros objetivos.

Lewis Hamilton continua favorito por estar no cockpit de uma equipe vencedora. Desde a radical mudança no regulamento da Fórmula 1 em 2014, com a adoção dos motores turbo, a Mercedes dominou a categoria ao ganhar todos os campeonatos de construtores e de pilotos desde então. O inglês mostrou regularidade impressionante nesses cinco últimos anos, ao vencer pelo menos nove vezes em cada temporada, o que não ocrreu com seu compnaheiro de escuderia. Daí a certeza de que pilotar ainda faz diferença.

As vitórias, aliás, são um outro ingrediente para Hamilton buscar o posto de segundo maior da história. No ranking dos cerca de mil pilotos que participaram da Fórmula 1 desde 1950, o inglês perde somente para o alemão Michael Schumacher na lista de quem mais ganhou provas. O placar de agora é 91 a 73. Dificilmente a diferença acaba nesta temporada, mas com 34 anos e uma motivação enorme por competir, Hamilton tem grandes chances de, em breve, se tornar o maior piloto de todos. Com o tempo, vão falar de Lewis como se fala hoje de Prost, Senna, Piquet, Schumacher...

O contrato do inglês com a escuderia alemã vai até o fim de 2020. O piloto mais bem pago da Fórmula 1 recebe por ano da Mercedes cerca de R$ 200 milhões, segundo informações do jornal The Guardian, porém ele conta ainda com outros vencimentos vindos de patrocinadores e de eventos promocionais que alcançam outros R$ 30 milhões anuais. 

"Não tenho planos (de superar Schumacher). Apenas quero viver um dia de cada vez. Sou agradecido pelo momento que estou vivendo, pelo que conquistei na F-1", disse ao Estado em novembro do ano passado quando estava no Brasil. "Há muitas diferentes razões que me mantêm na Fórmula 1. Eu acho que naturalmente sou competitivo, é meu DNA", completou o piloto, em recado claro de que o hexacampeonato está no seu horizonte.

Vettel, Verstappen e Leclerc desafiam o domínio de Lewis Hamilton

Um grupo de candidatos a estragar a festa de Lewis e a surpreender na Fórmula 1 está ansioso para o começo da temporada. Após verem nos últimos anos a Mercedes dominar a categoria, pilotos como Sebastian Vettel, Max Verstappen, Valtteri Bottas e o novo contratado da Ferrari, o monegasco Charles Leclerc, estão entre os principais candidatos a ameçar o domínio do pentacampeão.

O grande rival continua a ser o alemão Vettel, da Ferrari. Vice-campeão nas duas últimas temporadas, ele ainda se ressente das falhas de pilotagem do ano passado. Vettel liderou durante a primeira metade do ano e deixou Hamilton assumir a ponta ao se desconcentrar e bater o carro a poucas voltas do fim do GP no seu próprio país, em Hockenheim. O erro abalou sua confiança e ele caiu de rendimento desde então.

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Mas o ano de 2019 começou promissor para Vettel. A Ferrari foi bem nos testes de pré-temporada, em Barcelona, quase sempre um termômetro de boa temporada. Até mesmo Hamilton admitiu ver a equipe italiana em vantagem nesse início de ano. "A distância para a Ferrari está na casa do meio segundo", comentou o inglês, que prevê uma disputa mais apertada. "As outras equipes reduziram a diferença também. Não sei quem é o quarto colocado, mas estão muito mais perto do que antes", comentou.

A escuderia italiana não ganha o Mundial de Pilotos desde 2008. Para encerrar o jejum, decidiu promover uma aposta e trouxe o jovem Leclerc, de 21 anos, para correr. Após participar da Academia de Ferrari, ele começa a ser preparado para ser o principal piloto do time. Para este ano, o plano dos italianos é dar experiência a ele e fazer com que o garoto seja competitivo e promova uma espécie de "sombra" para Vettel. 

