JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Promotor rejeita GP de Fórmula 1 com revezamento entre Rio e São Paulo

Organizador alega que é inviável, do ponto de vista logístico, dividir prova da F-1 entre as duas cidades

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2019 | 04h30

Promotor do GP do Brasil, Tamas Rohonyi rejeita um possível revezamento com o Rio para sediar as provas de Fórmula 1 no País, como proposto pelo governador fluminense, Wilson Witzel.

Para Tamas, é inviável do ponto de vista logístico dividir o GP do Brasil entre São Paulo e Rio. “Teria de ter duas infraestruturas caríssimas, duas equipes fixas, uma em cada cidade”, afirma ao Estado o promotor mais antigo da F-1. Ele argumenta que o “know-how” desenvolvido pela cidade paulista não pode ser transplantado para o Rio. “São anos de treinamento da polícia, da Prefeitura, do corpo médico envolvido no GP. Além disso, os principais fornecedores do País para eventos deste porte estão em São Paulo.”

O revezamento entre cidades é algo incomum, mas já aconteceu na história da Fórmula 1. Na Alemanha, as cidades de Hockenheim e Nürburg se alternaram como sede do GP nacional entre 2008 e 2014.

Tamas já organizou o GP de Portugal e o da Hungria, além da própria corrida brasileira no Rio, na década de 80. Ele revela que avaliou a possibilidade de voltar para a capital fluminense há sete anos, quando recebeu um convite do então prefeito Eduardo Paes. A ideia já era erguer um autódromo em Deodoro, como pretendem novamente as autoridades cariocas. 

Na época, o departamento de engenharia do GP brasileiro chegou à conclusão de que seria muito caro transformar o terreno em Deodoro em um circuito. Os obstáculos, na avaliação técnica, seriam o acesso, a falta de estrutura e a topografia do lugar, além das eventuais questões ambientais envolvidas. “Seria praticamente inviável fazer um autódromo lá”, diz Tamas.

Ele também ressalta a complexidade de se organizar um GP de F-1: “Faço isso há 35 anos e ainda estou aprendendo. Temos 9 mil pessoas trabalhando no autódromo no fim de semana da corrida, sendo 300 pessoas envolvidas com a corrida ao longo do ano. É de uma complexidade incrível”.

São Paulo tem contrato para receber o GP do Brasil até 2020 e discute com os organizadores da principal categoria de automobilismo do mundo a ampliação desse acordo. Já o Rio, com o apoio do presidente Jair Bolsonaro, tem o projeto de construir um novo autódromo ao custo de R$ 697 milhões e levar a Fórmula 1 para a cidade.

“Temos uma nova reunião com a direção da Fórmula 1 neste mês. Vamos conversar com o diretor financeiro e também com o Chase Carey (chefão da categoria)”, revelou Tamas. Ele acredita que o futuro do GP será definido até o fim de agosto.

No centro da disputa entre São Paulo e Rio para receber a Fórmula 1 a partir de 2021 está a “promoter fee”, uma taxa que cada GP precisa desembolsar anualmente para receber a badalada categoria. O valor varia de US$ 20 milhões (R$ 76 milhões) a US$ 40 milhões (R$ 152 milhões). São Paulo é isenta dessa taxa. Já a proposta carioca à direção da F-1 incluiria o pagamento desse valor.

A corrida brasileira é uma das três do calendário que não desembolsa a taxa, como ocorre com Inglaterra e Alemanha. A prova de Mônaco conta com um desconto.

Tamas alega que as receitas de um GP são suficientes somente para pagar o evento, mas não para bancar a taxa. Em São Paulo, Prefeitura e governo estadual ajudam indiretamente, oferecendo infraestrutura e segurança à organização.

A injeção de dinheiro estatal nos outros países se justifica pelo interesse econômico e até geopolítico que desperta a F-1. É uma forma de divulgar a cidade para atrair turistas e investidores. No caso de São Paulo, por exemplo, o GP do ano passado movimentou R$ 334 milhões na economia local, beneficiando diferentes setores. Para a Prefeitura, isso justifica o apoio indireto à corrida.

Circuitos privados têm sofrido com falta de recursos

Circuitos tradicionais, como Silverstone, na Inglaterra, e Nürburgring, na Alemanha, têm enfrentado dificuldades financeiras.

O famoso autódromo inglês chegou a ser colocado à venda entre 2016 e o início de 2017, quando seu proprietário privado, o British Racing Drivers Club (Clube dos Pilotos Britânicos), abandonou a ideia por falta de investidores. A preocupação dos donos era a falta de recursos para sustentar o GP da Inglaterra de F-1. 

A corrida britânica tem contrato com a categoria somente até este ano e corre o risco de deixar o calendário a partir de 2020 por ser uma das três etapas que não pagam a cara “promoter fee” aos proprietários da F-1. As outras são as do Brasil e da Alemanha, que também não recebem subsídios diretos do governo para sediar a corrida. 

O GP alemão é disputado em Hockenheim, mas já foi sediado em Nürburgring, cujo autódromo chegou a contar com três donos diferentes ao longo de 2014. O circuito trocou de mãos seguidamente porque seus proprietários tinham dificuldades para bancar o local e as taxas da F-1. 

“Não fecha a conta investir R$ 700 milhões para fazer um autódromo em Deodoro. Não é porque é no Rio, é porque autódromos como esses estão quebrados pelo mundo afora”, opina Lucas di Grassi, um dos criadores da Fórmula E (categoria de carros elétricos) e ex-piloto de F-1, em recado às autoridades cariocas em suas redes sociais. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.