Edu Garcia/Estadão
Ayrton Senna foi o último brasileiro campeão na F-1, numa fase em que o País produzia muitos vencedores. Edu Garcia/Estadão

Fora da Fórmula 1, Brasil fica para trás na base no automobilismo

Formação de pilotos é um dos fatores acusados por especialistas, como Fittipaldi, para explicar ausência na categoria

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2018 | 07h00

Pela primeira vez em 49 anos o Brasil não terá piloto na F-1. Com a saída de Felipe Massa, o País de reconhecidos campeões mundiais ficará órfão de representante na temporada que começará dia 25 de março. Para os próximos anos, se quiser voltar, o Brasil precisará fazer esforço coletivo, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Estado.

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Falta de patrocinadores, pouco investimento na base, alto custo de entrada na F-1, ausência de pilotos excepcionais, falta de formação e até o comodismo foram apontados como causas para a ausência de brasileiros no grid deste ano. Para mudar isso, é necessária uma iniciativa que envolva empresas, pilotos, projetos junto ao governo e a liderança da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), dizem os especialistas.

“Não adianta o esforço de um só. A CBA sozinha, por exemplo, não vai conseguir fazer nada. É preciso um trabalho da entidade junto ao Ministério do Esporte, com patrocinadores envolvidos e até os donos dos direitos de televisão”, diz Felipe Giaffone, referência no trabalho de base do automobilismo brasileiro. “Temos de ter um grupo unido e com uma meta.”

Para o bicampeão mundial Emerson Fittipaldi, a volta de um brasileiro ao grid da F-1 deve ser prioridade para o automobilismo do País. Ele cobra apoio das empresas aos pilotos. “Todo mundo quer aparecer na F-1, mas ninguém quer ajudar. Falta apoio”, diz Fittipaldi. “A Petrobrás patrocinou a Williams por dez anos [1998 A 2008] e não conseguiu colocar um piloto brasileiro lá. Agora estamos pagando o preço.”

Em sua avaliação, o automobilismo brasileiro poderia tentar repetir a iniciativa da Escuderia Telmex, criada pelo bilionário mexicano Carlos Slim para desenvolver a modalidade em seu país. “Há 15 anos, Slim me disse: ‘Meu sonho é trazer o GP de volta para o México e ter um mexicano na F-1’. Nos últimos anos, a corrida mexicana é considerada uma das melhores do calendário. E temos pilotos como o Pérez e outros chegando.”

Um projeto desta envergadura, na avaliação do ex-piloto de F-1 Luciano Burti, deveria ser liderado pela CBA. “A confederação poderia apresentar planos de formação de base a empresas e patrocinadores, como bancos, petrolíferas, TVs. É um caminho viável, um investimento para ter um piloto brasileiro na Fórmula 1 daqui a alguns anos.”

Presidente da CBA, Waldner Bernardo de Oliveira diz contar com recursos de projetos obtidos com isenção de Imposto de Renda junto ao governo. Mas admite dificuldades na captação efetiva dos recursos. “A questão brasileira é a captação e não o projeto”, diz o cartola.

Em entrevista ao Estado (leia abaixo), ele diz estar focado em projetos na formação de pilotos, sem preocupação específica de colocar um na F-1. “Entendemos que o papel da entidade não é de fomentar a carreira de um piloto individualmente. Tem de fomentar o automobilismo como um todo. Um projeto de R$ 3 milhões é bem significativo para ajudar uma categoria. Mas é quase nada para fomentar a carreira de um piloto”, diz.

Para os especialistas, a ausência de um brasileiro na F-1 é resultado da falta de investimentos ao longo de décadas. “Não é de hoje. Tivemos sorte no passado. Esta ausência poderia ter acontecido antes”, diz Giaffone, que é comissário esportivo internacional da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). “Depois da era dos campeões (Senna, Fittipaldi e Piquet), tivemos Rubinho e Massa, que seguraram esta esperança por anos. Foi a nossa sorte.”

Ele aponta o alto custo para a entrada na F-1 e o crescimento do automobilismo nacional, com a ascensão da Stock Car, como fatores que tiraram pilotos brasileiros do caminho da F-1. “Na minha época, não havia alternativas. Hoje pode-se correr na Stock Car sem precisar sair do País. E os valores absurdos para entrar na F-1 não ajudam. Ou tem patrocinador por trás ou acabou o sonho.”

Além disso, o “comodismo” contribuiu para reduzir o investimento na base. “Todos estavam confortáveis achando que sempre teria alguém na F-1. O brasileiro ficou acomodado e mal acostumado, achando que pilotos brotariam da terra. Agora caiu a ficha”, diz Giaffone.

Por consequência, a formação ficou defasada. “Ficamos atrasados. Os demais países se desenvolveram e o Brasil ficou para trás”, afirma Burti. “Hoje não é necessário ter talento.” Os bons pilotos estão aí ainda. “Nosso kart sempre tem bons momentos. O problema é o passo seguinte. A F-3 é deficiente.”

