Lisi Niesner/Reuters
Ferrari luta para alcançar a Mercedes na Fórmula 1. Lisi Niesner/Reuters

Ineficiente com os pneus, Ferrari luta para reagir na Fórmula 1

Especialistas destacam desequilíbrio de modelo da equipe, que não vence há oito meses e vê domínio da Mercedes

Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2019 | 04h30

Sem um piloto no topo do pódio desde o GP dos Estados Unidos do ano passado, quando Kimi Raikkonen triunfou em Austin no dia 21 de outubro, a Ferrari disputa a etapa da Áustria do Mundial de F-1, neste domingo, em Spielberg, com a esperança de encerrar o incômodo jejum. Charles Leclerc deu grande alento à equipe ao fazer a pole position no sábado. Mas tanto ele quanto Sebastian Vettel lutam contra as limitações dos seus carros a fim de interromper a supremacia da Mercedes no ano.

Lewis Hamilton ganhou seis das oito provas da temporada, enquanto Valtteri Bottas, seu companheiro de escuderia, triunfou em duas corridas. A dupla ainda emplacou uma sequência de cinco dobradinhas, algo que nunca havia sido obtida por um time de Fórmula 1 no início de um campeonato.

Um dos principais motivos para o domínio da Mercedes é a ineficiência do SF90, monoposto projetado pela Ferrari para 2019, cujo desequilíbrio chama a atenção de especialistas ouvidos pelo Estado que apontaram as razões para a escuderia estar longe dos líderes do grid.

“O principal motivo para a Ferrari não alcançar a Mercedes é o conceito errado do carro para os pneus deste ano da Fórmula 1. Não é uma questão de motor ou outra coisa, mas de adaptação a essa mudança dos pneus da Pirelli, que passaram a ter uma espessura mais fina e exigem uma maior pressão aerodinâmica para trabalhar na temperatura ideal, mais alta”, ressaltou Luciano Burti, ex-piloto de testes do time italiano na F-1 e atual comentarista de automobilismo da TV Globo.

“O carro da Ferrari tem muita velocidade de reta, mas pouca pressão aerodinâmica nas curvas. E a Mercedes, com um carro mais equilibrado, passou a dominar as corridas com estes novos pneus”, reforçou.

A opinião de Burti é compartilhada pelo italiano Claudio Carsughi, na sabedoria dos seus 86 anos, que há décadas informa como um dos maiores experts em F-1 da imprensa brasileira. 

“Primeiro, queria dizer que a Fórmula 1 virou a ‘Fórmula Mercedes’, nunca na história da F-1 tivemos um predomínio como este. Do ponto de vista técnico, o principal diferencial entre a Mercedes e a Ferrari é o aproveitamento dos pneus. Se você for ver, em entrada e saída de curva, o carro da Mercedes anda perfeitamente, como se tivesse em um trilho de trem. Já o da Ferrari, se der tudo que pode até o fim da curva, sai de traseira”, disse o jornalista correspondente do diário italiano La Stampa.

Ao comentar o fato de que Ferrari e Red Bull vêm reclamando muito dos atuais pneus da F-1 e dizendo que os compostos favorecem a Mercedes, Carsughi destacou: “Essas acusações contra a Pirelli, não digo que são desculpas, mas elas servem para justificar uma inferioridade do carro que é clara”.

Max Wilson, atualmente na Stock Car – foi campeão em 2010 –, também não considera justas as críticas aos pneus. “O que vejo é que muitas vezes as pessoas tentam arrumar uma explicação para a falta de desempenho. Quando as coisas não funcionam, as equipes culpam os pneus. Os pneus são a única coisa que é igual para todos e dos quais ninguém deveria reclamar”, diz Wilson, que foi piloto de testes da Michelin e também da Williams na F-1.

Tudo o que sabemos sobre:
Fórmula 1Ferrariautomobilismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dificuldade de adaptação ao motor híbrido é outro obstáculo para a Ferrari na F-1

Propulsor deste tipo foi adotado em 2014, ano em que a Mercedes iniciou seu domínio na categoria

Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2019 | 04h30

Se por um lado a Ferrari não conseguiu projetar um carro que extraia o melhor desempenho com os atuais pneus da Pirelli, por outro a Mercedes tem como outro importante trunfo em relação à rival italiana a sua melhor adaptação aos motores híbridos na Fórmula 1, que foram adotados a partir de 2014, ano em que a equipe alemã iniciou o seu domínio na categoria.

Esta mudança dos propulsores, que passaram a ser V6 turbo, foi aprovada por todas as equipes. E dois dos especialistas ouvidos pela reportagem do Estado consideram que foi um erro a Ferrari ter aceitado essa modificação, pois o time que hoje lidera o grid também começou a investir no desenvolvimento deste tipo de unidade de potência antes da escuderia italiana.

“Certamente, para mim, o ponto de ‘no return’ para a Ferrari foi ter aceitado a adoção do motor híbrido”, disse o jornalista Claudio Carsughi, que há décadas é um dos maiores especialistas em F-1 da imprensa brasileira. E ele depois ressaltou: “Antes eu achava que a Ferrari iria conseguir fazer bem essa unidade híbrida, mas isso não aconteceu, ao passo que a Mercedes já trabalhava há um ano e meio com isso”.

