Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'O martelo está batido sobre o GP do Brasil', diz diretor do projeto da F-1 no Rio

Idealizadores da proposta carioca confiam que autódromo em Deodoro deve ser anunciado ainda em 2019 como sede da corrida a partir de 2021

Entrevista com

JR Pereira

Ciro Campos, Felipe Rosa Mendes, Robson Morelli, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2019 | 04h30

JR Pereira, diretor executivo da holding Rio Motorsports, disse em entrevista exclusiva ao Estado que o Rio de Janeiro está perto de ser confirmado ainda neste ano como sede do GP do Brasil de Fórmula 1 a partir de 2021. O responsável pela empresa que elaborou o projeto de construção do novo autódromo carioca, em Deodoro, zona oeste da capital fluminense, afirmou que a cidade vai vencer a concorrência com São Paulo por oferecer condições mais lucrativas aos donos da principal categoria do automobilismo mundial.

Segundo JR Pereira, o maior trunfo do Rio é a confiança em conseguir pagar para a F-1 a taxa anual de promoção, de R$ 130 milhões. A candidatura se respalda no apoio público do presidente Jair Bolsonaro e em um contrato assinado com a categoria com a promessa de que até novembro a exclusividade nas negociações sobre o GP do Brasil é com a proposta carioca. São Paulo também se considera em fase avançada de conversa com a categoria.

Como estão as negociações?

A negociação começou dois anos atrás, quando a F-1 nos procurou. Criamos o circuito com ideia para a MotoGP. As negociações estão indo bem. A gente está muito satisfeito.

Até quando é possível ter uma definição sobre qual será o palco do GP do Brasil a partir de 2021?

A decisão está feita. Será no Rio de Janeiro, a cidade da esperança (risos). Mas tirando a brincadeira, o Rio tem todas as características de poder sediar a prova. Existem vários fatores que têm de ser analisados. Econômicos, logísticos, segurança, qualidade do autódromo, a parte técnica. Eu acredito que fazendo um bom trabalho, desenvolvendo um bom circuito, com características para o público, levando o show business para dentro do evento, a gente tem uma chance muito boa de sediar a Fórmula 1 a partir de 2021.

Desde quando o presidente Jair Bolsonaro, Witzel e Crivella passaram a apoiar o projeto?

O prefeito apoiou já nos primeiros 20 dias de mandato. Em 2017, assim que ele venceu as eleições, nós o procuramos. Depois disso houve a eleição em outubro do ano passado, o Chase Carey (chefe da F-1) veio ao Brasil e fez questão de se encontrar com o governador eleito (Wilson Witzel), que prontamente deu seu apoio. Neste ano fizemos a apresentação do projeto ao presidente (Jair Bolsonaro), que se entusiasmou muito, como todo mundo sabe. Espero aproveitar esse apoio e levar para o Rio de Janeiro uma grande corrida.

São Paulo diz que vai manter o GP. Como vê a concorrência?

A corrida aqui em São Paulo, se não me engano, até 2017 fazia os pagamentos da taxa para trazer a prova, mas depois disso, pelo que nos consta, houve problemas financeiros na disputa e a F-1 precisa de uma solução. Isso que a levou, eu imagino, a nos procurar. Ela tem feito isso no mundo inteiro, não é só no Brasil.

Pela presença de governadores e presidente na disputa pelo GP, existe a possibilidade de que a decisão seja política?

Zero. A questão da definição da Fórmula 1 vai acontecer 100% na questão técnica, show business e financeiro. É isso o que tenho visto, é essa a mensagem que a F-1 tem me passado (em recentes encontros). A prova em São Paulo contempla 67 mil espectadores. No Rio, é para o dobro disso. Isso cria um fator econômico mais propício à F-1.   

Como seria bancado o valor de quase R$ 700 milhões para construir o autódromo no Rio?

Essa engenharia financeira eu guardo como um segredo. Vou declinar de te responder no detalhe. Mas posso te dizer que existe uma parte de investimento de atores internacionais que já estão acostumados a investir na parte do automobilismo. Você tem a parte de patrocínios, que é muito importante. Lembre-se que o autódromo do Rio de Janeiro não é só para a Fórmula 1.

