Mark Baker/AP
Mark Baker/AP

'Homem de gelo', Kimi Raikkonen curte fase popstar na Fórmula 1

Álém do futuro, piloto finlandês fala sobre a exposição de sua imagem por patrocinadores e da relação com os jornalistas

Lívio Oricchio, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2013 | 08h00

XANGAI - Jamais espere ouvir um "boa tarde", por exemplo, de Kimi Raikkonen, ao se apresentar para a entrevista. Ou um aperto de mão e "até logo" depois de encerrada. O finlandês de 33 anos, campeão do mundo de 2007, pela Ferrari, chegou e saiu quieto de óculos escuros nesse encontro exclusivo com o repórter do Estado, nesta quinta-feira, na área reservada da Lotus no Autódromo Internacional de Xangai, em meio a belíssimos jardins, em completa oposição ao que Interlagos oferece.

O que o Iceman, ou homem de gelo, não sabia era que teria de falar pouco de F-1. Na próxima madrugada, a partir das 3 horas, horário de Brasília, o vencedor da etapa de abertura do Mundial, na Austrália, vai disputar a classificação do GP da China, terceira etapa do campeonato.

Há outdoors espalhados pelas cidades onde a competição passa com foto de Raikkonen, garoto-propaganda da marca Clear de xampu. Daí a questão: como é se ver com o cabelo esticado, super penteado, dividido de lado, já que esse não é você? Segundos para reflexão, sugerindo pensar que a entrevista não começou. Com aquela conhecida voz pausada, olhando sempre para um horizonte distante, disse, desinteressado: "Na Fórmula 1 você sempre tem compromissos com patrocinadores, que pedem para fazer essas coisas. É o meu trabalho. Eu o faço e não ligo para isso".

O outsider James Hunt, campeão do mundo de 1976, pela McLaren, e falecido em 1993, é o seu ídolo. Nunca negou. O inglês apreciava uma bebidinha e fumava. Na sua biografia, lançada no fim de 2010, o autor, Tom Rubython, descreve algumas das muitas farras de Hunt. Em setembro será lançado o filme Rush, do diretor Ron Howard, contando a vida do inglês. "Com certeza irei assistir", garantiu.

Segundo a mãe, Paula, o piloto não tem nada de Iceman. "Ao contrário do que as pessoas pensam Kimi é um coração mole. A família está sempre em primeiro lugar. Acabou de me ligar, queria saber de todos e também do seu cachorro", disse Paula, em 2008, quando o Estado foi à Finlândia entrevistá-la junto do marido, Matti, falecido em 2011.

Raikkonen é então coração mole, jovem, elegante, rico e famoso. E, há seis meses, solteiro. Como lidar com o assédio feroz das mulheres? Nova expressão de não entender o que se passa. "Sou o que era há dez anos, não mudei. Minha vida fora da Fórmula 1 é a mesma também. E faço coisas que todos fazem."

Há quem diga que o finlandês regressou à Fórmula 1, depois de dois anos ausente, 2010 e 2011, por dinheiro. O piloto nega. "Você acha que eu viria para cá por essa razão?", pergunta ao repórter. "Teria coisa mais divertida para fazer do que ouvir besteiras aqui. Isso vem de gente que desconhece minha vida." Pode ser apenas uma impressão. Mas uma impressão de mais de 200 jornalistas que acompanham as corridas de Fórmula 1: Raikkonen odeia atender à imprensa.

A questão surge, portanto, como oportuna: se você fosse jornalista e seu entrevistado falasse pouco e demonstrasse estar lá só por obrigação, como reagiria, como lidaria com isso? "Acontece que não sou jornalista". A réplica: "Ok. E se o seu engenheiro limitasse a comunicação com você ao mínimo possível e você desejasse saber mais do carro, o que faria?". "Cada um trabalha a sua maneira. Se ele me informar o que preciso, mesmo sendo pouco, vamos nos entender."

A conversa prossegue com a pergunta sobre se tem consciência de que os jornalistas se sentem tão incomodados quanto ele numa entrevista. "Onde você quer chegar?" questiona o piloto da Lotus, com o assessor de imprensa da equipe, Andy Stobart, do lado, parecendo entender o questionamento. Não interveio em um único instante. "Sei que é o seu trabalho fazer as perguntas e, para mim, eu as respondi." Raikkonen, você lê as reportagens a seu respeito? "Sim, as publicadas em finlandês e inglês. Na maioria das vezes reproduzem o que falei. Em outras, sai tudo bem diferente." E não é que Raikkonen dá uma risada?

O finlandês riu também, em fevereiro, quando em entrevista ao Estado, em Barcelona, comentou quando perguntado se estava acompanhando o que os concorrentes faziam enquanto os mecânicos substituíam o câmbio da Lotus: "Não tenho a menor ideia, assistia a um filme na TV no motorhome".

O tema Fórmula 1 finalmente chega à tona. O estado de espírito do piloto, no entanto, não muda. Sugere ser indiferente a tudo. Dietrich Mateschitz, proprietário da Red Bull, afirmou que Raikkonen é um dos nomes para o caso de Mark Webber não continuar na equipe em 2014. "Bem, eu não tenho contrato com ninguém para o ano que vem e existem poucos times vencedores", afirmou, num claro sinal de que o convite seria bem vindo.

Compartilhar a Red Bull com o amigo Sebastian Vettel seria um problema? "Amigos podem ser companheiros de equipe. Vão ser adversários na pista, tudo bem, mas a convivência é possível. Nunca tive problemas com os meus companheiros." O finlandês diz, ainda: "Não tive contato com ninguém. Na Fórmula 1 até que você assina um contrato não pode dizer nada." No melhor estilo Raikkonen, declarou sobre ordens de equipe, o tema da quinta-feira no circuito de Xangai: "Não tenho nada a dizer sobre isso". Como o tempo se esgotou, Raikkonen, avisado pelo assessor, simplesmente se levanta e se retira para, no fim de semana, demonstrar sua imensa competência como piloto.

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