Marko, um só olho para caçar talentos

Para ser um bom piloto de Fórmula 1, é preciso enxergar bem. E com os dois olhos. Um só não dá. Foi por isso que um jovem austríaco que tinha tudo para dar seqüência à série de conquistas do seu país na competição viu-se obrigado a abandonar seu planos de ser piloto. Helmuth Marko, da geração do campeão do mundo de 1970, Jochen Rindt, também da Áustria, perdeu uma vista ao ser atingida por uma pedra no GP da França de 1972. No GP da Grã-Bretanha, neste domingo em Silverstone, a partir das 9 horas com transmissão ao vivo pela TV Globo, os 20 pilotos têm visão apurada. Aos 62 anos, Marko caminhava tranqüilamente pelo paddock de Silverstone, depois da sessão que definiu o grid da 11.ª etapa da temporada. Um olho só é suficiente para uma das suas funções principais na empresa Red Bull: descobrir talentos para a equipe de Fórmula 1. O mais impressionante é que Enzo Ferrari lhe telefonara na semana anterior à corrida no circuito de estrada, em Clermont Ferrand, realizada no dia 2 de julho de 1972. "Queria conversar comigo, eu estava todo animado, poderia ir para a Ferrari", disse Marko, portador de uma prótese na vista esquerda. Disponível e desinibido para lembrar a fatalidade que lhe custou uma carreira possivelmente pródiga, Marko gosta de dizer que seu acidente acabou por salvar muitos pilotos do mesmo destino: ficar cego de uma vista. "Duas etapas depois do que aconteceu comigo, todos os fabricantes de capacetes para a Fórmula 1 passaram a construir as viseiras com material à prova de bala." Durante muito tempo pensou-se que foi a Lotus de Emerson Fittipaldi que, na segunda volta ainda do GP da França, lançou a pedra que o atingiu. "Na realidade foi a March de Ronnie Peterson." O ex-piloto, agora doutorado em direito em Graz, além de caçador de jovens de potencial, lembra com detalhes seus momentos de horror: "A dor foi insuportável, mas tinha, primeiro, de pensar em me salvar, estava a 280 km/h, havia uns 20 carros com tanques cheios atrás de mim, larguei em sexto. E naquela época se você batia o carro pegava fogo." Como todo piloto que compara as duas eras da Fórmula 1, início dos anos 70 e hoje, o que mais chama a atenção é o significativo aumento da segurança. "Atualmente o piloto sabe que pode abusar que dificilmente irá se ferir numa batida. O chassi em fibra de carbono revolucionou tudo." Na corrida de Clermont Ferrand, conta Marko, sua equipe, a BRM, estava estreando um novo carro. "Eu sou alto e não estava 100% bem acomodado. As imagens da época mostram que meu capacete estava bem acima da altura ideal." Em reunião com os engenheiros já ficara claro que para a etapa seguinte do Mundial, dia 15 de julho na Inglaterra, sua posição no cockpit seria revista. "Eu ficaria bem mais baixo. Com toda certeza a minha posição exposta demais naquele dia contribuiu decisivamente para ser atingido pela pedra. Marko recorda-se do atendimento prestado: "Até que me levassem para um centro oftalmológico passaram-se três horas, sendo que a apenas 15 minutos da pista havia um hospital capaz de me dar assistência inicial correta para aquela situação." Perdeu horas preciosas no ambulatório do improvisado autódromo, criado em meio a estradas sobre montanhas. A segurança evoluiu muito não só quanto aos equipamentos e circuitos, mas também quanto a eficiência dos serviços de resgate e atendimento médico especializado já na pista, comenta. "O meu acidente, hoje, não teria conseqüência alguma para o piloto." Mais detalhes vêm a sua mente sobre o ocorrido em 1972: "Assim que consegui parar o carro sem envolver outros concorrentes, perdi a consciência." Todas as forças que possuía, explica, foram gastas para manter-se lúcido e evitar uma desgraça maior. "Fiz da Fórmula 1 o meu projeto de vida. Canalizei todos os meus esforços com esse objetivo e, de repente, não enxergava mais de um olho. Tive de refazer meus planos a partir do zero. Agora, com algumas limitações." Marko permaneceu várias semanas no hospital, na França. "Foram muitas cirurgias, a última dois anos depois do acidente." A cor azul da íris da prótese segue fielmente as da vista verdadeira. "Não mexi mais, faz 30 anos." Ao contrário do que se pode pensar, o caçador de talentos da Red Bull não se considera um azarado. "Penso que sou um homem de sorte.Veja o caso de Ayrton Senna. Foi a barra da suspensão que perfurou seu capacete e o matou", diz. "No meu caso foi uma pedra. Apesar de haver bem menos segurança na minha época, hoje eu estou aqui, dando essa entrevista. Poderia, da mesma forma, facilmente ter morrido também." A Red Bull tem apenas meio ano de vida. E parte do projeto do seu proprietário, Dieter Mateschitz, está nas mãos de Marko. "Aposto que nosso time vai crescer muito e rápido." Pela boa temporada de estréia, parece ser verdade. Mesmo que ele tenha uma vista só.

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