Max Wilson, piloto da Stock Car, também destacou sobre o assunto: “Desde 2014, quando a F-1 passou a ter motores híbridos, a Mercedes passou a ter um desempenho muito superior as dos carros das outras montadoras. De lá para cá, todas as equipes tiveram uma evolução muito grande no desenvolvimento dos motores, mas a Mercedes ainda tem uma superioridade".

E Wilson vê a Ferrari “desequilibrada”, pois o fato de hoje ter o carro considerado o mais rápido em retas no grid da F-1 é atrapalhado pela falta de eficiência para contornar as curvas com os atuais pneus da Pirelli, que demoram mais para aquecer e exigir maior força aerodinâmica para trabalharem em uma temperatura ideal. E esta é uma deficiência do atual monoposto da equipe italiana.

“O projeto do carro da Ferrari prioriza mais velocidade em reta e consequentemente isso sacrifica a questão da aerodinâmica, mas também é preciso ter velocidade de curva e achar um ponto de equilíbrio ideal”, enfatizou.

Com o cenário atual, Carsughi e o ex-piloto de testes da Ferrari Luciano Burti, hoje comentarista da TV Globo, creem que a Mercedes deve ganhar com facilidade os Mundiais de Pilotos e Construtores de 2019. “Talvez esta será uma das melhores temporadas do Hamilton, e para mim ele já é o campeão. É impossível que ele perca o título. Poderia perder apenas para o Bottas, mas ele não está no mesmo nível do inglês”, disse Carsughi.

Ao ser questionado se o time alemão vai “sobrar” contra os seus rivais até o fim do ano, Burti respondeu: “Infelizmente, acho que sim. Não torço contra a Mercedes, mas torço pelo esporte. Só em Monza (palco do GP da Itália) eu vejo a Ferrari com maiores chances de vencer uma prova neste ano. Uma outra vitória seria mais por um azar ou um final de semana ruim da Mercedes”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Áustria recebe GP após votação de equipes inviabilizar readoção dos pneus de 2018

Metade dos times da F-1 pediram pela volta do composto do ano passado, mas outras cinco escuderias foram contrárias à mudança

Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2019 | 04h30

Alvo de críticas de algumas equipes da Fórmula 1, lideradas por Ferrari e Red Bull, os pneus da Pirelli motivaram a realização de uma reunião antes do GP da Áustria, que tem largada às 10h10 (de Brasília) deste domingo, em Spielberg. O encontro contou com representantes dos times, da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) e da própria Pirelli, mas não houve consenso para a mudança pedida pelos insatisfeitos.

Ferrari, Alfa Romeo, Haas, Red Bull e Toro Rosso votaram pela readoção dos pneus usados em 2018. Porém, Mercedes, Williams, Racing Point, McLaren e Renault se posicionaram contra e é preciso da aprovação de pelo menos sete das dez equipes do grid para uma substituição. 

Antes desta votação, o ex-piloto Luciano Burti afirmou à reportagem do Estado que essa possível modificação era improvável. “Para isso seria preciso ter um pedido da FIA, por uma questão de segurança, que não é o caso, ou 70% das equipes votando pela mudança dos pneus. E isso não deve acontecer porque a Race Point e a Williams são ligadas à Mercedes. E, junto com a McLaren, também satisfeita com os pneus, isso já significa 40% das equipes do grid”, disse.

O diretor de automobilismo da Pirelli, Mario Isola, admite aperfeiçoar os compostos após ouvir uma série de críticas das equipes, mas avisou que isso só ocorrerá em 2020. “Fizemos um produto dentro do que a F-1 pediu. Os pilotos reclamavam de superaquecimento e bolhas. Se voltarmos ao que era no ano passado, veríamos de novo esses problemas”, disse.

Burti ainda apontou que a Red Bull, outra principal concorrente da Mercedes no momento, também está sofrendo para ser competitiva pelo fato de o projeto do seu carro atual ter proporcionado uma queda de desempenho em um elemento fundamental para utilização eficiente dos novos pneus da Pirelli.

"A Red Bull, por exemplo, sempre foi um carro de muita pressão aerodinâmica, mas a velocidade de reta era péssima, o que gerou críticas na época em que tinha motores fornecidos pela Renault. E justamente pra este ano agora, eles (da Red Bull) tentaram trilhar um caminho parecido com o da Ferrari e a Red Bull tem agora um carro mais rápido de reta, mas que não tem a pressão aerodinâmica para os pneus funcionarem como deveriam. Com menos pressão aerodinâmica, o pneu não esquenta o suficiente, e isso agora não dá para mudar no meio da temporada. As equipes vacilaram nesta questão dos pneus", apontou.

Para Burti, por sinal, apenas o retorno do uso dos pneus com as características do composto de 2018 na F-1 poderiam fazer com que as concorrentes principais da Mercedes tivessem como ameaçar o domínio da grande favorita ao título. "A única chance que elas teriam seria se ocorresse a volta dos pneus da temporada passada", disse o ex-piloto, explicando também que "a diferença principal entre o pneu do ano passado e o deste ano é espessura da banda de rodagem, que é mais fina pra reduzir a temperatura interna do composto".

Tudo o que sabemos sobre:
Fórmula 1Pirelli

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.