Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Estudo aponta que autódromo do Rio causará 31 impactos ambientais

Local escolhido para construção da pista conta com Áreas de Preservação Permanente e espécies de fauna e flora em risco de extinção

Ciro Campos e Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2019 | 16h14
Atualizado 26 de dezembro de 2019 | 19h09

O projeto de construção do autódromo no Rio vai causar 31 impactos ambientais na Floresta do Camboatá, local no bairro de Deodoro escolhido para sediar o circuito de Fórmula 1. A floresta conta com Áreas de Preservação Permanente (APP) e espécies da fauna e flora em risco de extinção, de acordo com o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o seu Relatório de Impacto Ambiental (Rima), aos quais o Estado teve acesso.

Os documentos foram elaborados pela empresa de consultoria ambiental Terra Nova, contratada pela vencedora da licitação para erguer o autódromo, a Rio Motorsports. O EIA-Rima foi entregue ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea), órgão que avalia projetos com possíveis impactos ambientais no Rio, no dia 10 de novembro. Ao Estado, o Inea informa que a análise do estudo pode levar até 12 meses. Só após a eventual aprovação é que a empresa poderá iniciar as obras. Mas não há esse prazo na negociação. O circuito teria de ficar pronto no primeiro semestre de 2021.

pesar dos impactos apresentados no EIA-Rima, os autores do estudo apontam conclusão positiva sobre a construção do circuito no local. “Conclui-se, com base nos estudos apresentados, que a realização do empreendimento é altamente positiva e se constitui numa oportunidade única de desenvolvimento local e regional, trazendo significativo progresso social, econômico e ambiental ao local.”

Na pesquisa feita in loco pela consultoria, entre agosto e novembro, foram identificados 20 impactos ambientais associados à fase de construção e 11 à de utilização. Alcançam fauna, flora e até aspectos sociais, como aumento da poluição sonora nos arredores do autódromo.

Segundo o estudo, quatro espécies da flora local no Camboatá estão ameaçadas de extinção: grápia, jacarandá-da-Bahia, braúna e jequitibá. Quanto à fauna, são cinco espécies correndo riscos: jacaré-do-papo-amarelo, saíra-sapucaia, trinca-ferro, capivara e mão-pelada. 

A área ainda corresponde a um corredor ecológico, por facilitar o “trânsito” de diversas espécies de animais e plantas entre o Maciço de Gericinó e a Serra do Mendanha. Estas e outras espécies – foram identificadas 290, entre fauna e flora –, integram uma região que apresenta duas áreas de preservação permanente, conhecidas como Faixas Marginais de Proteção (FMP) dos Rios Calogi e Marangá, também localizadas dentro da floresta. Juntas, as duas APPs somam 9,4 hectares, de um total de 200 da Floresta do Camboatá. De acordo com o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), do Rio, o fato de o projeto estar localizado em uma APP não impede sua aprovação.

O estudo aponta ainda a “supressão de aproximadamente 70 hectares de vegetação arbórea/arbustiva”. Segundo estudo do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico, cada hectare conta com cerca de 1.000 árvores. Ou seja, a construção do autódromo resultaria na derrubada de 70 mil árvores. Há especialistas que apontam a queda de até 200 mil. O EIA-Rima não apresenta número específico. 

Para compensar estas perdas, é proposto um programa de reflorestamento focado em espécies da Mata Atlântica, o que prevê o plantio de seis árvores para cada uma derrubada. “Esse Programa se tornará na maior intervenção privada para a preservação da Mata Atlântica, em escala até hoje não realizada, pois o plantio dessas espécies se estenderá ao longo de todo o período de 35 anos de concessão do autódromo.”

O projeto já foi alvo de críticas por parte da ONG “SOS Floresta do Camboatá” e do Ministério Público Federal. “A Floresta de Camboatá é o único ponto remanescente de grande porte de Mata Atlântica em área plana na cidade. São aproximadamente 200 hectares, dos quais 114 cobertos por áreas naturais e regeneradas, representativa das Florestas Ombrófilas de Terras Baixas. Este tipo de vegetação é uma das mais ameaçadas dentre as formações florestais que compõem a Mata Atlântica. (...) A Floresta do Camboatá abriga o último remanescente carioca deste tipo de vegetação”, aponta o MPF na Ação Civil Pública que moveu contra o projeto, em maio. 

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