Guerra sem fim

A Mercedes-Benz ganhou o campeonato com 12 dobradinhas, uma a mais do que no ano passado, somou 703 pontos no Mundial de Construtores - o que, além de ser um novo recorde, é mais do que ela conseguiu em 2014, quando a pontuação na corrida final era em dobro -, fez o campeão mundial e o vice e não deu chance às rivais. Foi um ano perfeito quanto aos resultados. Mas os comandantes da equipe ainda não conseguiram vencer o clima de guerra entre seus dois pilotos. 

Reginaldo Leme, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2015 | 03h00

A atitude de Hamilton após a bandeirada do GP de Abu Dabi foi até mais agressiva - e grosseira - do que no episódio dos bonés na corrida dos Estados Unidos. Naquela oportunidade, para quem não se lembra, na antessala do pódio Hamilton recebeu da Pirelli os três bonés de primeiro, segundo e terceiro colocados e jogou o de segundo no colo de Rosberg, como um recado de que aquele era o lugar que o alemão merecia. A reação instantânea de Rosberg foi jogar o boné de volta agressivamente contra Hamilton.

Em Abu Dabi a cena teatral aconteceu na própria pista. Rosberg, eufórico com a vitória, após a bandeirada levou o carro para bem perto da torcida, comemorando a conquista e, ao mesmo tempo, despedindo-se do público na última corrida do ano. Mas Hamilton não deixou barato. Quando ele viu o alemão acenando para a torcida, acelerou o carro e cortou caminho na pista para se colocar à frente do companheiro no momento da comemoração. A intenção foi deixar bem claro que tinha sido ele o campeão do mundo. 

O inglês tem em mente que a Mercedes andou favorecendo o companheiro nas últimas corridas com o objetivo de levantar o moral de Rosberg após a perda do campeonato. Por isso ele reclamou no rádio na corrida do México quando a equipe disse que ele teria de fazer um novo pit stop e, agora em Abu Dabi, de novo levantou a suspeita. No México tornou pública esta suspeita ao perguntar: “Posso saber por que eu tenho de trocar pneu de novo?” A equipe explicou que aquele jogo que ele estava usando não suportaria as voltas que faltavam e, mesmo de má vontade, ele acabou aceitando.

Em Abu Dabi ele cismou que poderia ir até o final das 55 voltas sem uma segunda parada, mesmo tendo trocado do pneu supermacio para o macio na volta 13, duas depois de Rosberg. Passou três voltas discutindo com a equipe, mas acabou entrando no box. Aí a equipe pode ter errado em não tentar o pneu supermacio nas 16 voltas que faltavam, já que o carro estava bem mais leve. Era um risco que valeria a pena ter corrido para dar a Hamilton a chance de ser muito rápido e alcançar o companheiro. Mas, temendo que o pneu macio não resistisse, a equipe manteve o pneu amarelo (o mais duro). Pode ter sido um excesso de precaução. Mas ninguém vai convencer o inglês de que não houve intenção de evitar o duelo entre os dois nas últimas voltas. 

Rosberg, mesmo sem o título de campeão, terminou a temporada com a alma lavada. Conseguiu ser mais veloz do que Hamilton para conquistar as seis últimas poles e dominou as três corridas finais sem dar a menor chance de reação ao tricampeão. Isso pode significar um progresso do alemão ou relaxamento de Hamilton, que, desde a conquista do título, o que mais tem feito é postar “selfies” em baladas. Seja qual for a causa, este fim de temporada deixa a expectativa de um duelo bem mais forte em 2016. Sem contar que a Ferrari, com três vitórias e 16 pódios no ano, ameaça entrar na briga pelas vitórias, assim como a Red Bull, que se acertou com a Renault mediante a promessa de um motor muito mais potente.

Para o ano que vem, as equipes terão mais opções de estratégias por causa de uma mudança na regra dos pneus. A Pirelli e a FIA determinaram que as equipes passarão a ter, em cada GP, três tipos diferentes de pneus slick em vez de dois e terão um prazo para comunicar à FIA as suas opções, que serão mantidas em sigilo até duas semanas antes de cada GP. As equipes terão liberdade para escolher dez dos 13 jogos a que têm direito por fim de semana, mas especificamente para a corrida a Pirelli escolhe dois compostos - e um deles terá de ser usado.


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