Jennifer Lorenzini/ Reuters
Jennifer Lorenzini/ Reuters

Risco de batida proposital traz à memória dos fãs de F-1 batalhas como Senna x Prost; confira outras

Disputa entre Max Verstappen e Lewis Hamilton em Abu Dabi também relembra batalhas como Schumacher x Villeneuve e Schumacher x Hill

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2021 | 10h00

A postura agressiva exibida por Max Verstappen ao longo da temporada e o empate com Lewis Hamilton na disputa pelo título do campeonato levantaram uma velha preocupação no mundo da Fórmula 1 nos últimos dias. Pilotos, ex-atletas e a equipe Mercedes temem que o holandês force uma batida com o rival inglês na última corrida do ano, em Abu Dabi, no domingo. Se os dois não puderem completar a prova nos Emirados Árabes Unidos, Verstappen se sagrará campeão.

Os dois postulantes ao título chegam à 22ª etapa de 2021 com exatamente a mesma pontuação: 369,5. Mas o holandês leva vantagem no critério de desempate, que é o número de vitórias: 9 a 8. O temor em relação ao piloto da Red Bull se deve às suas performances mais agressivas na pista neste ano, em comparação ao atleta da Mercedes.

Os dois pilotos já se enroscaram algumas vezes, com estragos variados para ambos os lados. Em um dos casos, no GP da Itália, o carro do holandês foi parar em cima da Mercedes do inglês, que só não correu risco de morte porque foi protegido pelo halo, estrutura que fica logo acima da cabeça dos pilotos no cockpit. Na corrida da Inglaterra, Hamilton acertou Verstappen, que sofreu forte impacto (de 51G) e foi parar no hospital. No Brasil, a briga também foi dura.

Em Interlagos, Verstappen protagonizou o momento mais polêmico da prova ao "espalhar" na pista e deixar o traçado para defender a liderança do GP. A manobra foi criticada e não gerou punições ao piloto da Red Bull. Na Arábia Saudita, no domingo passado, ambos atuaram de forma semelhante e causaram uma batida quando Verstappen desacelerou de forma brusca na pista e Hamilton o acertou. O piloto da Red Bull recebeu ordem da equipe para devolver a posição ao adversário, mas Hamilton diz não ter recebido informações da Mercedes e afirma não ter entendido o movimento do holandês.

SENNA X PROST

Não por acaso a disputa entre Verstappen e Hamilton já é comparada à rivalidade entre o brasileiro Ayrton Senna e o francês Alain Prost. A dupla concentrava todas as atenções entre o fim da década de 80 e o início dos anos 90 por conta de dois finais de campeonato controversos.

O primeiro grande choque aconteceu em 1989, no GP do Japão, quando eram companheiros de equipe na McLaren. Prost tinha vantagem na temporada. Ele acertou Senna quando o brasileiro tentou fazer ultrapassagem por dentro. Ambos saíram do traçado na hora. O francês abandonou, porém o brasileiro contou com o auxílio dos ajudantes de pista para empurrar o carro e seguir na corrida, que ele acabou vencendo. No entanto, Senna foi desclassificado por ter cortado uma chicane neste retorno à pista. Prost ficou com o título.

Um ano depois, a cena se repetiu no tradicional circuito de Suzuka. Mas com sinais invertidos. Senna atingiu o carro do rival, agora na Ferrari, na primeira curva da corrida. Ambos deixaram a prova sem somar pontos e o brasileiro assegurou o primeiro lugar na classificação geral, faturando seu segundo título na F-1.

A ERA SCHUMACHER

Um final de campeonato como estes acabou se repetindo em 1994, desta vez sem envolver a dupla - Senna morreu em maio do mesmo ano. Os protagonistas foram Michael Schumacher e o inglês Damon Hill. O alemão chegou ao GP da Austrália com um ponto de vantagem no campeonato: 92 a 91. Portanto, confirmaria o título se Hill não somasse pontos.

Após um erro que lhe fez tocar o muro, Schumacher perdeu tempo e, ao voltar para a pista, viu o rival britânico se aproximar. Na curva seguinte, Hill tentou a ultrapassagem por dentro. Mas sua Williams foi acertada pelo alemão, cuja Benetton quase levantou voo. Ambos saíram da corrida e Schumacher faturou o primeiro dos seus sete títulos mundiais.

Três anos depois, as autoridades esportivas e os comissários de prova não foram condescendentes com o mesmo piloto. No GP da Europa, disputado em Jerez, na Espanha, o alemão enfrentava o canadense Jacques Villeneuve na briga pelo título. E liderava o campeonato por apenas um ponto.

Quando Villeneuve fazia ultrapassagem por dentro, Schumacher acertou sua Ferrari no meio da Williams do rival. Desta vez, a estratégia não deu certo. O alemão precisou abandonar, mas o canadense seguiu na prova e terminou em terceiro, assegurando o título. Na sequência, o piloto da Ferrari foi desclassificado do campeonato. Perdeu o vice para o alemão Heinz-Harald Frentzen.

"Existe um precedente que foi estabelecido no campeonato de 1997, no qual os pontos de Schumacher foram tirados dele", afirmou o próprio Hill ao comentar as expectativas sobre o embate entre Verstappen e Hamilton, no fim de semana passado.

O ex-piloto evita comparar o holandês com o alemão, mas acredita que o piloto da Red Bull poderia fazer algo diferente em Abu Dabi. "Existem algumas pessoas que dirigem sem fazer nenhuma concessão. E acho que Max é uma dessas pessoas."

No domingo passado, Verstappen sofreu duas punições de acréscimo de tempo por manobras irregulares ou controversas. Desde então, foram poucos os ex-pilotos que saíram em sua defesa. Muitos consideraram justas as punições.

Terceiro piloto com mais corridas na história da F-1, Rubens Barrichello viu excessos por parte de Verstappen. "Acho que ele passou do limite sim, como sendo meio 'Dick Vigarista'", comentou o brasileiro, em referência ao personagem de desenho animado do estúdio Hanna-Barbera.

"Eu espero que a corrida (na Arábia Saudita) tenha repercussões suficientes para que todos aprendam com isso e se adaptem para a corrida final. Eu não acho que o campeonato mereceu um resultado que foi influenciado por uma colisão. As emoções estão muito, muito carregadas", disse Toto Wolff, chefe da Mercedes. "O carro mais rápido com o piloto mais rápido deve vencer o campeonato e não um tirando o outro."

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