Mesmo dentro da Mercedes há quem esteja bastante disposto a atrapalhar Hamilton. Colega de equipe dele pelo terceiro ano seguido, o finlandês Valtteri Bottas se cobra para ser menos coadjuvante e atuar nesta temporada com um verdadeiro desafiante. A pressão também é grande sobre seus ombros. "Em todas as situações de corrida, mentalidade, atitude, tudo eu vou tentar ser o mais perfeito que posso. Eu quero que esta temporada seja a minha melhor temporada até agora, e não deixar pedra sobre pedra", disse, em tom de desafio.

Quem vive situação parecida é Max Verstappen. O holandês da Red Bull assombrou o mundo pela precocidade e talento na F-1, mas carece de regularidade para se tornar um candidato firme ao título, um piloto mais regular. O temperamento explosivo do piloto ainda precisa ser domado para que acidentes e punições, como foram o caso em 2018, se transformem em estabilidade e concentração.

Temporada está mais longa e cada vez mais cara na Fórmula 1

A Fórmula 1 vai vivenciar em 2019 uma das maiores maratonas de suas 70 edições. Pilotos e equipes vão ter pela frente dois recordes históricos. Ao continuar com 21 provas, o calendário repete anos anteriores e se mantém como um dos mais inchados, porém terá neste ano o diferencial de estar mais longo. Serão oito meses e três semanas de disputa, já que entre uma etapa e outra haverá mais semanas de intervalo. Não haverá mais três GPs seguidos, por exemplo.

Essa mudança faz com que a estreia ocorra agora em março, dia 17, e ter seu último GP em dezembro, em Abu Dabi. O desafio para os organizadores da categoria, assim como para as escuderias, é tratar antecipadamente da logística complexa de fazer todos os carros e equipamentos cruzarem continentes e fronteiras a tempo do compromisso seguinte. Tudo isso tem preço alto. O orçamento anual de todas as equipes da Fórmula 1 juntas é estimado em até R$ 10 bilhões.

As principais equipes, como a Mercedes e a Ferrari, chegam a ter orçamento anual de R$ 1,5 bilhão cada, isso sem contar o gasto com motores. Cada uma delas tem mais de 900 funcionários, dos quais pelo menos 200 são levados para cada GP. Segundo a imprensa inglesa, ambas terão para 2019 um incremento na verba, justamente para dar conta de todo o calendário e ainda se manterem competitivas. A Mercedes prevê gastar em 2019 até R$ 65 milhões a mais do que no ano anterior.

O inchaço do calendário se intensificou neste século, principalmente com a entrada de mais provas na Ásia. Há 20 anos, por exemplo, os pilotos de 1999 tiveram somente 16 etapas, das quais somente cinco não foram realizadas na Europa (Austrália, Brasil, Canadá, Malásia e Japão). Para 2019, o número de prova longe do Velho Continente dobrou: são dez etapas, incluindo compromissos criados recentemente, como Cingapura e Bahrein, onde os circuitos são novos e bonitos.

O tamanho do campeonato pode aumentar ainda mais no ano que vem. Para 2020, a Fórmula 1 já confirmou a entrada do Vietnã no campeonato, com a prova marcada para um circuito de rua na capital, Hanói. Cinco tradicionais etapas, contudo, têm contrato com a categoria somente até este ano e dependem de renovação para continuar na próxima temporada: Grã-Bretanha, Itália, Espanha, Alemanha e México.

Carros devem ser mais lentos, mas mudanças favorecem ultrapassagens

Em uma temporada com mais mudanças do que de costume no regulamento, a Fórmula 1 deve ter carros mais lentos e pesados neste ano, mas com alterações na aerodinâmica que podem compensar a menor velocidade com mais ultrapassagens. Visualmente, as alterações são sutis, com destaque para a asa traseira, mais alta e mais larga. 

A asa será ao mesmo tempo o papel de vilã e de heróina dos carros. Por ser maior, aumentará a resistência do ar e tornará os monopostos mais lentos. No entanto, tem um desenho que vai diminuir a turbulência causada pelo modelo de 2018. Esta turbulência diminuía a estabilidade do carro que vinha logo atrás, reduzindo o número de ultrapassagens nas corridas. Era a maior fonte de reclamação dos pilotos.