Houve recentemente decisões desfavoráveis ao andamento da licitação. Isso não atrapalha?

A decisão que houve (suspender a contratação da licitação) não afeta em nada. A decisão deixa claro que é necessário o estudo de impacto ambiental. Isso é lei. A gente continua trabalhando da mesma forma.

De onde viria a expertise para a organização da corrida?

Toda a expertise para realizar os grandes eventos nós vamos trazer de fora. São empresas internacionais que estão acostumadas a fazer esses eventos lá fora. Algumas dessas empresas são partes do consórcio. Esse know-how para um evento de 130 mil pessoas não existe na América do Sul.

Existe a possibilidade do GP do Brasil ter uma alternância de sedes?

Oportunidades como essa sempre existem, mas eu digo que isso está a cargo da Fórmula 1. Eles que tomam essa decisão.

A presença de investidores garante que o Rio conseguirá pagar a taxa de promoção?

Com certeza. Esse ponto já foi estruturado não só para a Fórmula 1, como também para todos os eventos que nós estamos trazendo para o Brasil.

É viável ter um autódromo no Rio de Janeiro sem o GP de F-1?

É viável. Hoje nos eventos de Fórmula 1 você precisa ter mais de 100 mil pessoas. O problema de São Paulo, eu imagino, é que com 65 mil pessoas (público de cada dia) você não consegue gerar massa crítica suficiente para pagar a taxa. A Fórmula 1 não faz dinheiro nenhum no Brasil hoje. Até a edição de 2017, ela fazia, porque a taxa estava sendo paga. 

A Fórmula 1 fez um leilão entre as cidades do Rio e São Paulo?

Tenho certeza que ela fez. Nós já acertamos valores. Não tem negociação. Eu estou acertando os detalhes do contrato. Quando tenho de pagar de taxa, quais as minhas propriedades, quais as contrapartidas... O martelo já está batido. Fui lá (em Londres) para saber as condições de pagamento.

São Paulo em algum momento hesitou e permitiu o Rio de avançar na concorrência?

Eu procurei há dois anos o Nelson Wilians (advogado do João Doria). Quando a F-1 nos procurou, queria entender se com a ideia de privatização do autódromo de Interlagos, qual era a posição de São Paulo sobre o GP do Brasil. Aí o Nelson conversou com ele e me retornou: "Ele não quer saber dessa conversa, é torta, é complicada, ele vai colocar isso para privatizar e é essa a posição dele". Então eu conversei com a F-1 e disse que eles (de São Paulo) queriam vender o terreno para construir prédios (privatizar). 

São Paulo menosprezou?

Sim, com certeza.

Mas o governador João Doria prometeu se esforçar...

Ele foi conversar com a Fórmula 1 e eles avisaram o Tamas (Rohonyi, promotor do GP do Brasil) para ele não ir, porque não iriam recebê-lo. Ele foi para Londres, largou a Previdência aqui e não se encontrou com a F-1. Falaram para o Doria que não poderiam conversar sobre 2021 até novembro. 

Há tempo para construir um autódromo do chão no Rio?

Sim. Estamos com dois anos de folga, se começar em novembro. Quero fazer em 16 meses. Isso significa contar depois da emissão da licença ambiental.

Outro lado - São Paulo garante que ainda está no páreo

O promotor do GP do Brasil, Tamas Rohonyi, disse que por cláusulas de confidencialidade, não pode comentar sobre as finanças da prova. Ele garante que em reunião em junho, o chefe da F-1, Chase Carey, e o governador João Doria deixaram alinhada uma renovação. "Ficou acordada a extensão do contrato até 2030 e as negociações estão em curso", disse. Procurado pela reportagem, Doria diz não ter sido contactado por JR Pereira sobre o GP do Brasil e negou ter marcado uma reunião com a cúpula da Fórmula 1. A categoria, por sua vez, disse que não ia comentar o tema. A prefeitura de São Paulo afirmou que as negociações para renovar continuam sem empecilhos.

