Tatuus Racing
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Nova F-4 quer desenvolver pilotos e solucionar falhas na base do automobilismo nacional

Os pilotos já foram selecionados, mas o nome dos 16 escolhidos ainda é segredo. O grid também terá mulheres

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2022 | 10h00

Após 10 anos de vazio e iniciativas frustradas na base do automobilismo brasileiro, o País voltará a contar com uma competição de peso para os pilotos mais jovens. A nova Fórmula 4, cuja primeira temporada está confirmada para 2022, pretende desenvolver talentos nacionais, solucionar falhas na formação dos atletas e preencher a grande lacuna entre o kart e as competições de Fórmula na Europa.

A nova empreitada é encabeçada pela Vicar, promotora da Stock Car, com supervisão da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) e o selo de aprovação da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). O projeto é permanente, de acordo com Fernando Julianelli, CEO da Vicar. “Queremos fazer a competição a longo prazo, de forma perene. É para ser constante. Uma escola precisa existir para sempre”, afirma, em entrevista ao Estadão.

A Fórmula 4 é considerada a transição entre o kart e as competições de fórmula. Os carros são menores e menos potentes, com possibilidade máxima de 250 km/h. E preparam o piloto para disputar campeonatos de F-3 e F-2, o caminho natural até a Fórmula 1, maior sonho dos jovens atletas.

O Brasil, porém, não contava com uma competição deste nível desde 2011, quando Felipe Massa criou a Fórmula Futuro. Foram apenas duas temporadas. O projeto não foi além por causa do formato da competição, que não contava com divisão de times. “Infelizmente não funcionou porque as equipes queriam tomar conta e ter cada uma a sua própria equipe. Elas ficaram contra e o kart criticava a categoria porque não queria perder seus pilotos”, explica Massa à reportagem.


Antes desta iniciativa, a última categoria do tipo no Brasil foi a Fórmula Renault, finalizada em 2006. Assim, o País ficou 15 anos sem uma competição de base mais sólida, com duração de ao menos três temporadas. Nos últimos anos, foram constantes as tentativas de criar uma F-4, até mesmo com o apoio da CBA, todas sem sucesso.

Como consequência, se tornou mais difícil para os pilotos brasileiros alcançarem um lugar nas maiores competições de automobilismo no mundo. “Para um brasileiro voltar a ter chance de sentar num carro de F-1, não basta simplesmente levar patrocínio. Ele precisa chegar muito bem preparado na Europa”, diz Julianelli. “Para um menino que sai do kart e precisa ir para a Europa com 15 ou 16 anos, 90% dos seus desafios estão fora do carro, como falar a língua, ficar longe dos pais e de namorado ou namorada, sair da escola, buscar patrocínio em euro”, enumera o CEO da Vicar.

Com a nova F-4, ele espera fixar o jovem piloto em solo nacional por mais tempo para chegar ao continente europeu com mais bagagem, aumentando suas chances de sucesso. Nos últimos anos, adolescentes brasileiros passaram a migrar para a Argentina e até para os Estados Unidos em busca de campeonatos deste nível. “Vamos anular todos esses problemas iniciais e ficar próximo da garotada para capacitá-los para coisas fora do carro”, projeta Julianelli. A iniciativa também prevê a criação de uma “academia” para os jovens atletas, com aulas sobre mecânica do carro, media training, marketing e treinos psicofísicos.

Para o projeto ser bem-sucedido, a Vicar aposta na estrutura da Stock Car e no conhecimento de quem já tentou emplacar a ideia, como o próprio Massa. O vice-campeão mundial de F-1 em 2008 contribui com ideias e know-how. “Na Fórmula Futuro, gastei quase 1 milhão de euros (cerca de R$ 6,3 milhão no câmbio atual) do meu bolso. Metade deste valor chegou a voltar, mas a outra eu acabei perdendo mesmo”, revela o piloto.

Ciente dos desafios, Julianelli quer fazer a F-4 mais barata do mundo. “Fizemos um valor subsidiado para os pilotos.” Para participar, cada um vai precisar desembolsar 100 mil euros (R$ 360 mil) – uma competição de F-4 na Europa exige ao menos 250 mil euros, em média. “Não é que somos mágicos. É barata por três razões: nossa moeda favorece a mão de obra por ser em real, e não em euro ou dólar; por ser uma categoria da Vicar, todos os custos de produção de evento já estão absorvidos pela Stock Car; e parte dos custos será financiada por um patrocinador do campeonato.”

Os pilotos já foram selecionados, mas o nome dos 16 escolhidos ainda é segredo. O grid também terá meninas. A idade mínima é de 15 anos para todos. Eles vão disputar 18 corridas, divididas em seis finais de semana, sempre junto com as etapas da Stock Car. Ao todo, quatro autódromos vão receber as provas: Interlagos, Goiânia, Velo Città e Brasília.

Cada piloto poderá disputar apenas duas temporadas da nova F-4. “Do ponto de vista do piloto, é um projeto de dois anos. Não terá terceira temporada porque precisamos fazer a fila andar e o funil, funcionar”, explica o CEO da Vicar.

Para Massa, a nova categoria reúne as condições para preencher o vácuo do automobilismo brasileiro. “A ideia é excepcional, principalmente como escola, e os carros são modernos. Tenho certeza que vai dar muito certo”, aposta o piloto. “A F-4 é o caminho natural para quem sai do kart. Há outros caminhos, claro, mas não valem a pena. Não adianta querer dar o passo maior que a perna. Não é muito importante chegar na Europa novo. O importante é chegar preparado para vencer.”

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