Maior, a asa dianteira também tem potencial para deixar as provas mais empolgantes. A expectativa é de que a alteração deste componente aumente a velocidade dos carros e reduza os efeitos da turbulência. Outra novidade importante é a elevação do peso mínimo dos modelos 2019, passando de 733kg para 740kg. O aumento da capacidade do carro para carregar mais combustível -  de 105kg para 110kg – também deve deixar os modelos mais pesados. A meta é evitar panes secas e deixar os pilotos mais à vontade para pisarem fundo até o limite. 

Em dezembro, antes da pré-temporada, as equipes previam menos velocidade neste ano. O novo chefe da Ferrari, Mattia Binotto, esperava por carros até um segundo e meio mais lentos. Mas as duas baterias de testes em Barcelona mostraram que esta diferença poderá ser menor. E o desenvolvimento contínuo dos modelos, ao longo das primeiras etapas, deve fazer com que os monopostos deste ano possam alcançar e até superar a velocidade de 2018. 

Há novidades também nas luvas dos pilotos, sensíveis à pulsação e aos níveis de oxigênio no sangue, e no capacete, com visor menor. Com este formato, por exemplo, Felipe Massa teria corrido menos riscos no grave acidente sofrido em 2009, quando uma porca se soltou e acertou sua cabeça. 

Os pneus serão simplificados. Das sete cores usadas em 2018, restarão apenas três: vermelha (macio), amarela (médio) e branca (duro). Para cada GP, estes três tipos serão escolhidos entre cinco opções pela Pirelli, preocupada em facilitar a maior compreensão do público.

Preocupação da F-1, Brexit pode elevar custos e desequilibrar forças entre as equipes

As equipes de Fórmula 1 não estão ansiosas somente para o início da temporada 2019. Também neste mês de março, uma nova data vem concentrando as preocupações da categoria. No dia 29, quase duas semanas após o primeiro GP do campeonato, marcado para este domingo, na Austrália, o Reino Unido deixará oficialmente a União Europeia. O chamado "Brexit" pode trazer fortes consequências para a F-1.

Com o país fora da União Europeia, a categoria sofreria dificuldades econômicas e logísticas porque sete das atuais dez equipes do campeonato tem sede na Inglaterra, nos arredores de Londres – a Haas tem sua base principal nos Estados Unidos, mas conta também com um apoio na cidade inglesa de Banbury. 

Ferrari, Toro Rosso e Alfa Romeo (ex-Sauber) seriam as grandes beneficiadas pelo Brexit. E, como a equipe italiana brigou pelo título com a Mercedes em 2018, uma vantagem deste tipo poderia até ajudar a decidir o campeonato.

As principais consequências para os times com fábricas em solo britânico seriam as limitações para a entrada de funcionários e equipamentos no Reino Unido. Haverá, por exemplo, maiores obstáculos para a importação de matérias-primas e peças. Além disso, pessoas de outros países terão que buscar visto e correr o risco de não poderem mais trabalhar nas sedes das equipes.

"Hoje as fronteiras estão abertas, o que possibilita a entrada de pessoas e de materiais. A circulação é muito fácil, rápida e livre. Mas, com o Brexit, vai haver uma burocracia maior e as equipes perderão mais tempo para entrar e sair do país", explica a economista Juliana Inhasz, professora no Insper, em entrevista ao Estado. "Eles vão perder agilidade porque haverá todo um procedimento de entrada, com documentação, análise dos materiais. Isso vai exigir um planejamento melhor, um ajuste dos recursos, uma nova programação." 

A perda de tempo e de dinheiro já acendeu o alerta nas equipes. "(O Brexit) vai nos custar mais, haverá mais papelada, mais questões administrativas, vai levar mais tempo. Se você precisa preencher mais formulários, pagar impostos, pagar tarifas, tudo isso vai nos custar mais, a ponto de alterar o nosso capital de giro", prevê Jonathan Neale, chefe de operações da McLaren.

