O que os profissionais da Fórmula 1 pensam sobre Rubens Barrichello

Em 19 temporadas na categoria, brasileiro acumulou a admiração dos colegas

LIVIO ORICCHIO, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2013 | 08h47

MELBOURNE - Ao longo de seus 326 GPs Rubens Barrichello conviveu com mais de uma geração de profissionais, de chefes de escuderia a diretores técnicos, passando por companheiros de equipe, engenheiros, mecânicos e dirigentes de modo geral. Alguns ainda estão na Fórmula 1. Não mais como dono de time, a exemplo de Eddie Jordan, hoje comentarista, o primeiro a acreditar no talento de Rubinho.

O promotor do Mundial, Bernie Ecclestone, comentou quando Rubinho assinou para correr pela Brawn GP, no fim de 2008, quando não sabia se prosseguiria na Fórmula 1 por estar sem contrato. Aquela seria sua 17.ª temporada e no GP da Turquia do ano anterior tornara-se o piloto de maior longevidade na história, ao completar 257 Gps, um a mais do então recordista, o italiano Riccardo Patrese. “A equipe quis Rubens”, como quem diz, não ele não comprou a vaga com patrocinadores.

“Ninguém tem quase 300 provas na Fórmula 1 (Rubinho atingiria a marca no GP da Bélgica de 2010) se não for muito útil a seu time. Se Rubens foi o escolhido por Ross (Brawn) é porque Ross sabe que ele tem o que oferecer ao grupo”, comentou Ecclestone. Para o dirigente inglês, não há como um piloto não pagante, “e Rubens recebe e bem para correr na Fórmula 1”, estender tanto sua permanência se a equipe realmente não ver nele grande utilidade.

O então diretor da Renault, Flavio Briatore, apesar de nunca declarar amor ao trabalho de Rubinho, a ponto de pensar em contratá-lo, o respeitava. Com o carro da Brawn, muito eficiente, em 2009, Rubinho ganhou corridas, como em Valência e Monza. Briatore afirmou ao Estado, na época: “O que me impressionou em Rubens este ano é que essa vitória (Valência) mostra que não entrou ainda na reta descendente, como seria de se esperar de um piloto com quase 20 anos na Fórmula 1. Seu interesse e amor são visíveis.”

Briatore revelou um lado crítico também: “Rubens me parece um piloto capaz de belos trabalhos, como esse (Valência), mas não o vejo como um campeão, por não manter o mesmo nível sempre”.

Já o escocês Jackie Stewart, três vezes campeão do mundo, em 1969, 1971 e 1973, tem ponto de vista diferente. “Rubens me procurou, no meio do campeonato de 1999, para dizer que iria para a Ferrari”, contou ao Estado. Rubinho competiu pela Stewart GP as temporadas de 1997, 1998 e 1999. “Não estranhei porque àquela altura o considerava um dos oito melhores pilotos do mundo. Era, portanto, natural que fizesse parte da lista de interesse da Ferrari.”

Em 2009, Stewart comentou também: “É difícil imaginar Rubens distante da Fórmula 1. Seu entusiasmo e talento continuam intactos, mas agora com a ajuda da experiência”.

Rubinho tinha 20 anos quando realizou seu primeiro teste com um carro de Fórmula 1, em janeiro de 1993, num dos seus circuitos favoritos, Silverstone. Gary Anderson era o diretor técnico da Jordan. Atualmente comenta para a rede de TV britânica BBC. “Eddie (Jordan) me disse que teríamos um menino na equipe, Rubens. Não o conhecia direito. E ele faria os primeiros testes porque havia dúvida sobre quem seria o outro piloto”, explicou em conversa com o Estado.

“Apenas lembrei a Eddie que precisava de um piloto experiente. Quando fomos para o primeiro teste, fiquei impressionado. Aquele menino tinha uma sensibilidade impressionante para nos informar o que se passava com o carro, como ele reagia em cada setor da pista. E foi rápido de cara”, recorda Anderson. “Eu mesmo procurei Eddie para lhe dizer estar bastante satisfeito com o que tínhamos. E o campeonato nem havia começado, ainda.”

Anderson, no entanto, não se limita apenas a elogiar Rubinho. “De repente ele passou a ter vários assessores. Se sentia sede tinha alguém ali para lhe fornecer água. Interferiram no seu processo de maturidade e isso o prejudicou.” Na Ferrari, de 2000 a 2005, Rubinho viveu seu maior período de conquistas, com dois vice-campeonatos, 2002 e 2004.

“Aquele era o Rubens que imagina na Fórmula 1, mas poderia ter acontecido antes”, lembrou Anderson. “Perder por pouco para Michael (Schumacher) e em algumas oportunidades ficar a sua frente mostrou quanto Rubens poderia produzir.”

No fim do ano passado, porém, Anderson declarou na TV que o melhor para a Fórmula 1 seria Rubinho parar de correr. Acabara o compromisso com a Williams. “Diante das poucas vagas existentes, acho que para a Fórmula 1 seria saudável que pilotos como Rubens, há 20 anos na competição, fossem substituídos por jovens para poderem expor seu potencial.”

Outro profissional que se impressionou com Rubinho foi Frank Williams, para quem correu em 2010 e 2011. “Rubens tem todas as características dos pilotos campeões do mundo. Só não foi porque quando teve carro para isso seu companheiro de equipe era um pouco melhor ou aproveitou mais a oportunidade.”

Williams sentenciou ao Estado: “Rubens deu sorte de estar no lugar certo na hora certa, mas com o companheiro errado”. De 2000 a 2004, na Ferrari, Schumacher conquistou cinco títulos seguidos. E em 2009, na Brawn GP, Jenson Button era o companheiro de Rubinho e se tornou campeão.

A lista de características pouco comuns de Rubinho ainda não terminou. Mark Webber, da Red Bull, elogiou o ex-presidente da GPDA, a associação dos pilotos, Rubinho, por sua capacidade de recomeçar na Fórmula 1. “Não é fácil para um piloto competir por um time como a Ferrari, ser vice-campeão do mundo, depois de novo poder lutar pelo título (na Brawn GP, em 2009), e de repente ir para uma equipe que anda mais para trás.” O australiano referia-se ao fato de Rubens aceitar o desafio, quase 40 anos, de trabalhar para a Williams voltar a ser grande. “Eu o admiro por isso.”

Para o mexicano Jo Ramirez, ex-coordenador da McLaren, hoje aposentado, presente nos testes da pré-temporada, este ano, só há uma razão para explicar esse desejo indomável de Rubinho permanecer na Fórmula 1, a qualquer custo, mesmo sendo um piloto de conquistas, como definiu: “A paixão de Rubens é algo para refletirmos”.

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