Há 25 anos, Ayrton Senna chegava ao topo pela primeira vez

Na pista de Suzuka, o brasileiro conquistou o primeiro de seus três títulos na Fórmula 1

Vanderson Pimentel, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2013 | 09h16

SÃO PAULO - As madrugadas de sábado para domingo costumam ser momentos de diversão e entretenimento para as pessoas, mas há exatos 25 anos, os milhões de brasileiros que estavam em frente da televisão não conseguiam ao menos piscar. A aflição, pela falha no carro da McLaren ainda na primeira volta, deu lugar ao êxtase no fim da 51ª. A partir do momento em que a bandeira quadriculada se agitou em Suzuka, no Japão, naquela madrugada, uma nova era começava na Fórmula 1 e um novo piloto cravava seu espaço no coração dos brasileiros que, mesmo do outro lado do mundo, se emocionaram com o ecoar do Tema da Vitória e viam Ayrton Senna conquistar o seu primeiro titulo mundial na categoria mais importante do automobilismo.

Nascido em 21 de março de 1960, Ayrton mostrava gosto pela velocidade desde pequeno. Se é comum em familias brasileiras os pais levarem seus filhos a estádios de futebol, a história foi diferente na família Silva. Seu Milton, empresário rural, presenteou o garoto não com uma bola, mas com um kart feito por ele mesmo, de motor de máquina de cortar grama. Devido à habilidade na condução do brinquedo, não demorou para perceber que aquilo se tornaria mais do que diversão. Nove anos depois, o garoto, natural de Santana, bairro da zona norte de São Paulo, iniciava sua carreira amadora no automobilismo. E a partir de 1977, Senna encaminhava seu primeiro tricampeonato de kart nos torneios brasileiro e sul-americano (78 e 1980).

Seus bons desempenhos logo despertaram a atenção na Europa, e em 1981 Ayrton Silva (só foi adotar o sobrenome da mãe no ano seguinte) estreava na Fórmula Ford 1600 com o primeiro lugar geral logo na temporada de debutante. O que pouca gente sabe é que a carreira de Senna quase parou por ali mesmo. Seu Milton abdicou de investir na carreira do garoto e, como consequência, Ayrton havia voltado ao Brasil para trabalhar nos negócios do pai. Isso foi em 1982. Até que surgiu Armando Botelho. O amigo da família, que mais tarde viria a ser o empresário de Senna, conseguiu convencer seu Milton a bancar parte do que era necessário para o piloto disputar a Formula Ford 2000. O investimento resultou em mais um título, que foi comemorado com muitas bebidas na fase "James Hunt" de Ayrton Senna, que durou até o ano seguinte, com a conquista da Fórmula 3 em 1983.

FÓRMULA 1

Tudo aquilo ainda parecia pouco para Senna. E o mundo automobilístico se mostrava cada vez mais recíproco aos desejos e os pódios do brasileiro. Mesmo com as especulações envolvendo seu nome em equipes como Williams, McLaren e Brabham, a única escuderia da Fórmula 1 que ofereceu um projeto ao garoto de então 24 anos foi a Toleman, em 1984. E mesmo por uma equipe modesta, Senna terminou a temporada na nona colocação, com 13 pontos. Ele subiu ao pódio em dois GPs, em terceiro lugar na Grã Bretanha e em Portugal.

Seu desempenho positivo voltou a chamar atenção nos paddocks da Fórmula 1. E antes da temporada de 1984 terminar, Senna já estava acertado com a Lotus-Renault. Senna voltaria a surpreender após garantir a quarta colocação no ranking geral, com dois primeiros lugares em Portugal e na Bélgica. Ao fim de 1986, Senna ficaria na mesma posição e em 1987, terminou sua estadia na equipe com a terceira colocação na Fórmula 1.

O PRIMEIRO TÍTULO

Em 1988, Ayrton teria a grande oportunidade da sua vida ao assinar contrato com a McLaren. Mesmo com as fortes expectativas em cima de seu desempenho, junto ao já bicampeão Alain Prost, Senna teve de mostrar à equipe que poderia concorrer pelo título da categoria. Se essa disputa, instigada pelo time inglês, foi ruim para a rivalidade entre equipes, as 15 vitórias da McLaren das 16 corridas do ano foram pontos-chaves de uma das maiores disputas da história do automobilismo. Com a confiança da equipe e a desconfiança de Prost, Ayrton Senna venceu oito corridas no ano (um recorde na época) e conquistou o seu primeiro campeonato mundial da Fórmula 1. Na prova do título, realizada em Suzuka, o carro do brasileiro falhou e ainda na primeira volta, Senna retornou a corrida na 16ª colocação. Antes de completar a primeira volta, Ayrton alcançou a oitava posição e na 27ª volta, deixou o então líder Prost para trás. No decorrer, Senna não foi mais ultrapassado e conquistou o seu primeiro título, ficando 17 segundos à frente do francês, segundo colocado da prova e da classificação geral.

RIVALIDADE

Se em sua terra natal nascia um mito, nos bastidores da McLaren, a disputa de egos pegava fogo. Em 1989, a rivalidade entre Senna e Prost tomou proporções insuportáveis. O campeonato ficava mais uma vez entre os dois até o calendário da Fórmula 1 colocar Suzuka novamente no caminho dos pilotos. Para ter chances de conquistar o bicampeonato, Senna precisava vencer e torcer para Prost não completar a prova, para disputar o título na última corrida, na Austrália. Na chicane, Senna tentou ultrapassar Prost, mas o francês guinou o volante para evitar que o brasileiro ficasse à sua frente e os dois carros desviaram da pista. Senna ainda conseguiu retornar, auxiliado pelos fiscais, e chegou em primeiro. Porém, a FIA o desclassificou por cortar a chicane depois da colisão com Prost e ainda o suspendeu temporariamente. O episódio, que culminou no terceiro título de Prost, foi bastante constestado por Senna, que bateu boca com o presidente da Federação, Jean-Marie Balestre, compatriota de Prost.

No ano seguinte, Senna conquistou o bicampeonato de forma muito semelhante. Na penúltima corrida, ele bateu no carro de Prost (que havia mudado para a Ferrari, tendo uma cláusula em seu contrato que impedia o brasileiro de ser seu companheiro de equipe) e garantia com antecedência o seu título. O tricampeonato veio em 1991, no mesmo ano em que Senna conquistou seu primeiro Grande Prêmio do Brasil.

Após insatisfações com a McLaren, Senna mudou de escuderia em 1994 para terminar sua brilhante carreira na Williams. A trágica curva de Tamborello, em Ímola, fez da fatalidade nascer um mito. Idolatrado por amantes das corridas, talvez nem o próprio Senna entendesse o que foram os milhões de brasileiros que acompanharam seu caixão rumar até o cemitério do Morumbi, onde seu corpo foi sepultado. Seu perfeccionismo, carisma e orgulho em ser brasileiro o transformaram em uma lenda do esporte. 

COLABOROU LIVIO ORICCHIO

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