Hilary Swift/The New York Times
Hilary Swift/The New York Times

Pilota dos Estados Unidos busca patrocínios para equipe formada por mulheres

Também executiva do ramo da biotecnologia, Jackie Heinricher montou time de elite

Roy Furchgott, The New York Times

21 de fevereiro de 2020 | 09h00

Pilota profissional e executiva do ramo da biotecnologia, Jackie Heinricher decidiu criar, alguns anos atrás, uma equipe de elite só com mulheres. Ela sabia que seriam necessários milhões de dólares para montar um bom time, mas tinha confiança de que as empresas pertencentes a mulheres, ou administradas por mulheres, ou interessadas em vender seus produtos para mulheres, imediatamente ofereceriam todos os patrocínios de que sua equipe precisaria.

"Nessa época, eu achava que o carro ficaria coberto de anúncios de absorvente interno e sabonete íntimo e todas essas coisas", disse ela. "Não recebi nenhuma proposta."

Em vez disso, a equipe encontrou seu principal apoio na Caterpillar, fabricante de equipamentos de construção. Esse financiamento foi suficiente para realizar seu sonho e, no final de janeiro de 2019, a Heinricher Racing estreou na classe GT Daytona de corridas de carros esportivos da International Motor Sports Association. Em cinquenta anos de associação, a equipe foi a primeira a completar uma temporada usando exclusivamente pilotos do sexo feminino – e, em outubro, encerrou a temporada entre as dez primeiras.

Mas, em setembro, quando Heinricher visitou a Caterpillar para discutir planos para esta temporada, ela recebeu a informação de que a empresa havia decidido que não financiaria mais sua equipe. Como a temporada de 2020 já começou, Heinricher teve de correr contra o relógio para encontrar um patrocinador que mantivesse a equipe na competição. Mas outro dono de equipe tinha contratado suas pilotas, deixando Heinricher apenas como única dona de equipe e, pelo menos nesta temporada, sem nenhuma mulher atrás do volante.

O automobilismo percorreu um longo caminho desde a década de 1970, quando os homens ameaçavam boicotar corridas se as mulheres pudessem competir. Como nunca antes, há mulheres altamente qualificadas ao volante, nos boxes e nas equipes de engenharia. Mas encontrar patrocinadores para o financiamento de 3 a 6 milhões de dólares para as equipes - sempre uma tarefa difícil - tem sido uma barreira para as mulheres, que muitas vezes são tratadas como chamariz de marketing, e não como concorrentes sérias.

"Chamariz", disse Heinricher. "Odeio essa palavra". Heinricher disse que tentou formar uma equipe só de mulheres "para mostrar que elas conseguem competir de igual para igual com os homens e, se tiverem um apoio justo, vencer".

Isso deveria ter atraído patrocinadores. Entre suas pilotas, estava Katherine Legge, que detém recordes em Laguna Seca, circuito do norte da Califórnia. Estava também Simona De Silvestro, que venceu a série IndyCar, a qual inclui a Indianapolis 500.

E estava também a própria Heinricher, fundadora e presidente da BooShoot, pioneira na produção comercial de bambu. Ela foi a primeira mulher a competir no Lamborghini Super Trofeo. Em 2017, ela e Pippa Mann formaram a primeira equipe feminina da série Trofeo, ficando em terceiro no evento que reunia profissionais e amadores.

A equipe Heinricher Racing fez sua estréia no Rolex 24 em Daytona, uma corrida de regularidade, no final de janeiro de 2019. As primeiras equipes exclusivamente femininas competiram ali em 1966, quando dois times de mulheres dirigiram pequenos Sunbeam Alpines azul-bebê, sob o patrocínio de uma companhia petrolífera que as chamou de "senhoras de rodagem livre".

Janet Guthrie, uma dessas motoristas, viria a se tornar a primeira mulher a competir nas Daytona 500 e na Indianapolis 500. Mas a campanha de 1966 "foi embaraçosa", disse ela em uma entrevista por telefone, porque as mulheres não tinham esperança de vencer com aqueles carros com tão pouca potência. Os carros femininos ficaram em terceiro, em penúltimo e último lugar, mas à frente de outros 26 que não terminaram a corrida.

Naquela época, usar as mulheres como chamariz era considerado marketing inteligente. Mas, em 2016, Bernie Ecclestone, então diretor-executivo da Fórmula 1, disse à rede canadense TSN que um piloto do sexo feminino "não seria levado a sério". Isto foi anos depois de Danica Patrick vencer uma corrida da IndyCar e conquistar a pole position no Daytona 500. Patrick, que se aposentou em 2018, conseguiu bastante patrocínio e atenção da mídia, mas uma boa parte disso veio de seu sex appeal, não de sua habilidade na direção.

A indústria do esporte a motor se esforçou para combater a percepção de que não aceita as mulheres, criando comissões e programas de diversidade. Mas não ocorreram muitas mudanças tangíveis. Em junho, por exemplo, quando a Heinricher Racing se candidatou às 24 Horas de Le Mans, um dos eventos de maior prestígio do automobilismo, a equipe foi barrada.

Questionada sobre o motivo em uma entrevista à BBC, Michelle Mouton, presidente da Comissão de Mulheres do órgão regulador das corridas, disse ter sido informada de que só podia haver uma equipe feminina. "Foi a resposta que recebi", disse ela. "Só podemos ter uma equipe."

A equipe escolhida, Kessel Racing, foi apresentada como um exemplo de como as corridas se tornaram igualitárias. Um artigo no site da LeMans exibia a manchete: "Kessel Racing prova que o automobilismo não é apenas para homens".

Mais tarde, a Caterpillar disse a Heinricher, por e-mail, que uma das razões para encerrar a parceria com a equipe foi sua incapacidade de inscrever o carro em LeMans. "Uma equipe só de mulheres foi convidada e correu em LeMans, então agora não estamos mais promovendo uma equipe pioneira", disse o e-mail.

As organizações que promovem o LeMans negaram a existência de discriminação sexual, e Heinricher evitou falar sobre o assunto publicamente. "Você pode chamar de sexismo, pode chamar de discriminatório, pode dizer muitas coisas", disse ela à BBC. "Mas o fato é que não temos permissão para entrar."

Nas entrevistas, Heinricher toma muito cuidado com o que diz, preocupada com a possibilidade de sua franqueza atrapalhar sua posição de dona de equipe que precisa de patrocinadores. Ela até expressou reservas sobre sua entrevista para esta matéria, dizendo: "Não quero que isso se torne uma controvérsia".

A Caterpillar não respondeu a vários pedidos de comentários sobre Heinricher e a decisão de encerrar o patrocínio de sua equipe. Mas a falta de patrocinadores na última hora custou caro a Heinriher: suas pilotas foram recrutadas por outra equipe nesta temporada.

Heinricher continua sendo a única dona de equipe na International Motor Sports Association, uma das principais organizadoras de corridas, e no mês passado a Exxon Mobil garantiu apoio à equipe, embora todos os pilotos sejam homens.

Heinricher disse que não se intimidou ao tentar trazer mais mulheres para as principais fileiras das corridas. Ela está fazendo um trabalho de mentoria com Loni Unser, de 22 anos, pertencente à quarta geração da dinastia automobilística Unser, que está competindo em categorias inferiores nesta temporada.

"O que eu quero é inspirar o verdadeiro talento", disse ela. "Estou de olho em jovens pilotas, mas não basta ser mulher. Você tem que ser uma mulher vencedora." / Tradução de Renato Prelorentzou

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