Há 30 anos, Nelson Piquet conquistava seu segundo título na Fórmula 1

'Tinha um canhão nas mãos', lembra o ex-piloto, referindo-se a Brabham que lhe deu o bicampeonato

Livio Oricchio - Enviado especial, O Estado de S. Paulo

15 de outubro de 2013 | 14h45

NICE - Em conversa com o repórter do Estado, em 2009, enquanto acompanhava a trajetória do filho na Fórmula 1, Nelson Piquet disse: "Eu vou lhe contar como era a Fórmula 1 naquela época (1983). Estávamos num teste em Paul Ricard quando chegou Paul Rosche (diretor da BMW). Eu vi ele tirar do bolso do casaco uma turbina embrulhada num lenço branco. Disse-me que era para testarmos".

Piquet lembra dos detalhes: "Eles colocaram a turbina no carro da Brabham (modelo BT52) e depois de algumas voltas, não foram muitas, voltei para os boxes, sorrindo por dentro do capacete. Disse a ele para fazer o motor aguentar aquela turbina que eu ganharia o campeonato para a BMW. Passei a ter um canhão nas mãos".

O projeto deu certo. Hoje, 15 de outubro, faz exatos 30 anos que Piquet conquistou com Brabham-BMW Turbo o seu segundo título na Fórmula 1. Foi no GP da África do Sul de 1983, no circuito de Kyalami, próximo a Johanesburgo, 15.ª e última etapa da temporada.

"A Fórmula 1 era assim, o diretor de esportes de uma fábrica como a BMW chegava no autódromo com uma turbina embrulhada num lenço", disse, rindo, Piquet. "O resto era conosco. O piloto tinha enorme responsabilidade em tudo, chassi, motor, turbo, pneus."

Piquet seguia Nelsinho na Renault mas havia recebido um pedido de Flavio Briatore, diretor da equipe, dirigente que o contratou para competir pela Benetton, que dirigia, nas temporadas de 1990 e 1991.

Briatore pediu para Piquet não interferir na relação de Nelsinho dentro do grupo. Piquet manteve-se sempre à distância, sem dar palpites.

"Mas acompanho os trabalhos para entender o que fazem. O que mais me impressiona em relação a 1983, por exemplo, é como os carros são monitorados eletronicamente", falou ao Estado. "Com os recursos de hoje, naquele teste em Paul Ricard eu precisaria apenas acelerar o carro. Pararia nos boxes e os engenheiros iriam ler os dados captados pelos sensores. O piloto perdeu muita importância no desenvolvimento dos componentes."

PROST, PIQUET E ARNOUX

Três pilotos se apresentaram com chances de chegar ao título no GP da África do Sul de 1983. O líder do campeonato, Alain Prost, da Renault, com 57 pontos, Piquet, segundo colocado, com 55, e Rene Arnoux, da Ferrari, com 49.

Piquet havia vencido as duas etapas anteriores, em Monza e Brands Hatch, Inglaterra, com Prost em segundo nas duas. Essa arrancada lhe reinseriu na luta pelo título na corrida final. Depois dessas vitórias, surgiram suspeitas de todos os lados de que a gasolina utilizada pela Brabham-BMW BT 52 de Piquet era irregular. A Castrol fornecia combustível e óleo lubrificante ao time inglês.

"Quem nos acusava não entendia nada. Nós começamos a andar muito porque acertamos a versão B do carro. A FIA virou e revirou a nossa gasolina e não achou nada. E todo mundo ficou decepcionado, porque tinham certeza de que era lá que ganhamos potência", lembrou Piquet.

O REABASTECIMENTO, DE VOLTA

Gordon Murray, projetista da Brabham, fez as contas e descobriu que poderia fazer um tanque menor do limite de 220 litros imposto naquele ano porque era mais interessante reintroduzir o reabastecimento de gasolina. E na etapa final sua ideia mostrou-se decisiva para Piquet ser o primeiro campeão da nova era turbo da Fórmula 1. Até o ano anterior, o lendário motor Ford Cosworth V-8 aspirado ainda havia vencido o campeonato, com Keke Rosberg, na Williams.

