Gilles Villeneuve: em 1982, a Fórmula 1 perdeu um herói e ganhou um mito

Pai de Jacques morreu após acidente de sua Ferrari no treino de classificação do GP da Bélgica

Livio Oricchio, estadão.com.br

07 de maio de 2012 | 16h18

SÃO PAULO - A direção da Ferrari conhece, claro, a extensão do mito Gilles Villeneuve. Mas não tinha ideia de que um evento promovido para lembrar os 30 anos da perda do mítico piloto canadense, em Fiorano, pudesse gerar tanto interesse. Não há mais ingressos para a apresentação que Jacques Villeneuve fará no circuito da Ferrari com o histórico modelo 312T4 número 27 pilotado por seu pai em 1979, quando foi vice-campeão do mundo.

Treino de classificação para o GP da Bélgica de 1982, em Zolder. Sábado, 8 de maio. Villeneuve deixa os boxes, aquece os pneus Michelin, e abre a volta. O veterano alemão Jochen Mass, da March, celebrava seu 100.º GP e acabara de estabelecer seu tempo. Em entrevista ao Estado, há anos, Mass comentou: “Vi a aproximação de uma Ferrari e desviei meu carro para deixar livre a melhor trajetória. Foi quando recebi enorme impacto na traseira e vi o carro se desintegrando, no ar, do meu lado”.

Mass, hoje um próspero empresário de 64 anos no sul da França, disse ainda: “Fiz o que qualquer piloto é orientado a fazer, dar prioridade para quem vem na volta lançada”. Não demonstra guardar sentimento de culpa pelo ocorrido. Na série de capotagens da Ferrari, os cintos se soltaram, catapultando Gilles Villeneuve para longe, na área de escape da curva seguinte do traçado belga. Múltiplas fraturas causaram sua morte, aos 32 anos. A segurança do modelo 126C2 da Ferrari foi questionada por muitos profissionais da Fórmula 1, dentre eles Nelson Piquet.

Mas Gilles realmente morreu? A julgar pelo impressionante interesse gerado já domingo, na pequena cidade de Erbè, próxima a Mantova, cidade de outro mito das pistas, Tazio Nuvolari, com quem era regularmente comparado, Gilles segue bastante vivo. E não apenas na memória dos que viram o “aviador”, o “acrobata” competir na Fórmula 1, de 1977 a 1982, mas entre fãs da nova geração.

Vídeos das performances do “mágico”, impensáveis nos dias de hoje, estão dentre os mais acessados, a exemplo da épica disputa com Rene Arnoux, da Renault, no GP da França de 1979, quando percorreram o circuito de Dijon-Prenois lado a lado nas últimas voltas, a mais de 220 km/h. Ao desfilar pelas ruas da cidade de Erbè, domingo, com a Ferrari 312T4, Arnoux causou frisson.

“Depois do pódio em Dijon-Prenois (Gilles ganhou a disputa com Arnoux pelo segundo lugar por 240 milésimos de segundo), fomos para a sala de imprensa e assistimos várias vezes a nossa batalha junto dos jornalistas”, contou Arnoux ao Estado, em 2007, no GP da França, em Magny-Cours. O vencedor foi Jean-Pierre Jabouille, da Renault. “Rimos muito, todos. Aquela luta só foi possível, quero dizer nenhum dos dois morreu, porque Gilles era um piloto que você podia confiar como nenhum outro.”

Ao longo de seus 67 GPs, duas poles e seis vitórias, Gilles ofereceu sempre um espetáculo à parte. Os torcedores acompanham a corrida e, como extra, o show de coragem, controle do carro e obsessão pela velocidade do canadense.

Enzo Anselmo Ferrari, fundador da Scuderia di Maranello, escreveu em seu livro Piloto, Che Genti: “Convivi com várias tragédias na minha vida. Essa (morte de Gilles) está dentre as mais difíceis de aceitar”. Ferrari o amava profundamente. “Tem o que mais aprecio num piloto, a grinta (gana de vencer).” Dentre os tifosi, ficou imortalizado também: “Gilles não corre para si, mas para nós”.

O canadense amava voar com seu helicóptero. “Vinha de Mônaco (onde residia) e antes de pousar em Fiorano costumava sobrevoar Maranello (separada por uma rua de Fiorano) para avisar aos fãs que chegara”, lembrou o responsável pelo circuito de 1975 a 2000, Giorgio Ferri, para a imprensa italiana. Ferri ouviu de Gilles frases do tipo: “Preciso dos cavalos atrás de mim como o ar que respiro”.

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