Pilotos estranham correr em aeroporto

A pista do aeroporto de Cleveland, onde será disputada domingo a oitava etapa da temporada de Fórmula Indy, oferece pouquíssima referência aos pilotos. Além de ser toda plana, não há árvores, muros, zebras, nada que ajude a reconhecer o traçado, que dê uma idéia de onde estão as curvas. O piloto norte-americano Memo Gidley, da Chip Ganassi, compara o circuito a um deserto. O treino classificatório será realizado neste sábado, das 14h45 às 16h (de Brasília)."Aqui é diferente porque você senta no carro e não vê a pista. É como no deserto. Quando você está rente ao chão e olha ao redor, parece tudo plano. Mas depois você se levanta e vê as dunas", compara Gidley, que disputou a prova há dois anos. Em Cleveland, as dunas seriam as curvas, cheias de ondulações. Segundo ele, esse é um dos circuitos mais ondulados do campeonato, no mesmo nível da pista de rua de Detroit.Nas retas, que os aviões usam durante o ano todo para decolar e aterrissar, o asfalto até que é liso. O problema são as curvas, que correspondem às ligações entre as pistas principais e servem apenas para as aeronaves taxearem. No acesso è reta dos boxes, é nítido como os carros de repente sobem. Parece um degrau.O piloto brasileiro Hoover Orsi, que disputa na preliminar uma etapa da Fórmula Atlantic pela equipe Hylton, lembra que "tem muito ´bumping´ nas saídas de curva", o que faz o carro bater muito embaixo: "O melhor acerto é deixar o amortecedor mole para absorver e não descarregar na suspensão." Segundo ele, outra tática é começar o treino com o carro mais alto do que o normal (cerca de 1mm) e abaixar aos poucos, até começar a bater: "Quanto mais perto o carro ficar do chão, melhor. Passa menos ar." Com mais ar, diminui a pressão aerodinâmica, que mantém o carro estável na pista.Uma vantagem da pista, na opinião de Hoover, é sua largura: "Sempre tem um traçado que a maioria faz, mas a pista é tão larga que dá para pegar atalhos." E aí ganhar tempo ou posições. Maurício Gugelmin, que disputa a Indy pela PacWest, lembra que "dá para ultrapassar bastante" também porque a área de escape é grande: "Dá para arriscar." As retas são largas, mas a pista afunila nas curvas. E aí os pilotos são obrigados a se enfileirar. "Na entrada da curva, é tão largo que você não tem referência de onde ir. E isso induz os pilotos a serem muito agressivos. Mas no meio, a trajetória é uma só, a pista se estreita muito", explica o italiano Max Papis, da Rahal: "Leva umas 10, 15 voltas para se adaptar. Nas primeiras voltas, muitos caras fazem as curvas na grama." Tentando evitar isso, os organizadores colocaram, no ano passado, uma fila de cones para delimitar a área externa da curva um, logo após a largada e na qual os carros chegam com a velocidade mais alta do circuito (cerca de 180 milhas, ou 289 km/h). Obrigados a se afunilar, vários competidores se enroscaram e atingiram os cones, que não estavam afixados ao asfalto e acabaram voando. Uma das vítimas foi Hélio Castro Neves, que abandonou a corrida. "Criou mais danos que benefícios", diz Papis, que ainda não sabe se a medida será repetida - no ano passado, a decisão foi tomada pouco antes da largada. Por ser um aeroporto, que no dia seguinte à corrida retoma suas atividades, não é permitido o uso de zebras.Outra dificuldade "são as luzes de sinalização (dos aviões, claro), que tem esse tamanho", afirma o piloto italiano, encostando o dedo mindinho na mesa e esticando o polegar para cima para mostrar que os luminosos tem o tamanho de um palmo: "No ano passado, fui desviar de outro carro e acabei acertando um deles. Tive que ir para o boxe trocar a asa dianteira." Papis, que venceu a última corrida, em Portland, e pontuou nas quatro últimas, chega com moral para esta prova. Assim como seu companheiro de equipe Kenny Brack, que lidera o campeonato e conquistou em Cleveland, na temporada passada, seu primeiro pódio na Indy: segundo lugar. Naquela ocasião, o primeiro colocado foi o brasileiro Roberto Moreno, da Patrick, que vencia pela primeira vez na categoria. Somando-se isso a seus últimos resultados (terceiro em Detroit e segundo em Portland), Moreno também merece atenção.

Agencia Estado,

29 de junho de 2001 | 16h41

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