F-1: as lições do 1º dia de treinos livres

O primeiro dia de treinos livres do GP da Austrália, nesta sexta-feira no circuito Albert Park, estréia de uma série de modificações nos regulamentos técnico e esportivo, deixou vários ensinamentos. O mais importante deles: conforme se esperava, a regra que estabeleceu um único motor por piloto por fim de semana de corrida fez, de fato, com que várias equipes detivessem seus carros parados nos boxes, a fim de economizar motor para a programação do sábado e do domingo. Caso tenham de substituí-lo perdem dez posições no grid.Muitos torcedores que ocupavam, em excelente número, as arquibancadas da pista de Melbourne não entenderam bem quando, até quase o fim da sessão livre da manhã, poucos pilotos trabalhavam no acerto de seus chassis. Estavam parados nos boxes. "Estamos guardando nossos motores para a prova", confirmou Ian Philips, diretor da Jordan. "É frustrante ter de repassar para nosso terceiro piloto, Anthony Davidson, a função de permanecer na pista enquanto nós ficamos de fora, assistindo tudo", revelou Jenson Button, da BAR.É incrível mas verdade. Como trata-se da primeira etapa do campeonato - talvez venha a ser assim até a última -, ninguém quis correr maiores riscos e cumpriu, nesta sexta, o mínimo de quilometragem possível com seus motores. "É um recurso das equipes. Mas devemos ter em mente que também é preciso acertar o chassi para o circuito. Acho que encontraremos um compromisso entre um e outro", disse Michael Schumacher a respeito do circuito quase vazio de manhã. Ele próprio deu apenas quatro voltas. "É o lado ruim da medida, que sempre fui contra, mas acham que irá reduzir os custos", falou Bernie Ecclestone, promotor do Mundial.Outra constatação: o terceiro piloto terá papel mais importante do imaginado em princípio. Fora as quatro primeiras colocadas no último campeonato de construtores - Ferrari, Williams, McLaren e Renault - as demais podem ter um carro extra às sexta-feiras, conduzido por um piloto que não tenha disputado mais de 6 GPs nos últimos dois anos. A Toyota trabalha com Ricardo Zonta, a BAR, com Anthony Davidson, a Jaguar, Bjorn Wirdheim, e a Jordan, Timo Glock. Eles podem permanecer na pista à vontade porque trabalham apenas na sexta-feira. Resultado: enquanto os titulares dão poucas voltas, eles se encarregam de testar vários tipos de pneus e experimentar diferentes ajustes nos carros. Só dá eles no circuito. Um pouco frustrante para quem paga para ver Michael Schumacher, Juan Pablo Montoya, Fernando Alonso, dentre outros."Por sorte a escolha aqui era óbvia, mas acho que em muitos casos ficaremos em dúvida sobre qual pneu escolher." A declaração é de Rubens Barrichello e reflete um problema a mais do novo regulamento: ter de escolher o tipo de pneu para a classificação e a corrida na sexta-feira, depois de treinar tão pouco, será um desafio este ano. Em 2003, as equipes não tinham essa restrição de um motor só e podiam definir os pneus até antes da classificação, no sábado. Há quem irá cometer erros comprometedores, não há dúvida.Está claro para todos também que o Mundial deste ano será muito mais de regularidade que de velocidade. "Acho que poderemos ter um campeão do mundo que nem mesmo vencerá uma única etapa do campeonato." A previsão, nada otimista, é de Ecclestone. "A confiabilidade do equipamento será quase tudo nesta temporada", comentou. A própria postura de espera, não expor seus carros a quebras, reduzindo seu tempo de pista, confirmada nesta sexta-feira, é a maior prova da preocupação das equipes com a resistência de seus carros.Enquanto as regras experimentadas também no GP da Austrália em 2003 geraram aprovação da maioria, às vezes até com louvor, as deste ano conseguiram não agradar a quase ninguém. Talvez depois das 58 voltas da etapa de abertura do Mundial, as coisas fiquem mais fáceis de serem compreendidas e as críticas diminuam. Mas as chances são pequenas. A impressão geral é de que a FIA e as equipes, os que definem as regras, desta vez se equivocaram.

Agencia Estado,

05 de março de 2004 | 12h16

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