Kai Pfaffenbach/Reuters
Kai Pfaffenbach/Reuters

Helmut Marko é o 'Dono' da Red Bull

Ex-piloto de 70 anos, consultor aparece pouco, mas suas decisões são fundamentais para o sucesso da equipe

LIVIO ORICCHIO - Enviado especial, O Estado de S. Paulo

08 de setembro de 2013 | 07h30

MONZA - Aos 70 anos, esse ex-piloto de Fórmula 1 das temporadas de 1971 e 1972, pela BRM, cego de um olho, resultado do acidente que o fez abandonar a carreira, no GP da França, tem, pode-se dizer, a palavra final na mais eficiente equipe da competição, invicta há três anos: a poderosa Red Bull, que venceu os três mundiais de pilotos, com Sebastian Vettel, e os três de construtores. Helmut Marko é a chamada eminência parda da organização: aparece pouco, mas seus “conselhos” ao presidente da empresa, Dietrich Mateschitz, têm poder de decisão, tal o moral com o chefe e amigo de longa data. E os impressionantes resultados conquistados só reforçaram sua posição no grupo.

Nessa entrevista exclusiva ao Estado, realizada em Monza, onde hoje será disputado o GP da Itália com seus dois pilotos na primeira fila do grid, Sebastian Vettel em primeiro e Mark Webber em segundo, Marko confirma ter optado por Daniel Ricciardo para a vaga de Webber, em 2014, a Kimi Raikkonen.

“Decidimos pelo que é melhor para nós a longo prazo e não visando algo apenas imediato. Quantos anos tem Kimi, 34? Daniel, 24. E o contrato é de três anos. Portanto Daniel é quem melhor oferece perspectivas para nossa equipe”, diz Marko.

Mas não é tudo que pesou na escolha. “Administrar dois pilotos como Sebastian e Kimi não seria fácil. Cada piloto tem como obrigação tentar ser melhor que o companheiro.” O que esperar então de Ricciardo? “Ele sabe. Desejamos que depois de três ou quatro corridas ele se transforme num desafio para Sebastian.”

Questionado se não seria muito cedo para uma cobrança dessa natureza, afinal o australiano nunca pilotou um carro vencedor e o alemão já tem três títulos mundiais e caminha para o quarto, Marko respondeu: “Por quê? Daniel não é novo na Fórmula 1. Tem apenas de aprender como a equipe trabalha e desenvolver uma relação básica com seu engenheiro”. Marko é famoso por ser implacável nas suas cobranças.

Ricciardo não foi contratado para criar a concorrência dentro da Red Bull, como poderia se pensar. Ela não há com Webber, ao menos na maioria das provas. “Não estou dizendo que é para Daniel bater Vettel. O que espero dele é que traga os pontos necessários para nós conquistarmos o título de construtores e depois dessas etapas iniciais esteja perto do ritmo de Sebastian.”

Vettel e Webber por vezes tiveram uma relação belicosa, como no choque entre ambos no GP da Turquia de 2010, quando disputavam a liderança, e este ano, na Malásia, em que Vettel não respeitou a ordem para não ultrapassar Webber a fim de ganhar a corrida. Foi um grande ensinamento para a escuderia austríaca.

E essa cultura será agora aplicada na gestão do relacionamento entre Vettel e Ricciardo. “Para isso precisamos que Daniel seja tão veloz quanto Mark. Em algumas provas Mark esteve no mesmo nível de Sebastian e foi até melhor.”

No GP da Hungria, o empresário de Fernando Alonso, Luis Garcia Abad, foi procurar o diretor da Red Bull, Christian Horner, para oferecer seu piloto. Foi um choque para a Ferrari. O negócio não havia como sequer começar a ser discutido por causa do contrato do espanhol com o time italiano.

Mas pela declaração de Marko, também porque a Red Bull não o desejava. “Nós nunca trabalhamos com Alonso e essas associações (dois campeões do mundo) exigem que se conheça bem o caráter dos pilotos. Com alguns o trabalho conjunto é possível, com outros, não. Mas do que vimos de Alonso penso que não haveria como administrar essa relação.”

Se existe uma coisa que envaidece Marko é falar da sua descoberta, o notável Sebastian Vettel. No fim de 2007, apesar de deixar ótima impressão ao substituir Robert Kubica na BMW, no GP dos EUA, e já marcar pontos com a oitava colocação, o mais jovem da história, com 19 anos, Mario Theissen, diretor da equipe, dispensou Vettel no fim do ano para competir em 2008 com outro alemão, Nick Heidfeld, e Kubica. “Tivemos a sorte de eles terem apostado no homem errado (Heidfeld), o que nos permitiu trazer Vettel”, lembra, rindo, Marko.

Os dois têm uma relação que se estende além da profissional. Conversam muito. Marko, sempre muito objetivo, orienta o piloto que “descobriu”, embora seu talento fosse algo já tão palpável que se podia tocá-lo. Mas não para o diretor da BMW. “Sinto orgulho de Sebastian, claro. O vi crescer. Veio da nossa escola de jovens pilotos, o programa júnior, e foi campeão pelo nosso time.”

Em 2014, a competência de Vettel e de seus colegas de Fórmula 1 passará por um exame de alta complexidade. “Apenas os pilotos rápidos e muito inteligentes poderão andar no bloco da frente”, prevê Marko. “Eles terão de descobrir como utilizar o motor turbo, sem controle de tração, utilizar os dois sistemas de recuperação de energia (kers) e administrar o consumo de gasolina, pois serão apenas 100 litros na corrida”, explica. “Temos um extenso programa de simulação em curso a fim de melhor prepararmos nossos pilotos.”

A saída de Ricciardo da Toro Rosso levantou a questão: quem Marko vai contratar? A escuderia passará a ter o mesmo motor e kers Renault da Red Bull, a quem pertence, em substituição ao atual Ferrari, o que deve ajudá-la a crescer na competição. O brasileiro Felipe Nasr, na luta pelo título da GP2, é candidato? “Não. Apesar de a GP2 ter um campeonato longo ele não venceu nenhuma corrida.”

O português Antonio Felix da Costa, do programa Júnior da Red Bull, tem chances. “Costa me impressionou no ano passado, na estreia na World Series (Fórmula Renault 3.5), vencendo de cara, mas este ano não está indo tão bem. Vamos ver, não temos pressa. A receita básica, contudo, Marko tem. No que melhor o caracteriza, afirma: “Terá de ser alguém não apenas com potencial para se tornar piloto de Fórmula 1, mas essencialmente lutar pelas vitórias e títulos”.

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