O pole position em Kyalami foi Patrick Tambay, da Ferrari, com o tempo ainda de sexta-feira. Piquet também não melhorou a marca no sábado e com o tempo do primeiro dia largou em segundo. Arnoux largou em quarto e Prost, quinto.

"Kyalami está cerca de 1.500 metros acima do nível do mar e os melhores motores turbo faziam muita diferença lá, o ar é mais rarefeito", lembrou Piquet. O motor BMW 4 cilindros em linha conseguia tirar mais potência que o V-6 da Renault e da Ferrari, todos de 1,5 litro de volume.

E o motor ganhou ainda mais importância em 1983 porque a FIA passou a exigir o fundo plano para o assoalho dos carros, proibindo, assim, os carros-asas. O BT52-BMW de Murray tinha o formato de flecha, com os radiadores colocados bem na traseira.

2014, COMO 1983

Recentemente, o projetista da Red Bull, Adrian Newey, comentou que a temporada de 2014 terá semelhanças com a 1983, quando também houve um corte substancial na importância da aerodinâmica e os motores passaram a ser o componente mais importante na performance do conjunto. Os motores turbo voltarão no ano que vem. Serão V-6 de 1.6 litro.

Para se ter uma ideia do desafio dos engenheiros em 2014, na temporada de 1983 o limite do volume do tanque era de 220 litros. No ano que vem, o volume do tanque é livre, mas o consumo estará limitado a 100 quilos (cerca de 120 litros) para os 305 quilômetros da corrida. É quase a metade de 1983. Com a mistura ar/gasolina pobre, como terá de ser no ano que vem, os motores tendem a trabalhar em temperaturas mais elevadas, aumentando as chances de quebras.

Com o canhão que possuía e seu imenso talento, Piquet ultrapassou Tambay na largada para liderar a prova. Para melhorar ainda mais a situação, seu companheiro, Riccardo Patrese, terceiro no grid, também. Ainda na nona volta, de um total de 77, Arnoux se retirou. Prost ocupava a terceira colocação.

A vitória daria a Piquet 9 pontos, fazendo-o somar no total 64. Prost com o terceiro lugar chegaria a 61. Tudo ficou ainda mais fácil quando o francês abandou na 35.ª volta, pela primeira vez na temporada por causa de problemas no turbo. Tudo o que Piquet precisava com a saída da prova dos outros dois candidatos ao título era receber a bandeirada de forma a somar 3 pontos, correspondente ao quarto lugar, e chegar a 58, um a mais de Prost.

Na segunda metade do GP Piquet passou a correr pelo campeonato. Com um ritmo menos exigente, facilitou a ultrapassagem de Patrese para assumir o primeiro lugar, afinal era da mesma equipe, e depois Andrea De Cesaris, da Alfa Romeo o ultrapassou também. Piquet cruzou a linha de chegada em terceiro, uma posição a mais da necessária para ser campeão.

"Até hoje o pessoal da BMW me trata como se eu tivesse conquistado o título ontem", disse Piquet, na China, ao Estado, em 2009. Ele foi o primeiro a vencer o Mundial depois de a Renault reintroduzir o motor turbo na competição em 1977, no GP da Grã-Bretanha. Os motores turbo dominariam a Fórmula 1 até o fim de 1988, quando foram proibidos.

DECADÊNCIA DA EQUIPE

A partir de 1983, a Brabham nunca mais foi a mesma. Entrou em decadência. "Cansei de pôr dinheiro na equipe", afirmaria depois Bernie Ecclestone, seu proprietário e promotor da Fórmula 1.

Piquet mudaria para a Williams-Honda, no fim de 1985, onde conquistaria em 1987 o seu terceiro título. No total, disputaria de 1978 a 1991, um total de 204 Gps. Junto dos três títulos, venceu 23 vezes e largou em 24 ocasiões na pole position.

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