Indiano não quer ser coadjuvante na F-1

Quando começou o zum-zum-zum de que um piloto indiano chegaria à Fórmula 1, muita gente disse que ele entraria no paddock de turbante, um rubi preso na testa e montado num elefante. "Mas domesticado ou selvagem?" brincou Narain Karthikeyan, piloto da Jordan, hoje no circuito de Sepang, onde domingo, às 4 horas (horário de Brasília), será disputado o GP da Malásia, segunda etapa do Mundial.Enquanto Giancarlo Fisichella e Fernando Alonso, da Renault, Kimi Raikkonen e Juan Pablo Montoya, McLaren, além, claro, de Michael Schumacher e Rubens Barrichello, Ferrari, irão lutar lá na frente pela vitória na corrida mais quente do ano, o indiano prosseguirá no seu papel de coadjuvante da competição. "Ouvi e até li coisas impressionantes a meu respeito depois de desembarcar na Inglaterra para disputar a Fórmula 3 a fim de, um dia, correr na Fórmula 1", disse hoje o admirador confesso de Mahatma Gandhi. "Só começaram a me ver como uma figura não folclórica quando os surpreendi, ao andar entre os primeiros e vencer corridas." Passo decisivo para estar, agora, na Fómula 1. "Hoje há um bilhão de pessoas, a população de meu país, me acompanhando." Não é muita pressão para um estreante, de 28 anos? "Foi pior ano passado. Eu disputei a SuperNissan e o campeonato também era transmitido para a Índia, agora me acostumei com o assédio, faz parte da minha profissão." Apesar de ser um dos mercados mais emergentes do mundo, a Índia ainda guarda a imagem de nação filosófica, berço de Buda. Nesse sentido, a presença de um indiano até com algum retrospecto no automobilismo despertou a atenção da Fórmula 1, ainda que Karthikeyan não seja, pelo seu discurso, o melhor exemplo de praticante de Yoga: "Olha essas coisas de imortalidade da alma, espiritualidade, religião, tão comuns na Índia, não têm muito a ver comigo, apesar de respeitá-las. Sou hinduísta e não budista."Mas visitar o grande túmulo de Taj Mahal, em Agra, próximo a Nova Delhi, a horas de vôo de onde nasceu, Chennai, valeu a pena. "Vá que você irá se impressionar, pela beleza e dimensão", recomenda ao repórter. Dá a entender, no entanto, desconhecer, ou não se lembrar, da trágica história de amor por traz do templo, construído pelo imperador Shah Jahan a sua amada esposa, Mumtaz Mahal, em 1648.Brasil? - O piloto indiano comentou estar mais à vontade em Kuala Lumpur que em Melbourne. "Era a minha primeira corrida. Admito que estava realmente nervoso." E a Malásia é o país mais próximo da Índia dentre todos no calendário. "Não só na geografia como na cultura também. É grande o número de indianos aqui, já conversei com fãs em Tamil e Telgu, idiomas que falo", disse Karthikeyan. "Eu me surpreendi ao ser identificado num shopping center e me pedirem autógrafo." Está sempre acompanhado da esposa, com quem se casou há cinco meses. "Brasil? Conheço São Paulo, onde fui correr com a Super-Nissan. Eu me senti em Bombaim, milhões de habitantes, as semelhanças são muitas."O interesse pelas pistas vem do pai, campeão indiano de rali nos anos 70. "Hoje ele cuida do seu comércio de tecidos." O sonho de Karthikeyan chegar à Fórmula 1 está apenas parcialmente realizado. "Não vim aqui para ser coadjuvante. Quero evoluir, vencer." E se já mostrou ser capaz de entrar no paddock sem estar montado num elefante ou ao lado de um tigre de bengala acorrentado, por que não? A TV Globo transmite as 56 voltas do GP da Malásia ao vivo.

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