Ex-piloto brasileiro renega a Ferrari

O ex-piloto brasileiro Fritz D?Orey, de 63 anos, não disputou 204 GPs de Fórmula 1, como o tricampeão Nélson Piquet, mas as três oportunidades que teve, em 1959, foram suficientes para mostrar sua habilidade e conquistar o respeito da mais tradicional escuderia da categoria, a Ferrari. Na ocasião, ele correu e arrebatou vitórias com o "bólido vermelho" em outras provas tradicionais do automobilismo mundial e, hoje, desapontado com a "palhaçada" feita pela equipe no GP da Áustria, no domingo, prometeu "jamais" entrar novamente em um carro da Ferrari (possuiu seis carros da marca). "Foi uma grande burrice e não havia necessidade daquilo, o campeonato está no início", protestou D?Orey. "Ou o Barrichello desobedecia a ordem e ficava à pé, ou fazia o jogo dos canalhas, como fez. Ele não tem culpa." D?Orey isentou Barrichello, por causa do contrato assinado, em que o brasileiro aceitou se submeter às ordens da equipe, mas lembrou que se o piloto fosse um idealista ele cometeria o "suicídio". Revoltado, afirmou que a F1, a partir de agora, será vista como o boxe, em que os resultados são "arranjados". As conseqüências da atitude da Ferrari já estão sendo somatizadas por D?Orey. De acordo com o ex-piloto, sua caixa postal de e-mails está cheia de mensagens de amigos europeus prometendo vender seus carros da marca, além de boicotar os produtos da escuderia do cavalinho rompante. "Estou com asco da Ferrari." O sentimento de repulsa à F1 aumentou ainda mais quando D?Orey lembrou do tempo em que competiu. A descendência alemã, por parte dos avós, transformou o filho de imigrantes portugueses, nascido no Brasil, Frederico José Carlos Themudo D?Orey, em Fritz. A ida do ex-piloto para a F1 foi meteórica. Após conquistar o II Campeonato Paulista, na categoria Força Livre - Mecânica Nacional, o Brasileiro, II Circuito da Barra da Tijuca, todos em 1958, D?Orey competiu em um Sul-Americano com etapas na Argentina, Uruguai e Brasil e despertou o interesse e a amizade do argentino Juan Manuel Fangio. "Competíamos por amor ao esporte. Não tinha nada de dinheiro", disse D?Orey. "Era sentar no carro e acelerar, não usávamos nem cinto de segurança." D?Orey foi o terceiro piloto brasileiro na F1 - antes, o País já havia sido representando por Chico Landi (que disputou seis GPs entre 1951 e 1956) e Hernando da Silva Ramos (sete provas entre 1955 e 1956). Ele estreou em 5 de julho de 1959, no GP da França, com uma Maserati 250F, terminando a dez voltas do vencedor na 10ª posição. No GP da Grã-Bretanha e Estados Unidos (correndo pela Tec Mec F415-Maserati) não terminou. Da F1, D?Orey participou de várias competições automobilísticas entre 1959 e 1960, quando morou em Modena, na Itália, e sempre competiu com carros Ferrari. Até que durante as 24h de Le Mans, seu carro bateu em uma árvore e ficou dividido em duas partes. Com vários ferimentos graves e fratura no crânio, ele ficou internado por 8 meses, correndo risco de vida. Algumas publicações chegaram a noticiar sua morte. Aposentado, depois de administrar uma revendedora de carros e uma construtura, D?Orey mora em uma confortável cobertura em um dos endereços mais tradicionais do Rio, a Avenida Atlântica, em Copacabana, e dedica seu tempo a dois hobbys: fotografia e computadores. "Não existe uma vista mais linda do que esta", disse, admirando a orla carioca e com a saudade de quem passou cinco anos morando em Paris e retornou há quatro meses. "Prefiro ver a vista daqui do que acompanhar a F1 que está muito desagradável e entediosa."

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