Mark Thompson/Getty Images/AFP
Mark Thompson/Getty Images/AFP

Fórmula 1 consolida público nos EUA e mira acordo mais lucrativo de direitos de transmissão

Estratégias comerciais e digitais ajudaram a alavancar número de fãs americanos, que pode aumentar ainda mais nos próximos anos; série da Netflix 'Fórmula 1: Drive To Survive' ajuda a impulsionar a modalidade no país da Indy e Nascar

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2022 | 10h00

Não é novidade que a Fórmula 1 mudou seu panorama nos Estados Unidos. Já é uma realidade o crescimento do público americano, que conta com a Fórmula Indy e a Nascar como seus eventos favoritos no automobilismo. Mais de 360 mil pessoas que não assistiram às corridas do fim da temporada passada acompanharam as disputas neste ano depois de verem a série Fórmula 1: Drive To Survive, da Netflix, segundo um recente estudo da Nielsen.

Essa foi a primeira pesquisa realizada que relaciona a audiência da série com a das corridas na TV. Além disso, 41% dos espectadores da série também assistiram às três primeiras semanas da nova temporada da F-1. Esses novos fãs também trazem um novo perfil ao público das corridas: mais hispânico, mais jovem, mais rico e que vive com crianças em casa.

Os EUA voltaram a receber dois GPs em uma mesma temporada, o que não acontecia desde 1984, com a expansão do calendário de provas da Fórmula 1. Além da etapa de Miami, realizada no último fim de semana, o país também realizará o clássico GP dos Estados Unidos, em Austin, no Texas, e a partir de 2023 o circuito de rua noturno de Las Vegas integra o calendário. O GP de Miami teve seus ingressos esgotados em menos de uma hora, apesar dos preços elevados, em torno de US$ 640. 

O australiano Daniel Ricciardo já não vive mais no "anonimato" quando visita os Estados Unidos. "Quando desembarcava nos Estados Unidos, eu dizia que era um piloto da Fórmula 1 e me perguntavam: 'Isso é como a Nascar?'.  Depois da primeira temporada da série da NetFlix, todos os dias que eu estava em algum lugar, alguém dizia: 'Eu vi você naquele programa!'", contou à Bloomberg o piloto de F-1.

"Sem a série da Netflix, não teria esse crescimento do público americano", disse Kevin Clark, o apresentador do podcast The Ringer’s F1 Show, ao jornal New York Post. O conteúdo virou um dos mais ouvidos na seção de esportes segundo a Chartable, empresa que analisa a audiência de podcasts.

"Comecei a assistir Drive to Survive há três meses e passei de não gostar de automobilismo a ser obcecado pela F-1. Eu leio sobre isso todos os dias, estou no Reddit todos os dias, escrevo sobre isso todos os dias, penso nisso todos os dias", disse o produtor e roteirista de televisão Travis Helwig, de 34 anos, também ao jornal. 

A popularidade é resultado de um processo da Fórmula 1 em entender o automobilismo dentro da indústria de negócios do esporte, também voltada ao entretenimento. Só em 2012 que os Estados Unidos passaram a ter uma etapa permanente no calendário com o circuito de Austin. Cinco anos depois, o grupo americano Liberty Media adquiriu a compra dos direitos de transmissão e comerciais da F-1. O processo de alcance global, com o mercado americano como alvo prioritário, inclui ampliar fontes de receita e aperfeiçoar estratégias de marketing.

Há expectativa de negócios mais lucrativos na próxima venda dos direitos de transmissão. O atual acordo com a emissora foi assinado em 2019 ao valor de US$ 15 milhões por três temporadas e se encerra no fim deste ano. O CEO da Fórmula 1, Stefano Domenicali, despista quando questionado sobre as empresas interessadas e o valor buscado em um novo contrato, que pode ser cinco vezes maior, segundo o site Sports Business Journal. A Fórmula 1 teve um recorde de audiência nos Estados Unidos na temporada passada com uma média de 943 mil telespectadores por corrida nos canais da ESPN e na rede ABC, um número 54% maior que na temporada de 2020.

"Diante de uma geração de consumidores habituados a assistir conteúdos na hora e local em que quiserem, o formato "ao vivo" do esporte ganha um companheiro para suprir a demanda. Além disso, os altos custos dos direitos de transmissões ao vivo, que são mais difíceis de serem negociados globalmente do que conteúdos originais, e o crescimento da presença dos grandes atletas como marcas maiores do que seus próprios times mudam o cenário do mercado. Conteúdos originais ainda adicionam valor em uma cauda larga de receitas, que não se expira quando o evento acaba. Não à toa, a Netflix já anunciou o investimento de US$ 17 bi em novos conteúdos originais para 2022 e a HBO MAX promete mais, US$ 20 bi", destaca Bruno Maia, executivo de inovação no esporte e CEO da Feel The Match, empresa que produz conteúdos esportivos para streaming. 

"No Brasil há uma escassez ainda maior desse tipo de produto disponível no catálogo das principais plataformas, o que deve acelerar a demanda de aquisição e desenvolvimento. Temos um histórico de consumo de esporte baseado em jogos ao vivo e jornalismo promocional, aquele feito especificamente para promover a competição que a emissora transmitia. Esporte como entretenimento é coisa nova e urgente", conclui.

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