F-1: Newey pode ficar sem equipe

Aos poucos a verdade sobre tudo o que cerca o caso Adrian Newey-Jaguar-McLaren começa a surgir. Nos dois primeiros dias de disputa do GP do Canadá, por exemplo, sexta-feira e hoje, alguns fatos novos já ficaram conhecidos: Newey, se a justiça inglesa determinar que ele permanecerá na McLaren, não deverá mais ser o responsável técnico da equipe. Dessa forma, o maior nome da engenharia na Fórmula 1 não trabalharia, num futuro próximo, para nenhum dos dois times, por imposição de Ron Dennis, sócio e diretor da McLaren. Em primeiro lugar, quem é esse engenheiro aeronáutico inglês que foi capaz de mobilizar o alto escalão da Mercedes, sócia da McLaren, e da Ford, proprietária da Jaguar, além de parar a Fórmula 1 para acompanhar a definição do seu futuro? Os números explicam bem o porquê dessa guerra milionária para contar com o seu brilhante trabalho. Na Williams, de 1991 a 1997, os carros de Newey disputaram 114 GPs e venceram nada menos de 59 (51,75%). Os pilotos de Frank Williams nesse período foram quatro vezes campeões do mundo. Na McLaren, Newey foi o responsável pelos modelos de 1998 para cá. No total, até a prova de Mônaco, seus carros participaram de 56 GPs e chegaram em primeiro em 25 (44,64%). Mika Hakkinen, piloto da McLaren, venceu os campeonatos de 1998 e 1999. Muitos consideram Newey mais importante para uma equipe que Michael Schumacher. O alemão é um só, enquanto os projetos de Newey já fizeram vários pilotos, todos sem a competência de Schumacher, conquistarem o Mundial. Uma vez compreendida o que Jaguar e McLaren buscam com esse conflito fica mais fácil compreender também o que fará Ron Dennis, depois de terminado o atual contrato de Newey com a McLaren, no fim de agosto de 2002. No comunicado distribuído pela McLaren, dia 1.º de junho, no final da tarde, em seguida à Jaguar anunciar Newey como seu futuro projetista, depois de agosto de 2002, Dennis deixa claro que Newey se ocupará apenas do projeto dos modelos da McLaren de 2002 e 2003. Seu novo contrato, contudo, se estende até dezembro de 2005. O texto fala em novos desafios técnicos que a equipe e Newey estudarão no esporte nesse período para futuros investimentos. O que ficou explícito em Montreal é que Dennis deseja de Newey apenas o projeto dos carros, mas sem a vivência do engenheiro no dia-a-dia da equipe na pista nos dias de competição. O atual sistema automático de largada foi a gota d´água nesse conflito. David Coulthard, com 40 pontos, diante de 52 de Michael Schumacher, poderia estar liderando a competição se não tivesse de largar em último nas etapas de Barcelona e de Mônaco. Tudo por conta do controle de largada da McLaren, que falhou nas duas ocasiões. "Nosso sistema é complexo e precisamos seguir tudo com muita precisão para funcionar", comentou Coulthard depois da decepção de Mônaco, em que era o pole position e largou em último. O escocês esmurrava o volante enquanto todos os adversários o ultrapassavam na volta de apresentação. Dennis já ordenou Newey a rever o seu sistema. Ocorre que ou as coisas são como o técnico quer ou não são. Existe um conflito dentro da McLaren. O engenheiro nem mesmo viajou para Montreal. Por conhecer a eficiência dos projetos de Newey, seria um enorme risco permitir que ele concebesse os carros dos adversários da McLaren. A forma encontrada por Dennis para tirar o que de melhor o engenheiro tem foi essa, exposta já no comunicado da McLaren quando do anúncio da sua renovação de compromisso: ele apenas projeta a McLaren MP4/17, de 2002, e MP4/18 de 2003, e depois fica em disponibilidade do grupo até o fim de 2005. O importante é não trabalhar para outra escuderia. Se a Jaguar lhe oferecia US$ 6 milhões por ano para projetar seus carros e dirigir tecnicamente sua organização, a McLaren, segundo se comenta em Montreal, pagará US$ 7 milhões por ano para ele apenas conceber os seus dois próximos modelos de F-1 e ficar os três anos seguintes distante da esfera dos adversários da equipe.

Agencia Estado,

09 de junho de 2001 | 13h21

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.