NIlton Fukuda/Estadão
Emerson Fittipaldi celebra sucesso dos herdeiros NIlton Fukuda/Estadão

NETOS E FILHO DE EMERSON RENOVAM DNA FITTIPALDI NAS PISTAS

Ex-piloto comemora 40 anos do bicampeonato mundial de Fórmula 1 orgulhoso pelos resultados promissores de herdeiros no automobilismo 

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

06 de outubro de 2014 | 07h00

A decoração da sala principal do escritório de Emerson Fittipaldi é muito atrativa para qualquer visitante. Miniaturas de carros de Fórmula 1, além de troféus históricos e capacetes antigos, deixam claro que ali é o recanto de um bicampeão mundial, que nesta segunda-feira comemora o 40º aniversário do seu segundo título. Em um canto da parede e sobre a mesa, porém, estão itens diferentes dos demais, mais recentes. Eles, no entanto, são capazes de mostrar o quanto o sobrenome ainda produz herdeiros promissores no automobilismo.

É o próprio Emerson quem apresenta ao Estado os feitos do neto Pietro Fittipaldi, de 18 anos. O atual campeão inglês de Fórmula Renault é candidato a entrar na Fórmula 1. O avô fala dele enquanto aponta para a parede, onde estão fotos do garoto no pódio, e para a própria mesa, decorada com um belo troféu conquistado pelo jovem. 

Mesmo no simples gesto de apresentar as conquistas atuais da família, é clara a presença do passado. Na mão direita, Emerson usa com orgulho o chamativo anel dado ao vencedor das famosas 500 Milhas de Indianápolis, prova da qual é bicampeão. A joia leva na parte de cima a tradicional bandeira quadriculada.

Pietro não é o único herdeiro de Emerson a começar a ter destaque nas pistas. O irmão do garoto, Enzo, de 13 anos, é o atual campeão nos Estados Unidos da categoria Minimax, torneio de kart que reúne pilotos de três estados do país. O terceiro “novo” Fittipaldi tem apenas sete anos. Emmo, filho de Emerson, foi batizado com o apelido pelo qual o pai é conhecido fora do Brasil e começou no kart há menos de um mês.

"A cobrança do sobrenome é muito maior do que se não fosse um sobrenome conhecido. Abre portas, mas, ao mesmo tempo, tem cobrança depois", admitiu Emerson. O ex-piloto precisou aguardar algumas décadas até poder ver nas pistas algum descendente direto pegar gosto pelo automobilismo. "Meus dois filhos mais velhos, o Jayson, de 38 anos, e o Luca, que tem 23, um dia andaram de kart, mas não continuaram. Todos eles tiveram a mesma chance. Não adianta o pai induzir, tem de ser algo natural e eu não fiquei insistindo."

A tradição dos Fittipaldi começou com o pai de Emerson, Wilson. Conhecido como Barão, foi um dos fundadores da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) e pioneiro na transmissão de corridas de carro pelo rádio. Coube a ele narrar o primeiro título do filho na Fórmula 1, em 1972. Barão faleceu em 2013, aos 92 anos, e ainda viu outros membros da família seguirem no automobilismo, como o filho Wilson e o neto Christian, ambos com passagens pela F-1.

O próximo da família a chegar à categoria deve ser Pietro. Aos 18 anos, ele mora na Inglaterra, onde ganhou dez das 15 etapas da Fórmula Renault, e já começou até a despertar o interesse de gente com influência na Fórmula 1. O magnata mexicano Carlos Slim o contratou para participar do seu programa de desenvolvimento de pilotos. Pietro é o primeiro estrangeiro no México a integrar o projeto, que já levou para a Fórmula 1 Esteban Gutierrez, atualmente na Sauber, e Sérgio Pérez, na Force India. 


"O Pietro é dedicado ao extremo. Mesmo quando a corrida termina às três horas da tarde, ele fica até umas nove da noite com a equipe para ajudar a limpar e a guardar os carros", comentou o pai do garoto, Gugu da Cruz, genro de Emerson e marido de Juliana Fittipaldi. 

