Pilotos da F1 tentam driblar o calor

Como enfrentar o calor sufocante da Malásia durante a cerca de uma hora e quarenta minutos de duração da corrida, na segunda etapa do Mundial de Fórmula 1? Todos os pilotos e seus preparadores estudaram desde soluções simples, como ter a bordo maior volume do líquido para reidratação, até outras mais complexas, como a da Jaguar. "Podemos apertar um botão para um gás refrigerante circular sob o macacão", explicou o brasileiro Luciano Burti, ainda sem ter certeza de que esse sistema irá funcionar. "Precisa ser melhor desenvolvido", admitiu.O médico da Fórmula 1, Sid Watkins, avisou nesta sexta-feira que não há motivo para preocupação com a saúde dos pilotos por causa da temperatura próxima dos 35 graus esperada para a hora da corrida. "A questão básica é ser reidratado e tanto eles como os responsáveis por sua preparação sabem muito bem disso." Na realidade, os pilotos começam a se fortalecer para enfrentar o desafio de Sepang antes mesmo de desembarcar na Malásia. "Substituímos a alimentação rica em carboidratos no almoço e proteína no jantar por refeições à base de verduras e frutas, mais capazes de abastecer o organismo de sais minerais", afirmou Raniero Giannotti, responsável pela preparação de Rubens Barrichello.Gianotti explica que como o organismo tem de trabalhar mais para manter a temperatura do corpo constante, a freqüência cardíaca na prova é mais elevada. "Aqui ela varia de 150 a 170 batimentos por minutos, ao passo que em outras pistas é mais baixa." A solução que o preparador elaborou para Barrichello tomar durante a disputa é personalizada. "Nós fazemos exames de sangue para conhecer o seu nível de desgaste, o que se consegue, por exemplo, pela análise da concentração de ácido lático." É a partir desses dados que o Giannotti compõe a mistura líquida que o brasileiro transportará consigo no cockpit, baseada em água e sais minerais. Assim que o piloto acorda, no dia da corrida em Sepang, ele é orientado a beber quantos litros de água puder antes da largada.Com tanto líquido, muitos urinam em pleno macacão, dentro do carro, durante a prova. "Sim, é normal", confirmou Rubinho.A solução da Jaguar é mais engenhosa. Sob o macacão, os pilotos utilizam uma camiseta de manga comprida confeccionada em nomex, tecido que os protege contra o fogo. Há nessa camiseta pequenas canalizações, no próprio tecido, por onde correm delgados canos de um plástico especial. O sistema está conectado a um reservatório de gás (a equipe não quis dizer qual), mantido sob baixa temperatura. Toda vez que o piloto se sentir desconfortável demais com o calor, ela aperta um botão no volante e há uma descarga desse gás frio por orifícios existentes nos canos de plástico da camiseta. "Não funcionou direito. Se até a hora da largada eles resolverem alguns problemas eu usarei porque os benefícios devem ser grandes", disse Luciano Burti.No mundo extremamente profissional da Fórmula 1 ainda há espaço para individualismos. "Eu mesmo cuido da minha preparação", afirma Jarno Trulli, 26 anos, piloto da Jordan. "Para correr aqui, por exemplo, fui até as ilhas Maldivas, onde faz também muito calor, e realizei meus exercícios por lá." Por coincidência, contou ele, o grande campeão italiano de esqui, Alberto Tomba, ídolo no país, apesar de já não competir mais, também havia escolhido aquele local para treinar. Não há nenhuma ciência no trabalho de Trulli. "Ando de bicicleta, corro, nado, enfim, pratico esporte." E ao contrário de todo o estudo que há por trás da elaboração das misturas líquidas que vão a bordo com os pilotos, Trulli usa uma solução mais simples: "Água, apenas água."Enganam-se os que acham que por estar com parte do corpo exposto, no cockpit, sob elevada velocidade, a ventilação durante a corrida garante temperaturas mais baixas quando se está na pista. "Não há vento do cockpit", disse Trulli. Por esse motivo, alguns engenheiros providenciam pequenos dutos na parte da frente do carro para canalizar ar para o cockpit, a fim de reduzir o estresse do piloto, oferecendo-lhe mais ar frio. "Temos de escolher, entre ser de dois a três décimos mais lentos, por causa do arrasto aerodinâmico e a perda de pressão que esses dutos geram, e passar calor", explica Burti. A escolha fica a critério de cada um.

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