Na Fórmula 1, apreensão e dúvidas

É grande a apreensão na Fórmula 1 com relação ao que irá ocorrer nos três dias de competição do GP da Austrália, de sexta-feira a domingo, diante das profundas modificações introduzidas no regulamento. Hoje, no belo circuito Albert Park, enquanto as equipes descarregavam nos seus boxes as últimas caixas de equipamentos, alguns de seus integrantes não escondiam seus pontos de vista. Há quem acredite que não irá mudar nada, como Gary Anderson, chefe dos técnicos da Jordan, como existem os que pensam que não será mais tão fácil para a Ferrari, a exemplo de Steve Nielsen, chefe de equipe Renault. A dois dias do primeiro treino da etapa de abertura do Mundial, as opiniões de profissionais experientes da Fórmula 1 se dividem quanto ao que as novas regras poderão introduzir na disputa. "Podemos ter grids surpreendentes mesmo, como deseja Max Mosley (presidente da Federação Internacional de Automobilismo), mas o que isso significa se na corrida, depois de 20 voltas, tudo voltará a permanecer como no ano passado", diz Anderson. Para ele, a proibição de reabastecer entre a classificação para o grid, sábado, e a corrida, domingo, pode até tornar a Fórmula 1 menos atraente. "Pelo menos podíamos ousar da estratégia, dependendo da posição de nossos pilotos no grid. Agora não temos mais essa oportunidade, já que devemos estabelecer a estratégia antes da classificação." Amanhã os pilotos poderão manifestar-se a respeito do que esperam da prova de Melbourne, estréia do pacotão promovido por Mosley para tentar fazer do Mundial um espetáculo mais emocionante e menos previsível, ou seja, evitar outro passeio de Michael Schumacher e da Ferrari. Hoje nenhum piloto esteve na pista. Mas em oposição ao que defende Anderson, Nielsen diz que os times terão de ver a sessão de classificação e a corrida como um todo. "Na realidade, a largada foi antecipada para sábado. A Ferrari terá bem mais obstáculos para se impor como em 2002, penso que serão campeões, mas vai demorar bem mais." Ainda há dúvidas quanto aos procedimentos legais e os não autorizados aos mecânicos. A informação é de David Stubbs, chefe da equipe Jaguar, que dirigia a Williams na época de Nelson Piquet e Nigel Mansell, em 1986 e 1987. "Talvez demore duas ou três etapas ainda até que todos entendam o que podemos fazer nos carros, as regras do parque fechado não estão totalmente claras." Pelo novo regulamento, os carros participam da classificação, sábado, das 14 às 15 horas, a seguir são encaminhados para vistoria no parque fechado. Por volta das 16 horas são liberados para as equipes que os manterão nos boxes até as 18 horas, quando retornam para o parque fechado. No dia seguinte, domingo, os times os retiram do parque fechado às 8 horas. A largada da corrida é às 14 horas. Stubbs explicou como funcionará: "Não podemos mexer no acerto do carro, a não ser na angulação do aerofólio dianteiro." Se os técnicos das escuderias entenderem que algo deve ser substituído, como um braço da suspensão, um defletor, o assoalho, o chefe da equipe deve encaminhar o pedido por escrito para o diretor de prova, Charlie Whiting, e o delegado técnico, Jo Bauer. "Desde que comprovemos que o componente novo não altere em nada o desempenho, apenas substitui um com problemas, as solicitações serão aceitas", disse Stubbs. Nos casos de acidentes na classificação, em que o piloto ficou sem tempo, o carro não irá para parque fechado, já que largará em último. "Nesse caso estamos autorizados a modificar tudo, reparar e substituir o que for necessário." Como Anderson, porém, Stubbs pensa que o novo regulamento apenas adiará uma realidade hoje na Fórmula 1: novas vitórias da Ferrari. "Na máximo na metade da prova eles estarão em primeiro lugar novamente." Herbie Blash trabalha com Bernie Ecclestone, o promotor do Mundial, desde quando o dirigente adquiriu a Brabham, no inícios dos anos 70. Atualmente Blash é o segundo homem na direção de prova, logo abaixo de Whiting. Ele comenta o que pensa: "As medidas adotadas têm a direção correta para fazer da Fórmula 1 uma disputa menos previsível, mas só depois da corrida, domingo, teremos a resposta." Na sua opinião, nem todos se ateram à questão de que a partir do GP da Grã-Bretanha (11.º do campeonato, dia 20 de julho), uma série de recursos eletrônicos estarão proibidos "e uma nova competição deverá iniciar-se." Uma das muitas novidades da prova de Melbourne será o treino livre extra que as equipes Renault, Jaguar, Jordan e Minardi irão realizar sexta-feira, das 8h30 às 10h30, porque concordaram em limitar seus testes particulares a 20 dias, com um carro só, até o fim da temporada. Esse treino dá direito a que elas utilizem até três carros, no caso o reserva, mas na etapa de Melbourne apenas a Renault irá treinar com seus pilotos titulares, Jarno Trulli e Fernando Alonso, e o piloto de testes, o escocês Alan McNish. A Jaguar terá três carros, sendo que Antonio Pizzonia e Mark Webber se revezarão no terceiro carro, ao passo que a Jordan e a Minardi treinarão somente com seus dois pilotos titulares e com dois carros. A temperatura esteve baixa, hoje, a maior parte do tempo, próxima dos 15 graus, e até a hora do almoço caiu uma chuva fina sobre o circuito.

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