O casal mora nos Estados Unidos, onde seus três filhos nasceram – e o mais novo deles também já segue o traçado habitual de quem tem esse sobrenome. Enzo Fittipaldi, de 13 anos, já ganhou competições americanas de kart e vive rotina de piloto de ponta. Contratou um personal trainer para manter a forma, mudou a alimentação e já se aproxima de projetos ambiciosos.

Nesta semana, o garoto deve viajar à Itália para fazer testes na Academia Ferrari, projeto de desenvolvimento de talentos. Se aprovado, vai dar mais um largo passo rumo à Fórmula 1 e renovar uma trajetória que já começou ligada aos grandes nomes do automobilismo. O primeiro kart de Enzo foi um presente dado pelo pai do piloto colombiano Juan Pablo Montoya.

Mais novo do que os sobrinhos, Emmo começou no último mês a andar de kart em São Paulo – e assim ajuda a renovar a dinastia Fittipaldi. Com apenas sete anos, não sabe da tradição e da expectativa que carrega e ainda troca alguns momentos na pista por brincadeiras no pebolim. "O kart é só entretenimento para ele, e não uma competição. Não se pode tirar da criança a infância, senão ele vira um mini piloto de Fórmula 1", alertou Emerson.

O ex-piloto pode até não pressionar os herdeiros por resultados nos autódromos, mas certamente já sabe como pode reorganizar a decoração da sua sala caso tenha de acomodar novos troféus e fotos no pódio.

 

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Fittipaldi revela medo de morrer e nervosismo na temporada de 1974

Piloto da McLaren conta ter passado a noite em claro antes de decidir o Mundial, que ficou marcado pela morte de dois pilotos

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

06 de outubro de 2014 | 07h00

Há exatos 40 anos, Emerson Fittipaldi viveu um dia de extrema tensão. Era a última corrida do Mundial de Fórmula 1 1974 e, na noite anterior ao GP dos Estados Unidos, o piloto da McLaren experimentou uma sensação intensa de nervosismo que seria rara no restante da carreira. "Foi uma das únicas noites em que não dormi antes de uma competição. Até mesmo em Indianápolis, que é uma pressão muito maior, por ser um grande evento, não tive esse problema", contou o ex-piloto.

O principal culpado por tirar o sono do brasileiro se chamava Clay Regazzoni, piloto suíço da Ferrari. Os dois chegaram empatados em 52 pontos na última etapa daquele Mundial. Portanto, a conta era simples: quem terminasse na frente seria o campeão. Também estava na disputa o sul-africano Jody Scheckter, da Tyrrel, com 45 pontos e chances remotas de título. "Nunca imaginei que na última prova ia estar empatado com a Ferrari, a nossa grande rival. Foi muita tensão e não dormi direito", admitiu Emerson, que havia sido vice-campeão no ano anterior.

Na corrida, realizada em Watkins Glen, Fittipaldi saiu em oitavo lugar, com o rival logo atrás, em nono. O brasileiro perdeu a posição para o suíço na largada, mas recuperou o posto ainda na primeira volta. O título ficou mais perto quando Regazzoni teve problemas mecânicos, parou nos boxes e caiu para a 20ª posição. Emerson fez corrida tranquila, chegou em quarto lugar e marcou três pontos, contra nenhum do suíço, que chegou em 11º. Scheckter abandonou.

A menção ao título conquistado naquele 6 de outubro provoca no ex-piloto lembranças de como era diferente o ambiente da Fórmula 1 há 40 anos. Fotos da época mostram, por exemplo, os pilotos juntos em jantares e até em momentos mais descontraídos, como em um jogo de críquete. "Naquela época, acho que pelo alto risco que a gente tinha, fora do cockpit os pilotos tinham uma ligação muito grande. A gente nunca sabia quem estaria lá na próxima corrida", explicou. A década de 1970 foi marcada pelos vários acidentes graves. Entre 1973 e 1975, por exemplo, cinco pilotos morreram na categoria.

A corrida do título de Emerson teve o acidente fatal do austríaco Helmuth Koinigg. No mesmo ano, o americano Peter Revson morreu durante os treinos para o GP da África do Sul.

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