Serão mais raras, portanto, situações até então comuns na F-1, como viagens de última hora para buscar componentes nas fábricas, da noite para o dia, no meio das etapas. "Buscamos peças dos carros e serviços com rapidez, de última hora, no Reino Unido e qualquer contratempo na fronteira ou na entrada no país vai causar um estrago massivo na indústria da Fórmula 1 no país", atesta o chefe da Mercedes, Toto Wolff.

O dirigente da equipe que venceu os últimos cinco Mundiais de Construtores é um dos mais preocupados com a situação. "O Brexit é a mãe de todas as confusões para nós", afirma. "Poderá ser um cenário de pesadelo, com grande impacto em nossas operações para ir até as corridas e desenvolver os carros."

Wolff admite já pensar em alternativas. "Temos alguns planos em andamento, como ter mais estoque e pensar sobre como conseguiríamos as peças e como fazer com que os funcionários entrem e saíam do país com mais agilidade. Mesmo assim seria um transtorno e causaria muitas dores de cabeça a todas as equipes britânicas, enquanto que a Ferrari, na Itália, e a Sauber (atual Alfa Romeo), na Suíça, teriam uma enorme vantagem sobre todos os times do Reino Unido." 

Além do gasto maior de tempo e de dinheiro, as equipes temem perder talentos para rivais localizados na Europa continental. Na Mercedes, por exemplo, há funcionários de 26 diferentes nacionalidades. "Provavelmente, muitas pessoas vão deixar de trabalhar nestas fábricas na Inglaterra. Com o fim dos acordos de cooperação, as pessoas terão de receber algum tipo de visto, registro. Será criada uma burocracia que também vai tomar tempo", explica Juliana Inhasz.

Se preocupa as equipes, o Brexit parece não incomodar o chefão da Fórmula 1, Chase Carey. "Quanto às questões econômicas, acho que vamos ficar imunes às consequências do Brexit. Teremos questões logísticas: como vamos entrar e sair do Reino Unido com tantos equipamentos? Mas isso não é uma questão financeira, é mais logística. Teremos um plano de contingência para isso", promete o norte-americano.

FUTURO

A médio e longo prazo, os times da F-1, na maioria britânicos, temem que a mudança do status do Reino Unido diante da Europa traga perdas econômicas profundas para a região, com o possível êxodo das equipes em busca de melhores condições para trabalhar na área continental. 

Historicamente, os arredores de Londres se tornaram no século 20 uma espécie de "Vale do Silício do automobilismo", conhecido pela inovação, troca de ideias e grandes avanços no setor, o que influencia diretamente os carros que também circulam pelas ruas do país e do mundo. "O Brexit coloca uma grande pedra, um muro na frente de muita empresa, que antes aproveitava o fato de estar inserida numa comunidade econômica, com benefícios alfandegários, com inúmeras vantagens e que agora não vão ter mais", explica Inhasz, do Insper. "Com a saída, essas empresas terão um custo maior e eventualmente uma maior dificuldade de importar e exportar produtos e, por consequência, maior dificuldade de honrar prazos", alerta a professora.

De acordo com a Associação da Indústria do Automobilismo, cerca de 75% da pesquisa e do desenvolvimento do automobilismo mundial acontece no Reino Unido. O "Vale do Silício do automobilismo" tem faturamento anual estimado de 9 bilhões de libras (cerca de R$ 45 bilhões), empregando 41 mil pessoas.

Pressionado, GP do Brasil inicia negociações neste ano para renovar contrato

A temporada 2019 será de negociações para o GP do Brasil de Fórmula 1. Pressionada, a etapa brasileira tentará se fortalecer no circuito ao buscar um novo acordo com os donos da categoria, os norte-americanos do grupo Liberty Media. O contrato atual com a cidade de São Paulo se encerrará em 2020 e os promotores do GP esperam que um novo acerto seja iniciado e até concretizado ainda neste ano.

