Gasolina nas veias: pais pilotos de corrida e os filhos também

Nelsinho Piquet é um dos símbolos da geração que chegou à F-1 com uma formação total no automobilismo

Brad Spurgeon, The New York Times

28 de abril de 2008 | 15h42

Nico Rosberg, Nelsinho Piquet e Kazuki Nakajima, três filhos de ex-pilotos de Fórmula -1 que também correm, provavelmente se parecem mais um ao outro do que seus famosos pais. A presença deles na Fórmula l, onde nunca houve tantos filhos de ex-pilotos como agora, provavelmente diz mais sobre esse esporte, hoje, do que sobre suas famílias.Eles são jovens afáveis, bem educados, bem comportados, com um enfoque bem definido das suas carreiras . Não se deixam impressionar pelas suas raízes, embora sejam profundamente gratos ao pais pelo apoio prestado. Nenhum deles se preocupa muito em ter os pais presentes, agora que finalmente se firmaram. "Quando ele está por perto, provavelmente gosta de observar", disse Piquet, referindo-se ao pai, três vezes campeão mundial nos anos 80. "Mas prefiro manter distância e fazer o meu trabalho. O circuito para nós é o nosso trabalho. Assim, prefiro separar trabalho da família".Seu pai foi um brasileiro pioneiro que começou a vida como mecânico e foi para a Inglaterra às próprias custas. Vivendo modestamente, trabalhou bastante para se tornar piloto de Fórmula 1, o que conseguiu duas semanas antes de completar 26 anos. Nelsinho Piquet, 22 anos, corre pela equipe da Renault, mas subiu nos rankings no Brasil e na Europa com equipes que seu pai criou em torno dele."Ele me propiciou bons contatos e me apresentou para as pessoas certas, e tudo sempre correu bem com todos aqueles que conheci e com quem trabalhei", disse o jovem piloto. "É importante ter alguém em quem você pode confiar, assim se ele diz, ‘acho que você deve correr na Inglaterra no próximo ano’, você não tem dúvidas; você vai, achando que é o melhor que tem a fazer".Nakajima, 23 anos, cujo pai, Satoru, foi piloto de Fórmula 1 de 1987 a 1991, concorda que o nome de família e os contatos ajudaram-no a conseguir o que é essencial para um jovem piloto vencer na carreira. "Sempre é bom ter uma identidade diferente, comparado com outros pilotos", disse ele. "Sim, com Nico Rosberg ocorre a mesma coisa, mas é sempre mais fácil para se conseguir mais atenção dos fãs e da mídia".Nakajima diz que muitos dos fãs do seu pai ainda assistem às corridas e o acompanham. Repercutindo o que dizem outros pilotos, ele também não se sente pressionado por isso. E acha que as possibilidades aumentam. Ao entrar para a equipe da Williams, ele também foi ajudado pelo uso do motor da Toyota, já que seu pai é um pupilo da Toyota.Rosberg, 22 anos, filho de Keke Rosberg, que ganhou o título de melhor piloto em 1982, pela Williams, está com a equipe há duas temporadas. Este ano, Frank Williams, dono da equipe, disse o seguinte sobre a sua contratação: "Não pensamos muito. Foi uma escolha instantânea, não havia dúvidas a respeito. A única preocupação era conseguir a assinatura. Era uma equipe de veteranos que o queria".Esses três filhos de ex-pilotos começaram suas carreiras em corridas de kart e subiram nos rankings, culminando nas categorias do GP2, um degrau abaixo da Fórmula 1. Rosberg ganhou nessa categoria em 2005, e Piquet terminou em segundo, atrás de Lewis Hamilton, em 2006. Foi há uma década que Damon Hill e Jacques Villeneuve correram juntos na Williams. Mas as coisas eram diferentes, então. Ambos construíram suas próprias carreiras , apesar de portarem nomes de família famosos.Ao contrário de Villeneuve, Damon Hill não era de família abastada e trabalhou durante um tempo como entregador para se sustentar. Jacques Villeneuve não se sentia à vontade em falar sobre o pai, e chegou mesmo a dizer que seu nome era um obstáculo à sua carreira nas corridas de categorias inferiores na Itália, onde os fãs esperavam mais do filho de um piloto famoso da Ferrari. Hill e Villeneuve tornaram-se rapidamente campeões mundiais: Hill em 1996 e Villeneuve em 1997.Rosberg está ganhando impulso. Marcou quatro pontos na sua primeira temporada, 20 na segunda e no mes passado subiu pela primeira vez ao pódio no Grande Prêmio da Austrália, terminando em terceiro lugar. Nakajima combinou voltas rápidas com acidentes. Piquet ingressou na Renault esta temporada como companheiro de equipe de Fernando Alonso, duas vezes campeão mundial. Não conseguiu terminar a primeira e terceira corridas da temporada. E ficou em 11ºlugar na segunda. A filosofia do pai de Rosberg é a sua base: "Meu pai sempre disse, ‘corrida é pontos baixos, assim faça o melhor dos pontos altos ocasionais’", disse ele. O talento de Rosberg na direção combina com seu conhecimento técnico, que muitos acreditam ser melhor do que o de Hamilton, estrela da última temporada, e que deve ajuda-lo a melhorar o carro com os engenheiros.Antes de se decidir a se tornar um piloto em tempo integral, Rosberg, ingressou em um curso de engenharia na Grã-Bretanha. Ele fala quatro línguas, embora não a do seu pai, que é finlandês. Sua mãe é da Alemanha, onde nasceu, mas ele cresceu em Mônaco.Piquet também nasceu na Alemanha, mas de mãe holandesa. Os pais se divorciaram logo depois do seu nascimento. Ele viveu com a mãe em Monaco até os oito anos de idade, quando decidiu viver com o pai no Brasil, para aprender a língua e cultura do país. Foi então que começou a correr.Nakajima freqüentou a universidade no Japão por dois anos, para estudar inglês e poder ir à Europa correr em preparação para a Fórmula 1.Os pais desses jovens pilotos correram em épocas mais aventureiras, quando o caminho para o topo não era formado por degraus tão bem definidos. O jovem Piquet refere-se a apenas duas biografias de pilotos de corrida que ele leu até hoje: a de Emerson Fittipaldi, campeão mundial nos anos 70, e a do seu pai.  

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