Fittipaldi, do alto de suas conquistas em nível mundial, concorda. “Você vai numa pista de kart hoje, em qualquer lugar do Brasil, e está cheio de talentos, de idades diferentes. Só falta apoio financeiro”, afirma.

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'Não é prioridade da CBA recolocar o País na categoria', diz presidente

Em seu primeiro ano à frente da entidade, dirigente tem como meta retomar força do esporte a partir da formação

Entrevista com

Waldner Bernardo de Oliveira, presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2018 | 07h00

Prestes a completar um ano no comando da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), Waldner Bernardo de Oliveira iniciou sua gestão preocupado com a base do automobilismo nacional. Ele se aproximou de dirigentes, entidades, empresários e autoridades do País para tentar dar fôlego novo à formação de pilotos brasileiros. Nesta entrevista dada ao Estado, Dadai, como é chamado, revelou seus planos de reestruturar a F-3 e criar a F-4 – que seria uma transição do kart para o monoposto –, comentou as sugestões dos especialistas ouvidos pelo jornal e reforçou que não é prioridade da CBA recolocar o Brasil na Fórmula 1. “Esse não é o único caminho para os brasileiros no automobilismo”, destacou o dirigente.

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O que o Brasil precisa fazer para voltar a ter pilotos na F-1?

Essa discussão é bem abrangente e não se restringe a ter ou não piloto na F-1. Não é nossa prioridade recolocar piloto na F-1. A consequência de não ter deve ser o verdadeiro tema da discussão, entender por que não teve e fazer com que a gente volte a ter não só na F-1. Mais importante é a formação adequada, passando por todas as etapas. A F-1 não é o único caminho aos brasileiros.

E o que a CBA pode fazer para melhorar a formação de pilotos?

Quando falamos de base e carreira de piloto, a gente remete ao nosso projeto das escolinhas. Temos hoje seis implantadas, com recursos da FIA, e devemos chegar a 16 até o fim do nosso mandato. A FIA pagou 60% dos custos e a CBA entrou com 40%. O modelo é tão completo que decidimos abrir mais dez. O projeto foi aprovado pelo Ministério do Esporte, mas falta ser captado.

Qual é o caminho agora?

Se aumentar a massa crítica de forma substancial, não tenho dúvidas de que estaremos no ápice com mais pilotos sendo formados da forma devida. Os passos seguintes estão sendo formatados. Estamos vendo a viabilidade de criar a F-4 e a sustentabilidade e a reestruturação da F-3.

Buscar recursos para formar um projeto do tipo da Escuderia Telmex no Brasil seria viável para reaproximar o País da F-1?

A CBA conta com projetos via isenção de Imposto de Renda e nós já usamos estes recursos para beneficiar a F-3 como evento, e não para um piloto específico ou para uma equipe qualquer. Temos de fomentar o automobilismo como um todo, para a formação e promoção do kart, por exemplo. Temos hoje 8.500 pilotos no Brasil. Temos de ter projetos de formação para preparar o piloto para o mercado nacional e também internacional.

A Federação Francesa é apontada como referência na formação de pilotos. Concorda?

Não é a Federação Francesa nem o seu modelo de gestão. O que acontece na França é que a federação desenvolveu um projeto de escolinha de kart. A concepção é muito bem feita. São quatro módulos: meu primeiro volante, volante de bronze, de prata e de ouro. O aluno começa aprendendo a se vestir na primeira aula e vai passando por cada etapa até ter noções de pilotagem, ultrapassagem, frenagem, tangência e segurança. Pelo formato desta escola, você não precisa adquirir os equipamentos para começar no kart. Vai pagar a mensalidade e fazer todos os módulos. Se ao término você quiser dar sequência, aí sim vai adquirir o equipamento. A FIA até homologou este modelo como padrão de escola de kart e é o que estamos implantando aqui.

O senhor tem estimativa de data para criar a F-4 no Brasil?

Ainda não. Estamos trabalhando desde o meio do ano passado nisso. Conversamos com os fabricantes internacionais, temos promotores no Brasil buscando soluções. A grande questão é a financeira, a aquisição dos veículos, a montagem da estrutura para que isso funcione. Não temos expectativa de prazo. Estamos trabalhando incessantemente, mas não conseguimos dizer se vai acontecer em 2019 ou 2020.

A busca de empresários estrangeiros para agenciar jovens talentos brasileiros te preocupa?

Essa questão de plano de carreira depende de cada piloto. Não tem como direcionar ou obrigar. Temos de formar bons pilotos para o automobilismo como um todo. O que se pode é tentar fazer com que o cenário nacional seja do ponto de vista técnico o mais próximo possível do cenário lá de fora para que aqui eles se preparem da melhor maneira possível.

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