Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

'Quem me critica não sabe minha origem', afirma Lewis Hamilton

Tetracampeão mundial de Fórmula 1 exalta força mental e maturidade como segredo para vencer e para resistir aos ataques

Entrevista com

Lewis Hamilton

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

09 Novembro 2017 | 07h00

Um piloto mais maduro, confiante e tranquilo recebeu o Estado nesta quarta-feira para uma entrevista. Com o tetracampeonato mundial de Fórmula 1 garantido, o inglês Lewis Hamilton, da Mercedes, se prepara para o GP do Brasil, no domingo, diz viver a melhor fase da carreira e se sentir seguro para atacar quem critica o seu estilo de vida baladeiro fora das pistas.

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 Aos 32 anos, o piloto demonstrou simpatia durante evento promovido pela Petronas, mas fica sério ao relembrar do começo da carreira. O pai dele chegou a ter três empregos para conseguir bancar o início do filho no kart, período que ajudou a moldar o estilo e o apreço de Hamilton para buscar o autoconhecimento como arma para o sucesso.

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Após tantos recordes, quais metas você ainda busca?

Recordes não foram algo que busquei. Se eu bater algum recorde no futuro, ótimo, mas se não, sem problemas. A cada fim de ano eu acrescento novas coisas que quero alcançar. A maioria delas são fora do automobilismo. Mas eu não posso comentar com você. Mas aprender um novo idioma é um objetivo, aprender piano também, ver as sete maravilhas do mundo é algo que também quero fazer um dia. Quero ter mais impacto com as crianças, que são o futuro. 

Você não se importa de mostrar nas redes sociais suas viagens e festas. Você teme que isso um dia possa te trazer críticas caso os resultados não venham?

É um caso toda semana, porque viajo aqui e ali e se eu não tiver bom desempenho, vão dizer que é por causa disso. As pessoas sempre estão à procura de um exemplo para justificar. É interessante, porque na minha cabeça, quando eu publico uma foto do que estou fazendo, eu sinto como se estivesse compartilhando uma experiência. É como se o seu amigo tivesse saído de férias e te mandasse uma foto. Nunca eu pensei que as pessoas vissem isso e considerassem negativo. Isso é algo que me causa conflito todos os dias. Penso sobre o quanto eu mostro, ou quanto não mostro. Porque particularmente agora, as pessoas veem o que sou hoje, mas não onde estive, como foi meu começo, de onde eu venho. Eu continuo a ver o começo, continuo perto dele, mas talvez eu não mostre isso suficientemente.

Você parece mais relaxado neste ano. Tem alguma razão?

Eu acho que é parte do crescimento. Eu tenho 32 anos, me entendo melhor, sei dos meus valores, sei o que estou fazendo. É um ganho de confiança, conhecimento e crescimento como ser humano.

Você faz trabalho específico com algum profissional para aprimorar a sua força mental?

Não. Sou só eu e Deus. Eu rezo bastante, passo muito tempo tentando entender minha energia, os sentimentos positivos e negativos. Sempre tento trabalhar internamente com a minha força, focar nas minhas fraquezas, tanto dentro como fora do carro. Eu não tenho uma teoria, um método específico, cada pessoa é diferente. Levou um tempo para eu me tornar o piloto que sou. Não é algo que você aprende rapidamente. 

Qual a principal diferença entre o Lewis Hamilton de hoje e o de dez anos atrás, quando estreou na Fórmula 1?

Eu acho que apenas maturidade e confiança no que sou, no que eu faço, no que eu falo. Quando cheguei aos 30, realmente eu notei que estava virando um homem e vi que tinha de que aplicar tudo o que aprendi nesses anos. Se nós voltarmos no tempo, eu acharia positivo aprender com os erros, aproveitar o tempo, seja estudando, lendo ou qualquer outra coisa. 

Na sua opinião a troca de companheiro de equipe nesta temporada te ajudou?

Eu acho que isso ajudou apenas a equipe. Para mim, é claro, trabalhar com a equipe fica melhor se tiver um ambiente agradável. Eu tenho certeza que todo mundo da equipe adorou trabalhar neste ano pelo que nós conquistamos e eu gostei dos outros anos também, mas neste ano foi realmente especial, particularmente por disputar com a Ferrari. Acho que nós precisávamos disso. Foi necessário solidariedade, unidade no time, para conseguir superá-los com a força que tivemos neste ano.

Após quatro títulos, qual você considera que foi o mais difícil?

Eu acho que todos de alguma forma foram grandes desafios. Parece que a cada vez que você começa um campeonato será mais difícil do que o anterior, porque você tem que lutar contra várias coisas. Há vários conflitos na sua mente, situações que estão ao seu redor, às vezes você pode se distrair com isso. Honestamente, tudo isso deve ser superado para que você desempenho no mais alto nível durante todo o ano. 

Neste temporada você começou atrás. Qual foi o principal momento da virada?

Acho que em Silverstone foi um ponto de virada. Mesmo com algumas corridas depois dela, Silverstone foi para mim forte e um grande teste para as minhas crenças, nas minhas tomadas de decisões, no que eu sou como pessoa. Para mim lá foi como um clique. Depois disso eu sabia que realmente poderia ganhar o campeonato.

Além da amizade com Neymar, o que mais você acompanha de futebol brasileiro?

Quando criança eu era fã da seleção brasileira de futebol. É até maluco, porque via a Copa do Mundo, claro, torcendo para a Inglaterra, mas também para o Brasil. Eu acho que era hipnotizado pelos talentos individuais do time, pela forma como eles jogavam. É assim até hoje, quando você vê Neymar jogando. Por algumas razões pessoas de outros países não podem fazer isso.  Eu me identifico com o fato de as crianças jogaram nas ruas aqui, crescer com poucas condições e de alguma forma você tem os maiores talentos individuais que já atuaram no esporte. Eu admiro isso.

Em que posição você jogava na infância?

Jogava como meio-campista. Eu não era espetacular, mas eu tinha bom preparo físico. Quando eu jogava, meus amigos pensavam que eu era louco, porque eu corria demais. Eu jogava um pouco na defesa, meio-campo, depois na ponta-direita, eu estava em todo o lugar, perseguindo a bola. Eu nunca desistia. Se eu perdia a bola, eu voltava para tentar recuperar. Eu realmente curtia. Eu não joguei futebol por muito tempo.

Que tipo de apoio você recebe dos brasileiros?

Eu tenho um número crescente de seguidores no Brasil. As mensagens que recebo são sempre de carinho, positividade e de encorajamento. É para mim um pouco estranho ter fãs, é algo que jamais tinha imaginado. Eu lembro que nos meus primeiros anos aqui no Brasil foi desafiador, porque eu estava competindo contra um brasileiro e então, o carinho vinha só de um fã para ter muito apoio. Mesmo que não seja brasileiro, eu acho que por compartilharmos o mesmo amor pelo Ayrton Senna, por automobilismo. Eu acho que nunca em todos esses anos pensei em ter esse apoio que eu tenho no Brasil. É um grande lugar, com muito amor.

 

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