Carsten Horst
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'Fui criando uma casca para me proteger do assédio', diz Bia Figueiredo

Aos 33 anos, ela conta como é ser uma das raras mulheres no universo do automobilismo e como dribla o preconceito

Entrevista com

Bia Figueiredo, pilota de Fórmula Indy

Renan Cacioli, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2018 | 04h30

Não faz muito tempo que Bia Figueiredo percebeu um erro de postura que vinha cometendo: imersa desde os 8 anos de idade no automobilismo, acabou tendo parte da personalidade moldada por um universo formado por homens e não se importava em ser exemplo para outras mulheres. Não que a atual piloto de Stock Car, primeira brasileira a correr na Indy e a disputar as 500 Milhas de Indianápolis, tenha se tornado uma ativista dos movimentos feministas. Mas hoje, aos 33 anos, 25 dedicados às pistas, ela entende melhor seu papel. E revela, nesta entrevista ao Estado, como foi criando uma “casca” para se proteger do assédio nas pistas.

Você é a única mulher em grandes categorias no Brasil?

Tem de considerar a Débora Rodrigues (F-Truck), que já está há alguns anos competindo.

Imagino que dê para contar nos dedos o número de mulheres com as quais trabalhou...

Correndo, mesmo, não foram muitas. Acho que está melhorando, mas como há poucas mulheres que gostam da velocidade, também há poucas mulheres engenheiras. Então, não sei. Ou não é incentivado ou é algo genético mesmo, a mulher talvez não tenha tanto essa paixão pela mecânica, pelo carro. Quando você tem uma mulher como piloto, uma referência como engenheira, isso talvez cative e incentive.

Você se viu como um exemplo ao longo da carreira?

Até o momento da Indy, não ligava para isso. Porém, fui vendo a reação das meninas e comecei a entender e me sentir um pouco responsável por abrir mais portas. Mudei a chave e passei a ajudar, a incentivar. Sou embaixadora de um grupo chamado “Karteiras”, são pilotos amadoras de kart. Fazem um torneio o ano todo, e na Granja Viana e Interlagos. Eu corro uma vez por ano. Estou ajudando na carreira da Antonella Bassani (12 anos). 

Mas quando se deu a mudança e você passou a se importar mais com essa imagem?

Não houve um clique. Com o tempo, fui percebendo um erro de postura que estava cometendo, parecia até que eu era machista em alguns sentidos. Comecei a trabalhar com mulheres sem querer no automobilismo, como empresárias. E vi o quão competentes e focadas elas eram. E entendiam detalhes do universo feminino, coisas de família, período menstrual. Pensei: ‘que besteira estou cometendo. Lutei minha carreira toda por igualdade. Se não ajudar as que vêm, não faz sentido isso’. Eu tinha um pequeno preconceito, mas era coisa de crescer em meio a esse universo só com homens. 

Você já sofreu preconceitos?

Ah, tem aquilo que você cresce já ouvindo que mulher não pode ou não sabe dirigir. Quando ganhava corridas, para os meninos era uma vergonha, como se perdessem para um ser inferior. Mas tínhamos 8, 10 anos. Nos EUA, encontrei outro mundo. Lá, a cabeça é mais aberta, preconceito zero. 

E assédio? Já foi vítima?

Tem coisas que acontecem, mas nunca senti que fui assediada. Às vezes pode ter um xaveco mais agressivo, mas nunca me prejudicou. Sou chamada de gostosa o tempo todo. E dou risada. Acabo brincando no sentido de não ligar. Fui criando uma casca para me proteger do assédio.

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