Piquet relembra ultrapassagem em Senna

Os húngaros estão celebrando 20 anos de GP da Hungria. A primeira edição do evento, em 1986, foi marcada como a primeira corrida de Fórmula 1 numa nação de regime totalitário e por uma ultrapassagem antológica, de Nelson Piquet, com Williams, sobre Ayrton Senna, de Lotus, para vencer a prova. Nesta sexta-feira, enquanto Kimi Raikkonen, da McLaren, disputava com Fernando Alonso, da Renault, os melhores tempos dos treinos livres da 13ª etapa do Mundial, Piquet, a poucos metros da curva 1 do circuito Hungaroring, onde se deu a manobra naquele ano, recordou a proeza. "Lembro-me, como está claro ainda, como o Ayrton foi sujo comigo". Algumas ultrapassagens fazem parte da história da Fórmula 1. A de Piquet, na pista de Budapeste, é uma delas. "Eu era líder, mas tive um pit stop muito demorado. O Ayrton ficou em primeiro e, quando saí dos boxes, ele estava uns 10 segundos na minha frente", contou Piquet, que nesta sexta acompanhou seu filho, Nelsinho, na classificação da GP2 - vai largar em 18º. "Eu estava muito rápido e consegui encostar no Ayrton. Tirei meu carro do vácuo para ultrapassá-lo, na reta dos boxes, e ele jogou a Lotus na minha direção, me espremendo até o limite do asfalto". O ex-campeão do mundo de 1981, 1983 e 1987 dá mais detalhes. "Deu ainda para sair na frente dele, mas como freei na parte suja, o Ayrton tracionou melhor e me deu o X (retomou a liderança). Naquele instante, disse a mim mesmo que da próxima vez eu não iria tirar o pé e nós dois voaríamos". A curva 1 era contornada em 3ª marcha, a cerca de 170 km/h. Piquet continua seu relato e conta como conseguiu a liderança. "De novo entrei no vácuo da Lotus, só que o Ayrton se deslocou para a direita, a fim de ficar por dentro da curva 1, onde estava muito sujo. Quando ele percebeu, tentou voltar para a parte limpa, onde eu já estava e ficamos lado a lado". O ex-piloto lembra que os dois quase se tocaram. "Não aliviei, como da outra vez. A vantagem agora era minha. Freei uns 30 metros depois, minha Williams escorregou de traseira, deu para corrigir e assim que retomei minha trajetória mandei ele tomar...e fui embora". O então piloto da Williams venceu a corrida diante de 200 mil pessoas, um dos maiores públicos da história da Fórmula 1. O episódio entre os dois não terminou com a bandeirada. Ambos tinham, ainda, de dividir o pódio, lado a lado, diante de uma torcida insandecida de emoção. "Falar merda era comigo e enchi o saco dele. A cara do Ayrton...ficava emburrado quando perdia. Eu me diverti, sacaneei com todo direito". Piquet não foi campeão do mundo em 1986. "Tive o azar de o Frank Williams sofrer o acidente (ficou tetraplégico). A equipe me ferrou e perdi o título por burrada deles". Alan Prost, da McLaren, ganhou a última etapa do campeonato, em Adelaide, na Austrália, e Piquet, 4 segundos atrás, em 2º, teve de assistir ao bi do francês. "Fiquei tão puto que, no fim do ano seguinte, me mudei para a Lotus e levei a Honda comigo". O ex-campeão isenta os pilotos atuais pela ausência de demonstrações de técnica e arrojo como a sua naquela prova. "O que mudou de lá para cá foi a velocidade em curva, hoje muito mais alta e mais parecida com a velocidade de reta. Quase não dá mais para você ultrapassar, mesmo dispondo de um carro 2 segundos mais rápido. O piloto freia dentro da curva, vira o volante e o carro entra". Max Mosley, presidente da FIA, quer resgatar, a partir de 2008, muito da década de 70. "No fundo, o que ele quer é isso. Permitir que as freadas sejam mais longas, haja menos pressão aerodinâmica e haja maior disputa, ultrapassagens, o que com o atual regulamento é impossível".

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