Alex Silva | Estadão
Alan Adler é novo CEO do GP São Paulo de F-1 Foto: Alex Silva | Estadão Alex Silva | Estadão

Alan Adler é novo CEO do GP São Paulo de F-1 Foto: Alex Silva | Estadão Alex Silva | Estadão

Ex-atleta olímpico, com expertise em eventos e bons contatos: conheça o CEO do GP São Paulo de F-1

Alan Adler agora é o nome por trás da tradicional corrida disputada no Autódromo de Interlagos

Felipe Rosa Mendes , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Alan Adler é novo CEO do GP São Paulo de F-1 Foto: Alex Silva | Estadão Alex Silva | Estadão

A Fórmula 1 não foi até o Rio de Janeiro, mas um carioca veio para São Paulo comandar o GP brasileiro. Alan Adler agora é o nome por trás da tradicional corrida disputada no Autódromo de Interlagos. Aos 57 anos, o economista e empresário assumiu o maior desafio de sua carreira, marcada por referências na área de marketing esportivo e eventos de grande porte. No comando do GP de São Paulo, novo nome do GP do Brasil, seu objetivo é encantar os fãs de automobilismo, que devem lotar o autódromo nos dias 12, 13 e 14 de novembro, e ajudar a justificar o investimento público na prova.

Pouco conhecido no mundo dos motores, Adler assumiu o comando do GP no início deste ano. Ele ocupou a função executada por Tamas Rohonyi ao longo dos últimos 30 anos. Mas sua ligação com o GP começou ainda em 2019, quando se apresentou à Prefeitura de São Paulo para ajudar na renovação do contrato da cidade com a F-1. O vínculo se encerrava no fim de 2020. E a renovação estava “emperrada”, nas palavras de Adler. O acerto, por cinco anos, foi fechado em dezembro.

“As coisas não andavam. Demoramos para perceber que a F-1 estava engatada com o Rio de Janeiro”, afirmou, em entrevista ao Estadão.  “Acreditava muito na continuidade da F-1 em SP por N motivos. E fiquei muito feliz quando assinamos o contrato porque é um evento que tem a sua raiz aqui em Interlagos, em São Paulo. Sei que ficou dez anos no Rio. Mas, hoje, entendendo um pouco mais, vejo como os pilotos e equipes são apaixonadas por Interlagos. Tem uma história. Eu sou muito de tradição.”

O empresário carioca ajudou a resolver a disputa interna entre São Paulo e Rio com sua experiência em marketing esportivo e também por contar com o apoio do grupo Mubadala, fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, parceiro da F-1 na organização do GP de Abu Dabi. Se a experiência com automobilismo esportivo é quase zero, a bagagem na área de eventos é grande.

Adler levou a famosa banda The Police para o Maracanã em 2007, promoveu eventos de skate, maratona aquática, golfe, futevôlei, NBA, UFC e Volvo Ocean Race, a regata de volta ao mundo. A badalada prova de vela oceânica foi o grande impulso em sua trajetória no marketing esportivo. Ao criar o barco Brasil 1, ele trocou de vez o lado esportista pela carreira de promotor de eventos em 2005.

“Foi ali que entrei neste mundo. Não entendia nada de marketing. Conquistei muita credibilidade porque entregamos um projeto incrível, complexo. Tinha tudo para dar errado e deu certo. Acabamos em terceiro lugar, do lado de equipes com muito mais dinheiro que nós”, explicou Adler, que foi velejador dos 10 aos 46 anos de idade.

O carioca disputou três edições dos Jogos Olímpicos: Los Angeles-1984, Seul-1988 e Barcelona 1992. Não subiu ao pódio, mas foi duas vezes campeão mundial, na classe Star em 1989, e na J24 em 2006, e medalhista de prata nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo-2003.

A experiência no esporte e os bons contatos que cultivou facilitaram a transição para o marketing. A Volvo Ocean Race é sua grande referência, não apenas por ser um sonho realizado. Lá seu barco foi capitaneado por ninguém menos que Torben Grael, um dos maiores atletas olímpicos da história do Brasil. O projeto contou com o apoio de diversos patrocinadores e até do governo federal. Os resultados do chamado Brasil 1 saíam até no Jornal Nacional.

A postura tranquila e o jeito simples e acessível de ser sempre ajudaram Adler a conquistar simpatias e apoios para seus projetos. Os bons contatos facilitaram seu trânsito tanto na Rede Globo quanto diante de patrocinadores e empresários poderosos. Foi assim que vendeu sua empresa de eventos para Eike Batista e para o grupo IMG, que contratou o próprio carioca para ser o CEO da nova organização, que deu saltos maiores.

