Clive Mason/Getty Images/AFP
Prestes a ganhar seu sexto título na Fórmula 1, Lewis Hamilton usa sua fama para abraçar causas ambientais Clive Mason/Getty Images/AFP

Lewis Hamilton, pentacampeão da Fórmula 1 e agora, ativista ambiental

Perto de assegurar o hexa, neste domingo, no GP dos EUA, piloto inglês adota dieta vegana e se preocupa com uso de plástico

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 04h30

Perto de assegurar o hexacampeonato da Fórmula 1, Lewis Hamilton está preocupado com asfalto, pneus e, principalmente, combustível. Mas não porque precisa de quatro pontos no GP dos Estados Unidos, a partir das 16h10 (horário de Brasília) deste domingo, para confirmar o título. E, sim, porque vem dedicando boa parte do seu tempo às causas ambientais.

O piloto de 34 anos já admitiu publicamente que tornou-se adepto de um estilo de vida vegano, evita materiais de plástico em casa e em seu escritório e tem um carro elétrico, um Smart, produzido pela Daimler AG, que controla a Mercedes, sua equipe na F-1. Neste ano, porém, seu engajamento aumentou, principalmente nas redes sociais. São mais frequentes fotos e vídeos denunciando maus tratos de bois, rinocerontes e focas, caça às baleias e golfinhos e poluição dos oceanos. Ele se manifestou até sobre as queimadas recentes na Amazônia, diante de seus 13,3 milhões de seguidores no Instagram.

Foi justamente nas redes sociais que o piloto chamou a atenção há duas semanas em um desabafo. “Sinceramente, tenho vontade de desistir de tudo, desligar completamente. Por que se preocupar quando o mundo está tão bagunçado e as pessoas parecem não se importar?”, disse Hamilton, que assustou os fãs. “Agradeço pelas vibrações positivas que vocês enviaram. Eu não desisti, ainda estou aqui lutando”, afirmou o piloto dias depois, para amenizar a forte repercussão da mensagem anterior.

A postura sustentável de Hamilton se tornou assunto nos paddocks também por conta da forte defesa que fez de suas ideias no GP do Japão, no dia 13 de outubro. “Estou agindo para neutralizar todas as minhas emissões de carbono. Não permito que ninguém no escritório e nem na minha casa compre qualquer coisa de plástico. Quero que tudo seja reciclável, do desodorante à escova de dente.”

Além de comprar um carro elétrico, ele vendeu seu avião no ano passado. “Eu faço menos voos agora, estou tentando diminuir mais”, comenta. As investidas sustentáveis, no entanto, contrastam com a profissão de piloto de carros à combustão, na principal e provavelmente mais poluente categoria do automobilismo mundial. Se não bastasse isso, Hamilton e todos os seus colegas pilotos da F-1 precisam fazer centenas de voos ao longo da temporada.

Hamilton se tornou, naturalmente, alvo de críticas. Até mesmo de companheiros de paddock. “Nós provavelmente não estamos no melhor lugar para começar a fazer isso por que, no final das contas, estamos queimando combustível por qual motivo? Ser primeiro? Segundo?”, questionou o finlandês Kimi Raikkonen, da equipe Alfa Romeo. “Sabemos o estilo de vida que ele ou eu podemos levar. Sabemos que pilotos de F-1 pegam 200 voos por ano”, criticou Fernando Alonso, aposentado da categoria no fim de 2018.

O piloto garante sinceridade em suas causas. Tanto que está colocando dinheiro nelas. Neste ano, ele se tornou investidor de uma nova franquia de lanchonetes, a Neat Burger, que têm como carro-chefe um hambúrguer de vegetais. A rede já está em Londres e tem planos para se expandir pela Europa e pelos Estados Unidos.

A meta de Hamilton é divulgar a ideia que ajudou a apresentar no documentário The Game Changers (“Aqueles que mudam o jogo”, em tradução livre), de 2018. A obra tem produção e participação de James Cameron e do ator e político Arnold Schwarzenegger e conta com o reforço de atletas como o piloto inglês e o tenista sérvio Novak Djokovic para defender os benefícios da dieta vegetariana para os esportistas.

O próximo passo de Hamilton é tentar mudar a Fórmula 1 do lado de fora das pistas, após bater recordes e colecionar feitos dentro dos circuitos. 

Tudo o que sabemos sobre:
automobilismoLewis Hamiltonveganismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Um piloto com todas as qualidades dos grandes campeões

Há grandes campeões que têm uma, duas ou três dessas qualidades como marca de suas carreiras. Hamilton tem todas elas, absolutamente todas essas qualidades

Reginaldo Leme*, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 04h30

Comecei a conhecer Hamilton quando ele disputava a GP2 em 2006, com Nelsinho Piquet, e nós, brasileiros, o chamávamos de Robinho. Era o auge da carreira do atacante da seleção brasileira, e o inglês parecia até gostar daquilo. Ele ganhou o campeonato com cinco vitórias contra quatro de Nelsinho, e à noite fomos a um bar-restaurante em Milão, onde os pilotos de F-1 se reuniam para comemorar o fim da temporada europeia após a corrida de Monza. E ele, com contrato assinado para estrear na F-1 no ano seguinte, cabelinho bem curto, cabeça quase raspada mesmo, nenhuma tatuagem visível e uma indisfarçável timidez, já se mostrava bem à vontade no meio dos futuros rivais.