A negociação é decisiva porque os novos proprietários da F-1 já avisaram que não se apegam às tradições da categoria para definir o futuro calendário do campeonato. Em outras palavras, o business terá maior importância do que o peso histórico das etapas, o que pode remover do campeonato corridas importantes, como a de Silverstone, cujo contrato termina neste ano.

No fim de 2018, o atual chefão da F-1, Chase Carey, afirmou que havia herdado de Bernie Ecclestone contratos "pouco atrativos", que poderiam não ser renovados futuramente. "Precisamos estar focados em maximizar o valor dos nossos eventos e deixar isso claro aos promotores destas corridas", afirmou. Esta busca ajuda a explicar, por exemplo, a futura entrada do Vietnã, país sem tradição no automobilismo no calendário de 2020.

Neste cenário, o GP brasileiro corre riscos por não pagar uma taxa de promoção cobrada de praticamente todas as cidades-sedes. Esse valor alcançaria cerca de R$ 100 milhões, que eram "perdoados" por Ecclestone, antigo chefão da categoria, que tem laços familiares e econômicos com o Brasil. 

Os promotores do GP nacional argumentam que a cota elevada de patrocinadores obtida com a prova em São Paulo, no Autódromo de Interlagos, compensa as perdas com a taxa. Ao mesmo tempo, a corrida tem o apoio do prefeito Bruno Covas. No ano passado, ele revelou que as negociações para a renovação do contrato teriam início ao longo da temporada 2019.

Nesta busca, a Prefeitura de São Paulo ganhou um concorrente. O Rio de Janeiro quer voltar a receber as corridas da F-1 e vê na proximidade do fim do contrato da capital paulista como oportunidade para receber uma nova chance, a partir de 2021. No fim de janeiro, a prefeitura do Rio abriu concorrência pública para erguer um novo autódromo em Deodoro, próximo ao Parque Olímpico, com projeto no valor de quase R$ 700 milhões. 

Para tanto, o Rio já conta com o apoio do prefeito Marcelo Crivella e do governador Wilson Witzel, que até tiveram um encontro com Chase Carey em novembro. A cidade recebeu uma corrida da F-1 pela última vez em 1989. Ao todo, foram dez provas disputadas em Jacarepaguá. Desde 1990, a etapa é realizada em Interlagos, em São Paulo.

A favor do interesse das duas cidades está a boa audiência do Brasil na categoria. O País é o maior mercado da F-1 em termos de audiência, com 115,2 milhões de pessoas – o segundo é a China, com 68 milhões. De acordo com a TV Globo, que detém os direitos de transmissão da categoria no Brasil, a transmissão das provas registrou em 2018 média semelhante a do ano anterior. No geral, a F-1 diz que sua audiência global aumentou 10% na temporada passada, alcançando 490,2 milhões de espectadores. 

TRANSMISSÃO

Apesar de perder espaço na grade da TV Globo nos últimos anos, a F-1 terá quase todas as suas provas do ano transmitidas pelo canal ao vivo e na íntegra. As exceções serão aquelas que coincidirem com jogos do Brasileirão – não foram informadas quais serão exatamente estas etapas. Neste caso, as corridas entrarão na programação do SporTV, na TV fechada. 

Quanto aos treinos classificatórios, que definem o grid de largada, a TV Globo só garantiu a transmissão ao vivo e na íntegra das corridas na Austrália, que abre o campeonato, neste fim de semana, e no Brasil, em novembro. "Nas demais provas, serão apresentados os momentos decisivos da formação do grid. O SporTV transmite estes treinos classificatórios ao vivo e na íntegra", disse a Comunicação da Globo, em nota ao Estado.

Sette Câmara exalta aprendizado na McLaren e prevê rotina pesada na F-1 e na F-2

O brasileiro Sérgio Sette Câmara está desbravando um mundo novo neste ano. Após mostrar consistência nas últimas duas temporadas na Fórmula 2, ele ganhou sua primeira oportunidade na F-1. Em 2019, ele será piloto de testes e de desenvolvimento da tradicional McLaren

A chance, um grande teste para tentar uma vaga de titular no futuro, será acumulada com suas funções de piloto na F-2. Por isso, a rotina será pesada neste ano, principalmente porque ainda se adapta a sua nova equipe, a francesa DAMS, uma das mais fortes do campeonato. Morando em Barcelona, as viagens já se tornaram constantes para Woking, sede da fábrica da McLaren, na Inglaterra. 