A IMX comprou a data do Rio Open no calendário do circuito de tênis, adquiriu parte do Rock in Rio, fez uma joint-venture com o Cirque du Soleil e virou representante de jogadores como Neymar e Thiago Silva e do surfista Gabriel Medina. Quando Eike quebrou, a Mubadala assumiu a empresa, trocando o nome para IMM e mantendo Adler como gestor e também acionista. Hoje ele divide suas atenções e o seu tempo entre o GP de F-1 e a função de CEO da IMM, que organiza eventos como a SP Fashion Week e a SP Oktoberfest na capital paulista.

A empresa de Adler que administra o GP de São Paulo é a MC Brazil Motorsport, que vai receber do governo municipal R$ 100 milhões ao longo dos cinco anos de contrato entre a F-1 e a prefeitura. Por se tratar de dinheiro público para promover um evento privado, o valor é contestado na Justiça e já se tornou alvo do Ministério Público e de duas tentativas de abertura de CPI na Câmara de Vereadores. E também é novidade na história recente do GP, cuja gestão costuma se manter apenas com valores de bilheteria e patrocinadores.

Questionado sobre valores, o carioca se esquiva. “O que me dá muito conforto é ter um acionista como a Mubadala, que atua em vários países da forma mais transparente e profissional possível. Você acha que iríamos fazer alguma coisa errada, fora da legalidade? Isso é impossível. Quem quer ter problema? Eu não quero ter problema. Fizemos tudo certinho”, afirmou. “Respeito qualquer pessoa que queira contestar, que queira interpelar. Não tem problema nenhum. Mas a F-1 tem visibilidade, faz parte.”

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'Vamos fazer a cidade respirar a Fórmula 1', diz novo CEO do GP São Paulo

Alan Adler afirma ainda que quer trazer a experiência da NBA e do vôlei de praia para o evento em Interlagos

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 10h00

Formado em Economia, com MBA em Finanças, o empresário Alan Adler revela nesta entrevista ao Estadão parte de sua trajetória profissional, que o levou até o cargo de CEO do GP de São Paulo de Fórmula 1. Conta como foi a transição na gestão do GP, conduzida em companhia do antigo promotor, Tamas Rohonyi, e indica quais serão as suas prioridades na organização da tradicional corrida paulista, disputada no Autódromo de Interlagos.

Assumir o GP mudou muito a sua vida?

Não mudou muito, não. Só aumentou a minha presença em São Paulo. Eu continuo morando no Rio. Eu já fazia essa rotina com menos intensidade, mas agora eu estou aqui toda semana. Estou muito animado por fazer parte deste projeto, ter essa oportunidade. São poucos os promotores de GP no mundo, 23 atualmente. É muito bacana fazer parte deste grupo. A F-1 é uma marca incrível, forte, que cresce e evoluindo e mudou nos últimos anos. O que foi construído ao longo destes anos e onde chegou a marca é incrível.

Você já teve alguma relação com o automobilismo antes?

A minha família tinha uma indústria, uma forjaria, que fornecia autopeças para a indústria automobilística. Foi meu primeiro contato com esse universo do automobilismo. Era uma empresa fundada na época em que a indústria automobilística nasceu no Brasil, na década de 50. Meu avô fundou, meu pai ajudou a levantar e eu trabalhei lá por 14 anos. Era no Rio também. Mas toda a indústria atuava em São Paulo e Minas Gerais. Então, sempre viajei muito. Sempre fui muito ao ABC para visitar as montadoras.

Como você saiu da empresa da família para o marketing esportivo?

Foi por causa da minha ligação com a vela. O Torben Grael (prata na Olimpíada de Los Angeles-1984 ao lado de Daniel Adler, irmão de Alan) era muito assediado para competir na America’s Cup. E pedia minha ajuda para participar. Por incentivo dele, comecei a organizar competições de vela no Brasil quando saí da empresa da minha família. Me destaquei e consegui realizar um grande projeto, o sonho da minha vida, que foi fazer o Brasil 1, para a regata de volta ao mundo, em 2005. O Torben foi o capitão. E aí decidi começar a desenvolver um negócio de esporte e entretenimento, porque não queria ficar só na vela.

E como foi sua parceria com o Eike Batista?

