Renato Mafra/RF1
Renato Mafra/RF1

Por sonho de Fórmula 1, garotos saem cada vez mais cedo do Brasil para competir no exterior

Meninos com menos de 15 anos deixam a família e antecipam ida à Europa para melhorar a formação

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2020 | 08h00

O curitibano Augustus Toniolo tem planos detalhados para os próximos anos. Competir pelo Brasil, viajar para disputas nos Estados Unidos e depois se mudar de vez para a Europa. O cronograma digno de um esportista experiente pertence na verdade a um piloto de kart de apenas nove anos e ajuda a entender um fenômeno recente do automobilismo nacional. Pelo sonho de chegar à Fórmula 1, crianças e famílias se mobilizam cada vez mais cedo para deixar o Brasil. A aposta é que a saída precoce ajuda a abrir portas.

Décadas atrás os grandes pilotos brasileiros só foram se aventurar no exterior bem mais tarde. Ayrton Senna começou a competir na Inglaterra aos 21 anos e Nelson Piquet só iniciou a carreira europeia só aos 26. Rubens Barrichello e Felipe Massa só deixaram o País pouco antes de completar 20 anos. Hoje em dia o plano é sair o quanto antes, até para já competir no kart e acelerar a adaptação.

"É importante ir o quanto antes para a Europa. Pode ajudar também fazer o último ano de kart na Europa para se adaptar à cultura", explicou ao Estadão o piloto Sérgio Sette Câmara, piloto da Fórmula E e reserva da Red Bull. Aos 22 anos, ele já acumula seis anos de Europa. "Deixar o Brasil foi difícil. Tive de terminar a escola na Espanha. Minha família continuou no Brasil e tivemos de achar um tutor de confiança. Foi preciso vencer uma série de barreiras", relembrou.

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É importante ir o quanto antes para a Europa. Pode ajudar também fazer o último ano de kart na Europa para se adaptar à cultura
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Sérgio Sette Câmara, Piloto de testes da Red Bull

O longo caminho até a Fórmula 1 e a necessidade de deixar o Brasil cedo não desanimam a família Toniolo. Para o ano que vem, se o calendário das competições for normalizado, o plano é correr uma temporada de kart nos Estados Unidos. O custo para se correr por lá é alto, em uma média de R$ 250 mil. Se tudo der certo, daqui dois anos o menino terá de morar na Europa e a mãe vai precisar acompanhar.

"O Brasil tem um nível altíssimo de pilotos, mas o que agrega correr no exterior é o equipamento. O kart é mais potente. Para quem almeja correr fora do Brasil, tem de sair cedo. É um esporte cada vez mais precoce", explicou o pai do kartista, Augustus da Silva Toniolo. Na preparação para a carreira, além de estudar inglês, o menino de nove anos já tem acompanhamento de uma psicóloga.

Matheus Ferreira tem 13 anos e desde 2018 compete na Itália, embora continue morando em Brasília. O pai dele, o empresário Victor Carvalho, viajou à Europa com o menino cerca de dez vezes no ano passado para acompanhá-lo em competições. A cansativa rotina de aeroportos e as longas horas de viagem se tornaram uma rotina que futuramente pode ser trocada pela residência fixa no exterior.

"O esporte na Europa é diferenciado na formação de pilotos. São quatro corridas por mês nos campeonatos, enquanto no Brasil às vezes é uma só. Hoje temos uns cinco meninos brasileiros que fazem a temporada toda no kart italiano, mas isso deve aumentar", explicou o pai do piloto. A rotina do menino inclui atualmente aulas de inglês e treinos físicos acompanhados por um personal trainer.

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Deixar o filho de 11 anos morar sem a família por perto foi um sacrifício para os meus pais. Ainda tem a saudade e a confiança
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Gabriel Bortoleto, Piloto

A barreira de deixar o Brasil e fixar no exterior para seguir a carreira foi vencida há um bom tempo por Gabriel Bortoleto, de 16 anos. Atualmente na Fórmula 4 Italiana, o piloto deixou o Brasil com apenas 11 anos. Em vez de morar com ospais, agora ele vive com o treinador. "Deixar o filho de 11 anos morar sem a família por perto foi um sacrifício para os meus pais. Ainda tem a saudade e a confiança", contou.

Pelo menos agora o garoto se diz mais independente. Ele já se vira na cozinha com alguns pratos mais fáceis, entre eles o macarrão, aprendeu a falar outros idiomas e está mais maduro. "Se você quer seguir a carreira rumo a Fórmula 1 sair cedo do Brasil é 120% importante. Não tem como seguir uma carreira internacional e ficar muito tempo no Brasil", explicou.

Análise - Pietro Fittipaldi*

Hoje em dia é muito difícil escolher o que você quer fazer para conseguir chegar à Fórmula 1. Com certeza a situação ideal se você quer chegar à Fórmula 1 é você vir correr na Europa e fazer isso o mais cedo possível, começando na Fórmula 4 e depois a Fórmula 3 e assim vai. Ou até mesmo o kart. Mas é muito difícil planejar, de garantir que as coisas aconteçam da maneira que você quer. Claro que esse é o cenário ideal, mas depende do patrocínio, do financiamento.

Eu cheguei à Fórmula 1 por um caminho não convencional. Eu corri em muitas categorias antes. Corri na Super Fórmula, testei um Porsche LMP1, andei na Fórmula E com a Jaguar, corri na Nascar...Eu não fui pelo  caminho de Fórmula 4 e outras. Mas algumas vezes você tem que fazer o melhor com o que você tem.

*Piloto da Haas

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