Pilotos de Fórmula 1 teriam capacidade para ir às Olimpíadas?

Médico da McLaren compara o preparo físico de seus pilotos com atletas e refuta sucesso numa disputa

Alan Baldwin, Reuters

26 de julho de 2008 | 19h38

Comparado com um atleta olímpico, o piloto de Fórmula 1 de antigamente não teria nenhuma possibilidade de sucesso pela preparação física.O campeão James Hunt, cujos vícios foram completamente documentados, tinha uma inclinação a ir para as festas, além de rumores de que teria uma etiqueta num dos cantos de suas calças com a frase: "Sexo, o desjejum dos campeões".Em 1982 na Finlândia e em 1985 em Silverstone, o campeão mundial Keke Rosberg fumou um cigarro antes de entrar na sua Williams para logo passar a ser o primeiro piloto a atingir mais de 258 km/h em uma volta de classificação. A etiqueta moderna é diferente. Tanto que Aki Hintsa, "diretor de comportamento humano da McLaren, reconhece que Lewis Hamilton ou Kimi Raikkonen tranqüilamente poderiam disputar provas com alguns dos atletas que competirão nos Jogos de Pequim.Hintsa foi, anteriormente, diretor médico da equipe olímpica da Finlândia, pela qual acompanhou os Jogos de inverno e um de verão, e depois trabalhou junto a grandes atletas como o etíope campeão olímpico dos 10 mil m Haile Gebrselassie. "Ao longo dos 15 anos da minha carreira operei e tratei de mais de 100 medalhistas de torneios olímpicos e mundiais. Tenho bastante experiência no nível máximo do esporte", disse o doutor durante uma entrevista à Reuters. Hintsa confessou que quando começou a trabalhar com Mika Hakkinen, em 1998, não estava convencido de que a Fórmula 1 era um esporte."Mas quando me aprofundei no tema, me dei conta de todo o desafio e que isso demanda muito esforço devido à enorme pressão do público e da imprensa. Um deve se ocupar dos patrocinadores da equipe e dar-lhes tempo, tem que viajar todo o tempo. Um deve treinar muito para estar em forma, além de estar bem mentalmente", acrescentou.O médico finlandês também admitiu que logo confirmou que o automobilismo era um dos esportes mais exigentes entre os que tinha trabalhado e que os pilotos alcançam níveis muito altos o que lhes coloca ao lado dos verdadeiros atletas."Os métodos de treinamento e a ciência tem elevado o nível de rendimento. Hoje em dia, os pilotos da McLaren estão treinos duas vezes mais do que faziam os pilotos de dez anos atrás. Atualmente estão em forma. Eles tem de estar", destacou Hintsa.TREINAMENTO OLÍMPICOO inglês Hamilton e seu companheiro de equipe, o finlandês Heikki Kovalainen, treinaram no Instituto de Esportes Kuortane, na Finlândia. O lugar está credenciado pela Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF, na sigla en inglês), e ali também treinam, entre outros, o campeão mundial e esperança deste país no lançamento de disco, Tero Pitkamaki. Seu programa inclui caiaque e esportes de resistência. A ginástica é particularmente boa para a coordenação e a consciência tridimensional. "Começamos com Lewis quando ele estava na Fórmula 3, foi ali quando veio à Finlândia pela primeira vez", contou Hintsa. "Realmente creio que isto é extremamente bom para trocar experiências. Me refiro a levar os pilotos a treinar e trabalhar junto com atletas olímpicos e campeões mundiais, já que eles funcionam como ponto de referência", acrescentou.Comparar os pilotos num duelo com o recordista mundial dos 100 m, o jamaicano Usain Bolt, seria como comparar laranjas com maçãs.Bolt tem um objetivo claro, um grande evento no qual concentra-se para chegar a uma explosiva descarga de energia. Sua carreira implica em correr a distância em menos de 10 segundos. Na troca, Hamilton deve colocar-se à prova entre março e novembro em um esporte em que a consciência espacial e a coordenação contam tanto com a força corporal, e em que as corridas podem durar mais que duas horas com o piloto sujeito à força da gravidade."Manter o rendimento no nível máximo, como é preciso nos Jogos, não é possível. É impossível, por isso falamos de otimizar o rendimento, não de maximizá-lo", explicou o doutor. "Comparar Lewis com atletas de longa distância seria como comparar o dia com a noite. Os pilotos de Fórmula 1 estão muito atrás", explicou, assinalando que os pilotos se equivalem mais com atletas de uma equipe, como jogadores de hóquei.ALTAMENTE ESPECIALIZADOO tricampeão mundial de Fórmula 1 Jackie Stewart classificou-se no tiro para os Jogos Olímpicos de Roma em 1960 antes de se decidir pelos carros, assim como também tiveram vários esquiadores que logo se dedicaram ao automobilismo, até porque as chances de sucesso contra o revés são mínimas."Os pilotos que estão aqui são os melhores entre os melhores. Aqueles atletas que competem nos Jogos também o são, mas que os mundos são tão especializados que é um sonho que um atleta possa ser bom em tudo", manifestou Hintsa."Um tem que construir sua carreira desde criança. Poderiam Lewis e Heikki serem bons em algum outro esporte? Se tivessem começado lá pelos sete ou oito anos, diria que sim, que poderiam estar nos Jogos", conclui.

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