A história com o Eike durou dois anos, até ele quebrar. Mas aprendi demais sobre o mundo corporativo. O grupo Mubadala (fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos) assumiu a empresa em outubro de 2014. Troquei o X pelo M e virou IMM. E continuei o projeto, reduzi a empresa, enxuguei. E aos poucos voltamos a desenvolver a empresa.

Entrar na F-1 te surpreendeu ou te assustou?

Diria que nunca fiz nada tão grande quanto. Mas colocamos 74 mil pessoas no Maracanã para o show do The Police. É bastante gente. Acho que nenhum outro projeto que participei tem um impacto tão importante numa cidade como a F-1 em São Paulo, sem dúvida nenhuma. É impressionante como São Paulo fica no fim de semana da F-1. Falo como carioca. Quando tentava vir para cá, não conseguia hotel, voo. É a melhor semana de todo o comércio da cidade. Tudo fica lotado. É um desafio novo, grande, não me assusta.

Como foi a transição da gestão do Tamas para a sua?

Foi muito boa. O Tamas é uma pessoa incrível. Fez uma gestão super competente. Aprendi muito com eles neste um ano e meio de convívio. Desde o começo, fui pedir ajuda a ele para entender como funcionam as coisas. Criamos uma relação de confiança e de amizade. Acho que já estava na hora de ele descansar um pouco do GP. Ele fez isso a vida inteira. Mas toda hora que precisa, mando mensagem para ele. Fiz pouquíssimas mudanças na equipe. Trouxe apenas uma pessoa nova para a área comercial e de marketing e reforcei algumas áreas de compliance porque os investidores são muito qualificados.

E como foi sua participação na renovação do contrato?

Comecei muito antes da assinatura. Quando a prefeitura começou a falar com a F-1 para renovar, tinha algo estranho. As coisas não andavam. Demoramos para perceber que a F-1 estava engatada com o Rio de Janeiro. Não tínhamos um feedback da F-1, que estava realmente interessada em ir para o Rio. Em 2020, nos apresentamos como uma solução excelente para a F-1. Era a Mubadala, um grupo sólido financeiramente, que eles já conheciam, tinha a minha pessoa, que traz essa experiência e bagagem do ramo. Isso faz muita diferença. Não era apenas um cheque. Era uma proposta muito sólida. Tinha o governador e prefeito de SP totalmente alinhados, um circuito pronto, testado e apaixonado, prontinho para entrar lá.

O GP do Brasil passou anos sem pagar a taxa de promoção do evento à F-1. Isso atrapalhou as negociações?

Não sei. Mas não existe modelo diferente. O modelo é este. Se quer F-1, tem que pagar a taxa. É assim, todo mundo sabe. O que a gente fez foi negociar a menor taxa possível porque somos um país em desenvolvimento. Mas não existe almoço grátis. Como ter um impacto de R$ 1 bilhão sem gastar nada? É dinheiro direto nos cofres da cidade, gera uma renda incrível. Todo mundo aqui recolhe ISS na cidade inteira. É uma loucura, os aviões e helicópteros chegando. É muita renda. A quantidade de gente que trabalha durante um GP de F-1? E a imagem de São Paulo vai para o mundo inteiro. Onde você vai mostrar SP para 200 países durante horas? Agora não mostra apenas nos treinos de sexta, sábado e na corrida de domingo. Agora a cidade é exibida no Netflix, no e-Sports.

Qual será sua principal missão agora?

O que eu posso fazer como promotor é envolver a cidade, fazer a cidade respirar a F-1. Precisa ter este clima perto da corrida. Obviamente estou preocupado e cada vez mais interessado em ter um impacto econômico importantíssimo na cidade. Porque é o que sustenta o negócio. E depois estou preocupado desde o momento até a chegada do público, e com as marcas parceiras, que acabam levando seus clientes lá. É o que eu olho, é o que eu penso. Quando eu chego num evento, olho para cada detalhe da experiência. É o diferencial do promotor. É o modelo de agregar e de estar alinhado com o dono da marca.

Teremos novidades neste aspecto neste ano?

Esperamos trazer novidades a cada ano até o fim do contrato. Tem de ter uma melhoria a cada ano, isso é fundamental para mim. Este é um ano com muitos desafios. É um ano atípico, pela pandemia e incertezas que causam ao evento. Vamos tentar sempre melhorar a interação do público com o produto. É importante ter um upgrade no sistema de áudio, o som precisa ter boa qualidade. O sistema de telões vai melhorar. Queremos ter alguma interação de música, trazer a experiência da NBA e do vôlei de praia. Quando não tiver atividade na pista, tem a interação com o público. 

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