Mergulhadores fazem plantão em Mônaco

Tudo é proibido na Fórmula 1. Bem, nem tudo. Surpreendentemente foi autorizado ao repórter do Estado acompanhar a segunda sessão de treinos livres do GP de Mônaco, neste sábado de manhã, de um barco. Não dos muitos e impressionantes iates ancorados no porto de Mônaco, mas de uma pequena embarcação estrategicamente estacionada no Mediterrâneo, próximo à saída do túnel do circuito. Nela, dois mergulhadores profissionais acompanham atentamente se nenhum piloto iniciará um vôo que possa levá-los ao mar."Do outro lado do túnel, na Portier, na entrada do túnel, temos mais um barco com dois mergulhadores, assim como na curva da Tabacaria", explica Luc Nitenberg, líder do grupo dos cinco profissionais contratados pelo Automóvel Clube de Mônaco (ACM) para oferecer maior segurança à programação do fim de semana, onde também foram disputadas provas da GP2, Fórmula 3, Fórmula Renault V-6 e Porsche Super Cup.Preço cobrado: 16.900 euros. "Em primeiro lugar temos de ficar atentos para se alguém sair voando não caia sobre nós", diz o francês, de 45 anos, há 27 mergulhador profissional.Curiosamente são profissionais bem pagos cujos "patrões" vão torcer sempre para que eles não tenham de trabalhar. Desde que a corrida passou a ser realizada, em duas ocasiões os pilotos se viram cercados de água por todo lado e seu carro afundando. Um deles foi Alberto Ascari, na edição de 1955, com uma Lancia, na saída do túnel, onde na época não havia proteção alguma. Outro foi o australiano Paul Hawkins, com Lotus, em 1965. Os dois sobreviveram, mas morreriam pouco tempo depois. Ascari, apenas quatro dias mais tarde, em Monza, num teste.Hawkins faleceu num acidente em Oulton Park, na Inglaterra, em 1969."Tudo ok?", pergunta Nitenberg aos outros mergulhadores, através do rádio. Richard Antara, Yves Lamblard, Gwen Burduche e Thierry Donat respondem que sim. Estão em vigília máxima. Uma faca bem afiada faz parte da indumentária de todos. "Para nós é melhor que o piloto esteja inconsciente, caso contrário o pânico toma conta e tudo se torna mais difícil." Se o carro cair na água a orientação é esperar que estacione no fundo para então agir. "No ponto de maior profundidade são 10 metros. Em poucos segundos está no fundo. As coisas se tornam mais difíceis se parar de ponta cabeça", explica o mergulhador-chefe.Enquanto o repórter acompanha a sessão livre da Fórmula 1 do barco vai ouvindo como Nitenberg treinou seus grupo. "Esqueça a possibilidade de darmos oxigênio para o piloto. O capacete impede de acessarmos a sua boca com o equipamento", diz, surpreendentemente. "Girar a fivela para soltar os cintos, sob a água, nem sempre é fácil. Por isso dispomos da boa faca para cortá-los." Os mergulhadores prevêem situações críticas, como o piloto ficar preso dentro do cockpit. "Nessa hipótese enquanto um mergulhador retira seu capacete e lhe alimenta com oxigênio, o outro engata um guincho no carro." No barco ancorado na saída do túnel há um guincho movido a motor capaz de erguer cinco toneladas, enquanto o carro de Fórmula 1 pesa pouco mais de 600 quilos. "O procedimento é puxar o carro com o piloto dentro se ele estiver preso. A essa altura o outro mergulhador já o terá assistido com oxigênio", diz Nitenberg que destaca a importância de as águas do porto de Mônaco terem grande transparência. "Ajuda muito." Nitenberg permaneceu ainda mais atento neste sábado à tarde, durante a corrida da GP2: "Clivo Piccione, da equipe Durango, aqui mesmo de Mônaco, é namorado da minha filha." Um barco se aproxima para transportar o repórter de volta ao deque próximo da sala de imprensa. Bela experiência.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.