Gordini, um duro teste de resistência e a história do nosso automobilismo

Há 48 anos, nossos melhores pilotos participaram de uma verdadeira epopeia em Interlagos, ainda não superada

Livio Oricchio, O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2012 | 17h33

SÃO PAULO - A história é simples de ser compreendida. Em 1964, a Willys Overland do Brasil fabricava em São Bernardo do Campo, São Paulo, os automóveis Gordini. Era um carro popular, equipado com motor de 850 cc. Mas havia um concorrente feroz: a Volkswagen, com seu Fusca.

O Gordini foi projetado pela Renault e destinava-se essencialmente para o mercado europeu. Na dura realidade das ruas e estradas brasileiras, a maioria sem pavimento naquela época, o carro no início criou uma imagem não positiva. Até que o fabricante o desenvolvesse propriamente, alguns componentes se romperam com frequência.

Mas o Gordini ficou muito melhor com as mudanças – à prova de Brasil, pode-se dizer. E o publicitário Mauro Salles decidiu mostrar que o carro tinha o que as pessoas imaginavam não possuir: resistência. Quebrado o preconceito formado pelo começo de sua trajetória no mercado, o Gordini passaria a ser também um campeão de vendas.

Assim, no fim do ano de 1964, Salles e seu grupo de trabalho criaram um projeto: submeter o Gordini ao mais duro teste de resistência de um veículo da história. O time de pilotos profissionais da Willys, onde estavam Wilson Fittipaldi, Bird Clemente, José Carlos Pace, Luis Pereira Bueno, Carol Figueiredo, Francisco Lameirão, dentre outros, os melhores do Brasil, pilotaria o Gordini, sem parar, pelo anel externo do circuito de Interlagos, até completar os 50 mil quilômetros.

Para dar um caráter oficial ao evento, a Willys chamou um inspetor da FIA, Paul Pierre Michel Massonet. E uma longa série de critérios estabelecidos pela entidade foi seguida para que o recorde – ou os recordes, caso obtivessem sucesso – fosse homologado.

Avançando dramaticamente o filme, os episódios descritos pelos pilotos depois de 22 dias pilotando, se alimentando e dormindo no autódromo, em instalações construídas para a equipe, fazem parte, hoje, da antologia do automobilismo brasileiro. O maior teste de resistência do mundo atingiu todos os objetivos.

Carol Figueiredo, por exemplo, foi surpreendido por uma coruja. A ave rompeu o vidro no choque e entrou no Gordini. “Voltei com ela para os boxes”, lembra. Bird Clemente conseguiu, segundo seus colegas, uma proeza: capotou o Gordini na curva 3.

Bird explica: “Para a realização do teste, recapearam o anel externo de Interlagos, onde pilotaríamos o Gordini. Mas choveu bastante durante o teste e começou a acumular uma espécie de pedrisco do asfalto do lado de fora da trajetória na curva 3, no fim do Retão. Na verdade, formou-se ali um degrau. E eu dei uma bobeada tocando nele, o que fez o carro virar. Mas, a não ser os amassados e os vidros quebrados, não danificou a mecânica do Gordini. O carro parou na posição natural e pude regressar aos boxes.”

Luis Pereira teve de pilotar o carro logo depois e havia dúvida se era possível colocar outro vidro. Luiz colocou um óculos usado para pilotar moto e um lenço no rosto. “O Luiz ficou louco. Voava pedrinhas no rosto dele. E quando começou a chover entrava, claro, os pingos de água que, com a velocidade, chegavam a doer”, lembra Bird.

O inconformismo de Luis Pereira com Bird foi tal que parou o carro durante o seu turno e foi acordar o colega. Bird conta: “Ele veio até mim e falou que já que eu havia feito aquilo eu que pilotasse daquela maneira.” Não, obviamente, em tom litigioso, até porque o grupo de pilotos da Willys, apesar de adversários, entre si, era extremamente unido, coordenado pelo competente Luis Antonio Greco.

Wilsinho Fittipaldi guarda belas memórias daquela experiência única: “Não foi fácil ficar morando quase um mês em Interlagos. Mas o teste foi um sucesso. Nós pilotávamos com o pé no fundo o tempo todo. Apenas antes da curva 3 aliviávamos um pouco. Não usávamos o freio. Nossa média era pouco superior a 100 km/h.”

A extensão do feito foi tão grande que até hoje, 48 anos depois, completados dia 17 deste mês, o recorde estabelecido pelo Gordini, em Interlagos, ainda não foi batido. Obviamente o carro ganhou um apelido: “Teimoso”. 

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