Enquanto trabalha nos simuladores, o piloto de 20 anos aguarda sua primeira oportunidade na pista, em treino livre de GP ou em algum teste de intertemporada. Nesta espera, vai acumulando novos aprendizados sem perder o foco na F-2. Ele precisa terminar entre os três primeiros colocados no campeonato para obter a Superlicença, que dá permissão para os pilotos competirem na F-1. Nos testes da pré-temporada, ele mostrou serviço ao terminar as duas baterias entre os três mais rápidos. 

Quais são as chances de você participar de algum teste na F-1 ao longo da temporada?

Ainda não sei se vou participar de algum treino. Vai depender de algumas coisas. Vou procurar fazer o melhor trabalho possível na Fórmula 2 e no simulador (como piloto de testes). Mas não sei quais fatores vão influenciar especificamente essa oportunidade de treinar na pista. Acredito que, se eu mostrar um bom trabalho e maturidade, as chances aumentam. 

Já percebe os primeiros aprendizados nesta função de piloto de testes da McLaren? 

Já percebo, sim. Fiz muito trabalho de simulador na McLaren, o nível é muito alto. Eles exigem muito do piloto, pedem a sua opinião sobre o carro, sobre o acerto, sobre para qual direção a equipe deve ir. E tudo isso num nível de profissionalismo muito alto. Isso faz com que você tenha de melhorar e quebrar barreiras. 

Como será a sua rotina, dividindo o seu tempo entre a Fórmula 2 e a Fórmula 1?

A rotina será mais intensa neste ano, com a Fórmula 2 e no trabalho de simulador na McLaren, por enquanto. Tenho de ficar no avião o tempo inteiro para visitar a fábrica. Além disso, são dois carros bem diferentes. São formas diferentes de dirigir. Se não tomar cuidado, você pode se confundir. Mas até agora tem sido produtivo. Estou aprendendo muito e um trabalho não tem atrapalhado o outro. Pelo contrário, tem somado.

Você foi muito bem nos testes da pré-temporada da F-2. Quais são as expectativas para o campeonato?

Fui bem nos treinos, mas o mais importante foi o tanto que a gente aprendeu. Na Fórmula 2, é impossível saber qual equipe está escondendo o jogo, qual equipe não está. Então, foquei mais no meu aprendizado. A equipe fez um bom trabalho. A expectativa é andar bem neste ano, estar na ponta, quem sabe brigando pelas primeiras colocações.

Como está a adaptação à nova equipe e ao novo carro?

O carro é muito diferente do ano passado, tive de me adaptar porque era um estilo um pouco diferente do meu. Mas pouco a pouco estamos chegando lá. O jeito de guiar da DAMS é um pouco diferente do que estava acostumado. Mas é um carro extremamente rápido. Eles provaram isso no ano passado. E também nos testes. Temos tudo para estar na ponta, mas vamos ter de trabalhar e mostrar resultado. 

Você tem tido contato com o Alonso, que segue vinculado à McLaren?

Não tenho tido maior contato com o Alonso porque ele está no projeto da Indy. A última vez que eu o vi foi lá no GP do Brasil. Mas espero ter um contato maior com ele ao longo do ano porque ele é uma referência do automobilismo. É sempre bom ter algum convívio com ele.

Confiante, Pietro Fittipaldi prega paciência por vaga na F-1

Neto do bicampeão mundial Emerson Fittipaldi, Pietro será piloto de testes da Haas em 2019 e assim como Sérgio Sette Camara, também está na fila para entrar na Fórmula 1. Aos 22 anos, ele traz para a categoria a bagagem no automobilismo americano e nesta entrevista exclusiva ao Estado, comenta que além dos bons resultados e da evolução, será necessário ter paciência para virar titular na equipe. 