 

No ano seguinte, eu entendi toda aquela autoconfiança. Ao dividir os cockpits da McLaren com um bicampeão como Fernando Alonso, já então tido como um dos melhores do mundo e dono do segundo maior salário (só perdia para Schumacher), Hamilton não teve o comportamento de estreante que todos esperavam. Alonso havia escolhido a McLaren por acreditar que seria o lugar certo para coroar a sua carreira com um tricampeonato. O companheiro de equipe era um inglês de 22 anos, muito talentoso, mas um estreante que, se fosse um ser normal, entenderia aquela temporada como a de aprendizado ao lado de um supercampeão.

Mas ali não estava uma pessoa comum. E, muito menos, um piloto comum. A sequência da história todos conhecem. Ele bateu de frente com Alonso e, antes da metade do campeonato, já não havia clima para eles continuarem convivendo. Como resultado dessa briga interna, o melhor carro do ano não ganhou o campeonato, que acabou caindo no colo de Kimi Raikkonen (Ferrari). Os dois nunca foram amigos. Mas o respeito profissional superava qualquer desavença. Alguns anos depois, quando Hamilton disputava o título com Sebastian Vettel, da Red  Bull, eu entrevistei Alonso e ele disse claramente que o único adversário que merecia o seu respeito era justamente Hamilton.  

A vida seguiu. E a sorte deu um sinal de que também estava do lado de Hamilton. Ele surpreendeu o mundo ao trocar a McLaren por uma Mercedes, que estava na F-1 havia três anos e somava apenas uma vitória isolada de Nico Rosberg em 2012, e o resultado é aquele que se vê hoje: 83 vitórias, 87 poles, 3.381 pontos e um tempo enorme ainda pela frente para alcançar, sem dificuldade, as 91 vitórias de Schumacher e, quem sabe, igualar também os sete títulos. 

Mas já nem precisa disso para confirmar a posição de melhor da história. Vamos imaginar as melhores qualidades que um piloto pode ter. Estamos falando de habilidade, coragem, concentração, destreza, bravura, superação, saber negociar uma ultrapassagem, etc... 

Há grandes campeões que têm uma, duas ou três dessas qualidades como marca de suas carreiras. Hamilton tem todas elas, absolutamente todas essas qualidades, no mínimo no mesmo nível dos outros. Em algumas, está acima. Por isso eu venho dizendo, e não é de hoje, que ele será o melhor da história. Hamilton tem a inteligência de Piquet, é veloz e impetuoso como Senna, calculista como Schumacher e aprendeu a minimizar riscos, como Prost. O resultado disso nas pistas é que ele vence uma corrida em cada três. Pode existir um piloto mais completo?

*Comentarista da TV Globo há 42 anos. Foi colunista do Estadão durante 20 anos

Tudo o que sabemos sobre:
automobilismoFórmula 1Lewis Hamilton

Encontrou algum erro? Entre em contato

Hamilton é o maior embaixador que a F-1 poderia sonhar, mas não é o maior de todos

Quase a mesma história de Michael Schumacher, que conquistou seus cinco títulos pela Ferrari praticamente sem contar com rivais

Jean-Michel Desnoues*, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 04h30

Lewis Hamilton é um dos maiores do automobilismo, mas não o maior. Com certeza ele pertence ao Top 10, assim como Fangio, Senna, Prost, Lauda, Stewart, Clark, Schumacher, Fittipaldi e Alonso. Lewis está perto de alcançar o seu sexto título, o que é impressionante, mas é justo dizer que com frequência ele teve o melhor carro e menos rivais que Senna, Prost, Lauda e outros. Nico Rosberg conseguiu superá-lo.

É quase a mesma história de Michael Schumacher, que conquistou seus cinco títulos pela Ferrari praticamente sem contar com rivais. Senna teve apenas três troféus, mas eles foram conquistados contra pilotos de alto nível, como Prost, Mansell ou Piquet, que pilotavam carros também de alto nível. Este é o tipo de comparação que está faltando um pouco na Fórmula 1 atualmente.  

Mas isso não o torna menos relevante para a categoria. Hamilton é muito importante para a Fórmula 1 porque é a única estrela do momento. Ele conversa com os fãs de todo o mundo, mas não apenas isso. Ele também é famoso fora do círculo deste esporte. É o melhor embaixador que a F-1 poderia sonhar. Além disso, ele se envolve em várias atividades.

Nós conhecemos o lado músico do Lewis, amigo do Drake e do Kanye West, amigo do Tommy Hilfiger e do velho Karl Lagerfeld, sempre pronto para embarcar em seu avião para uma fashion week em Paris, Londres ou Milão. Conhecemos o Lewis que se preocupa com o meio ambiente, envolvido na rede de restaurantes veganos Neat Burger, a primeira deste tipo. Hoje, descobrimos o Lewis ecologista e o seu ativismo, que não parece ser de fachada.

Apesar destas iniciativas, é difícil dizer que ele está mudando a Fórmula 1. Jackie Stewart lutou pela segurança, brigou para tornar a F-1 mais segura e mudou a face do esporte. Ayrton Senna mergulhou de cabeça em seu trabalho e estava ao lado dos seus engenheiros o tempo todo enquanto outros pilotos iam jogar golfe. Era uma postura nova para a época e isso acabou fazendo com que os outros pilotos também mudassem sua abordagem. Michael Schumacher trouxe a preparação física para outro nível. Hamilton não fez algo parecido.

*Jornalista francês da revista AUTOhebdo que cobre Fórmula 1 há 30 anos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.