O dia em que Emerson foi salvo por frentista

A Fórmula 1 já foi tão diferente, e nem faz tanto tempo assim, 31 anos, que um frentista entrou na pista com um galão de gasolina, abasteceu o carro do campeão do mundo e ele voltou ao treino.Incrível: sem que quase ninguém ficasse sabendo. A história é verdadeira. Aconteceu com Emerson Fittipaldi, da Lotus, em 1973, no velho circuito de Nurburgring, com 22 quilômetros de extensão, inaugurado em 1927 e onde está sendo disputado agora o GP da Europa, embora numa versão bem distinta do traçado. "O cara apareceu do meio do mato, eu estava lá parado, lembro sim", disse nesta quinta-feira, Emerson, por telefone, de São Paulo.A entrada principal do autódromo alemão encontra-se numa estrada que corre pararela à reta do circuito original, separadas por poucos metros e uma cerca. A dois quilômetros dessa entrada há um posto de gasolina, onde também funciona um restaurante e uma bem equipada loja de miniaturas de carros de competição, com algumas raridades até. Hans Joachim Retterath é o seu proprietário.É a segunda geração da família que administra o negócio na pequena vila de Meuspath. "Meu pai já tinha o posto na época da construção do autódromo", diz ele. Dentre as prateleiras de miniaturas, uma pequena foto de Emerson, de pé ao lado da Lotus negra, é a pista para a descoberta da história."Eu estava reabastecendo um carro aqui no posto quando ouvi do outro lado da cerca barulho de um motor de Fórmula 1 pipocando e disse a mim mesmo que deveria ser falta de gasolina." Tudo o que Hans Joachim precisou fazer foi atravessar a estrada onde se acha o posto. "A cada 200 metros, em média, há um recorte na cerca, para a entrada do pessoal de resgate e atendimento médico. Bem em frente ao nosso posto há um, até hoje. Entrei e vi o Emerson saindo do cockpit." A comunicação entre os postos de fiscalização do circuito era precária."Se nem durante as corridas existia, imagine num treino", explica o alemão.Emerson comprova tudo: "Não havia rádio. Se você batia ou tinha um problema no carro, ficava parado lá mesmo. Até descobrirem que você está em dificuldades passava-se muito tempo." O treino prossegue e Emerson diz a Hans Joachim que está sem combustível. "Fique tranquilo que volto já", respondeu Hans Joachin. Tudo o que o frentista precisou fazer foi retornar ao seu posto e encher um galão de cinco litros com gasolina. "A octanagem que usávamos era um pouco mais alta na comercializada na bomba, mas o motor Ford V-8 funcionava bem com ela também", conta Emerson.Ao passar pelo local e ver a Lotus, Emerson e o frentista trabalhando no carro, o piloto neozelandês Chris Amon parou para ver se necessitavam de ajuda. "Nessa época era assim, principalmente em Nurburgring. Todos sabiam das dificultades logísticas e por isso a solidariedade era grande, em especial nos casos de acidentes", recorda Emerson. "Eu parei para ajudar o Niki Lauda, em 1976, cheguei a retirar suas sapatilhas", diz. Lauda sofreu grave acidente no circuito, no quilômetro 11, e sua Ferrari pegou fogo.Depois da Lotus reabastecida, Emerson acionou o motor de arranque, nesse período existia na Fórmula 1, bem como a bateria era bem maior que hoje, o motor pegou e, sem problemas, retornou aos boxes, distante apenas dois quilômetros. Só que nesse espaço de tempo interromperam o treino e os mecânicos da Lotus saíram num furgão atrás do seu piloto, que não aparecia. Percorreram os 22 quilômetros, cheios de curvas, subidas e descidas, o que levou cerca de 20 minutos e, pior, não acharam nada. Ao se aproximarem da área de garagem, não sabiam o que pensar. "Eu já estava de volta nos boxes", falou Emerson, nesta quinta-feira, rindo."Foi assim mesmo." Coisas de uma Fórmula 1 que não existe mais. Quem poderia imaginar, atualmente, um frentista entrar por um buraco na cerca no circuito de Mugello, por exemplo, reabastecer a Ferrari de Michael Schumacher e ele continuar seu trabalho na pista como se nada fosse? O momento raro em Nurburgring, em 1973, foi registrado por Hans Joachim por sua máquina fotográfica, que lhe deu o direito de posar também ao lado da lendária Lotus 72D de Emerson, o campeão na temporada anterior.

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