Srdjan Suki/EFE
Srdjan Suki/EFE

O que poucos sabem desse superpiloto, Sebastian Vettel

Estado ouve pessoas próximas a Fórmula-1 para traçar um aprofundado perfil do piloto

Livio Oricchio, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2013 | 13h27

NICE - Desde o seu primeiro título, em 2010, com apenas 23 anos, muito já se falou sobre as qualidades de Sebastian Vettel. Ontem, hoje e nos próximos dias receberá elogios de toda natureza. Nem poderia ser diferente. Vettel definiu no GP da Índia, como o esperado, a conquista do tetracampeonato. Portanto, parece difícil acrescentar algo diferente àquilo que já foi dito e se tem falado sobre o piloto da Red Bull. A não ser que os analistas sejam personagens que fazem parte da sua trajetória notável ou mesmo permitem que Vettel escreva sua rica história.

O Estado ouviu com exclusividade alguns desses profissionais para poder traçar um perfil mais aprofundado do piloto que aos 26 anos, apenas, só está atrás, por enquanto, dos feitos de mitos como Michael Schumacher, sete vezes campeão, e Juan Manuel Fangio, cinco. O suíço Sebastian Buemi, piloto de testes da Red Bull, por exemplo, diz algo que nem todos sabem. "Sebastian ganha uma corrida e no dia seguinte já está na fábrica, trabalhando no simulador, preparando-se para a próxima." Buemi conta mais: "Sebastian quer saber de tudo, planeja cada ação que faz, não deixa nada ao acaso".

Buemi disputou as temporadas de 2009, 2010 e 2011 pela Toro Rosso e Helmut Marko, diretor do programa júnior da Red Bull, decidiu não renovar seu contrato por "Buemi não ser um novo Vettel". Desde então o suíço tem se dedicado ao desenvolvimento do carro da Red Bull no simulador e fica na reserva, nos autódromos, como terceiro piloto. Acompanha o grupo durante a temporada e participa das reuniões. "Sebastian me faz todas as perguntas possíveis. Dá para ver que é um apaixonado pelo trabalho." Esse é o aspecto mais destacado pelo diretor técnico da Red Bull, Adrian Newey, o projetista de maior sucesso na história da Fórmula 1, com dez títulos desde ontem. "Já fui campeão com outros pilotos. Mas Sebastian é especial. Tem o que os outros têm, mas é muito jovem, ainda. Não tem uma área onde pudéssemos dizer que precisa se aprimorar muito mais. Demonstra amar seu trabalho. Ele me impressiona e, às vezes, me emociona."

Quando Vettel chega num circuito na quinta-feira para a disputa de um GP, aquela prova já foi passada e repassada por ele no simulador com o carro configurado para as condições do traçado. "Sebastian não erra mais. Ao começar os treinos, nada é novidade para ele, pela superpreparação que faz antes. Não vale dizer que ganha tudo porque o carro é ótimo. Se a imagem do carro fosse a que Mark (Webber) passa, não seria a que todos têm hoje. Sebastian tem grande responsabilidade nisso", explica Buemi.

Essas características de tenacidade e determinação são lembradas por seu eterno engenheiro, o francês Guillaume Rocquelin. "Sebastian vive para o que faz, mesmo fora da fábrica quer sempre saber o que estamos fazendo, com que objetivo em particular." Rocquelin diz, ainda: "Nem todos veem a impressionante disciplina que se impõe como piloto. Atingiu, hoje, grande perfeição, velocidade, constância, quem o vê errar?, como resultado dessa superdedicação metódica."

VELOZ DESDE O COMEÇO

Mesmo num time de poucos recursos, como a Toro Rosso, na sua primeira temporada inteira na Fórmula 1, em 2008, Vettel deixou sua marca no GP da Itália, em Monza. Obteve para a equipe sua única vitória e pole da história, iniciada em 2006. Lá trabalhou com o experiente italiano Giorgio Ascanelli, diretor técnico, que havia sido o engenheiro de pista de Ayrton Senna, na McLaren, e Nelson Piquet, Benetton. "Sebastian me lembra Ayrton. Vive para ser piloto. E é impressionantemente capaz. Dos 39 pontos que fizemos Sebastian contribuiu com 35. Se parece com Ayrton também porque odeia perder. Foi projetado para vencer. Qualquer outro resultado não interessa."

Não há quem não saiba: por tudo que a cerca, por exemplo os milhões de euros que o evento movimenta, a Fórmula 1 se desloca por um terreno muito político. No meio, outro grande piloto, Alain Prost, quatro vezes campeão, como Vettel, ficou conhecido também por trabalhar nos bastidores para tentar ser favorecido na equipe "Com Sebastian não tem nada disso. Ele é o que você está vendo. Sempre calmo, não faz política e nunca pede para a equipe algum tipo de preferência", conta Buemi. "Na Ferrari há piloto que pede até para o companheiro ser punido para avançar no grid", lembra o suíço. No GP dos EUA do ano passado, a Ferrari decidiu, sem necessidade, substituir o câmbio do carro de Felipe Massa para ser punido propositalmente. Caiu de 6.º para 11.º no grid, a fim de permitir a Alonso, seu companheiro, subir de 8.º para 7.º e largar do lado limpo da pista. O espanhol disputava o título com Vettel àquela altura.

As qualidades citadas pelo diretor geral da Red Bull, Christian Horner, são muitas. Uma especial diferencia Vettel dos demais: "Ninguém é mais capaz de estimular o grupo quanto Sebastian. Cada vez que vem à fábrica deixa um punhado de energia. E no autódromo é a mesma coisa". Horner explica que, no fundo, todo piloto pode também procurar estimular sua escuderia, porém com Vettel é diferente: "Uma coisa é um engenheiro, um mecânico fazer algo e eventualmente ver lá na frente algum resultado. Com Sebastian esse resultado ocorre a todo momento. Nossos homens sabem que vão ver o resultado dos esforços que estão fazendo já no próximo fim de semana. Isso tem um valor inestimável na evolução do grupo".

De novo a palavra está com Buemi para revelar um pouco mais desse desconhecido Vettel: "Eu o conheço há dez anos. O lado que aparece é de um rapaz sério, compenetrado. E é mesmo. Mas há o lado brincalhão, realmente divertido. Conosco, fora do ambiente de tensão do fim de semana de corrida, Sebastian brinca bastante, além de trabalhar."

PERTO DO FATO

Com o repórter do Estado, o piloto-brincalhão tentou fazer "negócio", uma vez. Ao ser questionado, logo depois do pódio de Silverstone, se corria com o relógio com que se apresenta nas coletivas, respondeu: "Não. O cockpit é tão apertado que poderia me atrapalhar. Mas é o meu relógio do dia a dia. Agora, se você fizer uma boa oferta podemos conversar". O fabricante é patrocinador da equipe e lhe providenciaria outro de imediato.

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