Perfil - JR Pereira: 'Meu trabalho foi sempre passar despercebido'

Tão surpreendente quanto o anúncio do presidente Jair Bolsonaro de que a Fórmula 1 iria para o Rio, a figura de José Antônio Soares Pereira Júnior à frente do projeto gerou diversas perguntas no mundo do automobilismo nacional. A principal delas: quem é o desconhecido empresário, de bom papo, que encabeça a empreitada carioca?

Chamado de JR Pereira, o mineiro de Belo Horizonte é formado em engenharia eletrônica pela PUC de Minas Gerais. De família de classe média, herdou da mãe uma fazenda e cabeças de gado. O pai tinha uma pequena construtora. Boa parte dos 45 anos de vida foi nos Estados Unidos, onde desembarcou menino, aos 14.

Por lá ele se desenvolveu profissionalmente em grandes empresas da área do Direito e Militar e ganhou o título de Cidadão Honorário Americano. A principal atuação foi de conselheiro e consultor de empresas interessadas em fazer negócios no Brasil. Assim foi na Squire Patton Boggs LLP, "um escritório de Direito e de Lobby sediado em Washington", segunda aponta seu currículo. Na área militar, trabalhou para a Lockheed Martin, uma das maiores produtoras de artefatos militares (mísseis e caças) do mundo. 

Ele se aproximou da área militar desde cedo quando serviu nas Forças Armadas dos EUA. Fez treinamento como atirador de elite e chegou a se tornar recordista brasileiro e norte-americano no tiro esportivo.

No retorno ao Brasil, atuou no comando da Crown Consulting, empresa especializada em segurança e processamento de dados. A companhia desenvolveu o primeiro automóvel conectado a internet. Nesse trabalho ele também enfrentou polêmicas. Seu nome foi citado no relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Correios, em 2006, por ter recebido empréstimo de R$ 21,8 mil da SMP&B, uma das empresas do publicitário Marcos Valério envolvidas no Mensalão. JR Pereira confirma que recebeu o dinheiro e já quitou o empréstimo, para entrar num empreendimento de golfe em Belo Horizonte. Ele nega qualquer envolvimento em atos ilícitos. JR Pereira não foi indiciado na investigação.

Em outro caso polêmico, ele foi apontado como doador de dinheiro para Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT. Pereira diz que contratou Delúbio como consultor para obter informações sobre o Brasil para empresas estrangeiras. Ao fechar a Crown, o empresário deixou dívidas trabalhistas, estimadas atualmente em R$ 24,7 milhões. "Essa dívida já foi maior, mas estou pagando aos poucos a cada um dos meus ex-funcionários", explicou o executivo. 

A proximidade com empresários de diversos setores e com integrantes de diferentes governos faz parte do seu trabalho, diz Pereira."Meu trabalho sempre foi o de não aparecer, sempre foi passar despercebido", afirma ao Estado

A discrição dos seus trabalhos contrasta com os quase dois metros de altura e respostas inesperadas. "Não tenho porta-retratos em casa", disse, ao revelar que não tem filhos e que seus pais já morreram. 

Foi sua habilidade comunicativa que lhe propiciou diversos contatos e amigos em diferentes setores profissionais. No Exército Brasileiro, por exemplo, se tornou figura conhecida entre generais por causa da época em que atuou na área militar nos EUA. Quando trabalhava para a Lockheed Martin, esteve envolvido em contratos que superavam R$ 1 bilhão, informa. 

E foi assim que a F-1 atravessou o seu caminho. Foram políticos ligados ao Exército, diz ele, que o incentivaram a buscar investidores para recriar o autódromo do Rio de Janeiro, como compensação para a destruição do circuito de Jacarepaguá. Mas JR Pereira preferiu buscar somente parceiros privados, quase todos estrangeiros.

O empresário se tornou nome fácil no noticiário esportivo meses atrás ao aparecer em um evento público no Rio ao lado do presidente Jair Bolsonaro, com quem nega ter relação próxima, apesar do passado em comum no Exército. Naquela ocasião, o presidente da República surpreendeu ao afirmar que a Fórmula 1 iria ser disputada no novo autódromo, com "99% de chance ou mais". 

O anúncio na época pegou até JR Pereira desprevenido. "Fui pego de surpresa, mas agradeço ao presidente. Depois daquelas declarações, as portas se abriram", explicou.

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