Como se sentiu no primeiro contato com a equipe durante os testes de pré-temporada?

No meu primeiro teste com a equipe neste ano, eu me senti muito bem. Senti que o carro está bem competitivo também. A gente fez várias voltas, muita quilometragem, foi importante para mim e também para a equipe. Estávamos tentando desenvolver o carro durante os testes, a equipe quis testar várias coisas diferentes no carro. A gente fez muita simulação de corrida também. O primeiro teste, primeiro treino, foi muito bom.

Como piloto reserva, o que você acha que precisa demonstrar ou acumular de resultados para conseguir uma chance no cockpit?

Como piloto reserva, para conseguir ser titular, claro que você precisa ser rápido. Então, quando eles te dão uma oportunidade de poder mostrar sua velocidade em uma volta, você precisa ir rápido. Isso é sempre muito importante. Não é todo o teste que a equipe está olhando seu tempo e velocidade em uma volta. Nos testes, a maioria do trabalho é desenvolver o carro. Então, o retorno que dou para a equipe sobre o que a gente testou é muito importante. Eles vão olhar para isso também, vão olhar sua velocidade em uma simulação de corrida, se é consistente. Para ser titular, a oportunidade tem de abrir. Tem só 20 vagas na Fórmula 1. Não é todo ano que troca piloto. Tem ano que ninguém sai. Tem de abrir essa oportunidade.

Pelo Brasil estar sem piloto na Fórmula 1, há uma grande expectativa no público e também da imprensa. Como você lida com isso? Acha que pode te atrapalhar?

Não. Eu sei que até agora não tem nenhum piloto brasileiro titular na Fórmula 1. Minha meta é chegar lá, correr na Fórmula 1. Acho que isso não me atrapalha. Isso me dá energia para trabalhar mais, para chegar lá e poder representar o Brasil como titular na Fórmula 1.

Por ter morado nos Estados Unidos, você considera a Fórmula1 uma categoria muito diferente das americanas em termos de ambiente e proximidade com o público?

A Fórmula 1 é bem diferente comparada com a Nascar ou a Indy. Nos Estados Unidos o público pode chegar a um metro do carro. Na Fórmula 1 se você não é patrocinador ou não é convidado da equipe, não consegue nem entrar na garagem para ver o carro. Tem essa diferença. Isso é uma coisa que a Fórmula 1 pode melhorar. O público poder se aproximar mais dos carros, dos pilotos e da equipe. Se isso for possível, será muito melhor.

Categoria quer ampliar presença feminina

Os novos donos americanos da Fórmula 1 querem ampliar a presença de mulheres entre os competidores. O chefe da categoria, Chase Carey, apresentou no começo do mês que estimular a presença feminina está entre as prioridades estratégicas da categoria para o futuro.

"Queremos continuar a enfatizar que a Fórmula 1 é um esporte para todos. Isso significa continuar a destacar as oportunidades para mulheres dentro e fora da pista e continuar a expandir a categoria como um esporte global em todas as partes do mundo", afirmou Carey. Embora a categoria não tenha mulheres neste ano, para os próximos meses está previsto o início W Series, exclusiva para mulheres.

A Alfa Romeo é a única equipe a ter uma mulher como piloto de testes. A colombiana Tatiana Calderón, de 26 anos, participa de treinos livres da escuderia e aguarda chances nos próximos anos. A última mulher a ter ido para a pista em sessões oficiais foi a escocesa Susie Wolff pela Williams, em 2014. Ela ganhou chance nos treinos livres para o GP da Grã-Bretanha.

A última mulher a ter largado para uma corrida na Fórmula 1 foi a italiana Lella Lombardi, que participou das temporadas de 1975 e 1976, e inclusive até marcou pontos. A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) tem se mostrado disposta a incentivar a presença feminina e nos últimos anos até mesmo abriu a comissão Mulheres no Automobilismo, que é presidida pela francesa Michèle Mouton, vice-campeã do Mundial de Rali em 1982.

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