Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Ciro Campos, Felipe Rosa Mendes, O Estado de S. Paulo

11 Novembro 2017 | 17h00

A última corrida de Felipe Massa em Interlagos também significa o fim de linha do Brasil na Fórmula 1. O adeus do brasileiro encerra um ciclo que vem desde 1970, portanto, de 47 anos, com pilotos do País enfileirados no grid. Mais de uma geração acompanha a competição sempre na esperança de ver tremular no pódio a bandeira brasileira. Essa esperança não existirá em 2018. Felipe Massa se aposenta sem que o Brasil tenha um outro piloto na próxima temporada.

+ INFOGRÁFICO: Guia da temporada 2017 da Fórmula 1

+ 'O objetivo é voltar ao topo da categoria em 2018', diz Alonso

Massa se despede da categoria pela segunda vez. Agora em definitivo. A primeira foi no ano passado. Mas a Williams o requisitou. Foram 16 temporadas. O sentimento é de dever cumprido sem nada a lamentar. Em entrevista ao Estado, Massa interrompe a reportagem quando questionado sobre se deixará a F-1 realizado. "Ô, e muito!", responde. "Sou muito feliz por tudo que consegui conquistar e me sinto satisfeito e emocionado por tudo o que passei na carreira como piloto", comentou.

Em 16 anos, incluindo uma como piloto de testes, Massa disputou 267 GPs, com 11 vitórias e 16 pódios. Foi vice-campeão em 2008, após perder o título na última curva da última prova do ano, justamente em Interlagos, em sua casa. Um dia triste para o Brasil. Dos 31 brasileiros que já correram na F-1, ele só tem resultados inferiores aos campeões mundiais Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna. "Acho que os números mostram bem como eu fui, como a minha carreira foi longa."

Entre estes números está sua vitória em Interlagos, em 2006. Para Massa, foi seu melhor momento. "Foi o dia mais feliz da minha carreira”, diz ele, que pilota no asfalto de Interlagos desde a adolescência. “Aquela vitória no GP do Brasil era algo muito longe do que eu imaginava conquistar na minha vida."

A trajetória do brasileiro também foi marcada por momentos difíceis. O maior deles ocorreu no treino classificatório do GP da Hungria de 2009. Uma peça do carro de Rubens Barrichello acertou sua cabeça e o tirou daquela e das oito corridas restantes. Apesar do grande susto, Felipe Massa não elegeu o perigoso episódio como o mais negativo de sua carreira. "O pior foi o GP da Alemanha, de 2010”, disse, referindo-se à prova que ficou famosa pela frase do chefe da Ferrari, via rádio. "Fernando está mais rápido do que você", disparou. "Foi o dia mais triste da minha história na F-1, eu tive que deixar o Alonso passar. Uma frustração tremenda, me senti impotente."

Apesar da lembrança negativa, ele evita lamentações. "Não mudaria nada. Sempre aprendi muito e não tenho nada a me lamentar”, afirmou. Massa espera deixar uma imagem de respeito e amizade na categoria mais competitiva do automobilismo. “Sempre tive respeito pelas pessoas e sempre fui muito bem tratado, querido até no meio da F-1. Espero deixar uma imagem de respeito por tudo o que passei e também recebi."

Massa sonha com o reconhecimento dos brasileiros. "Brasileiro gosta de torcer por outro brasileiro. Mas nem sempre no Brasil se dá o devido valor. Às vezes é um pouco triste o que se vê... Nos outros países, os torcedores dão mais valor."

O piloto da Williams se despede da categoria sem obter brilho nos últimos anos, após ter as melhores chances de título na Ferrari. Massa nem esperava competir neste ano. Foi chamado de última hora pelo time inglês para substituir o finlandês Bottas, que assinou com a rival Mercedes. 

Neste seu ano extra, ele não brigou por pódio, mas está longe de lamentar a decisão de permanecer no campeonato por mais uma temporada. "Me diverti guiando o carro deste ano. É maravilhoso de pilotar, é mais rápido, independentemente de não ser tão competitivo assim. Consegui tirar muito do modelo 2017. Valeu a pena ter continuado na F-1."

Melhores resultados não vieram em razão da falta de sorte, disse o piloto ao Estado. "Tive até chance de vencer o GP do Azerbaijão, mas também tive problemas no carro. Teve até pneus furados em outras corridas. Tranquilamente era para eu ter o dobro da pontuação que tenho atualmente", comentou o atual 11.º colocado do Mundial, com 36 pontos.

Aposentado da categoria depois de disputar o GP de Abu Dabi, no dia 26, o brasileiro ainda não sabe o que fará da vida. Seu maior interesse é entrar na Fórmula E, a categoria de carros elétricos promovida pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA). Mas ele não tem pressa para decidir e diz que não pretende apenas fazer número na categoria que escolher futuramente. "Quero me divertir, ser útil e me sentir importante com a minha experiência." Massa sai de cena e deixa o Brasil órfão na F-1.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Melhor amigo de Massa na F-1 virou fã de brigadeiro e fala palavrões em português

Daniel Ricciardo, da Red Bull, é o piloto mais próximo do brasileiro e passou a incorporar costumes brasileiros ao seu cotidiano

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

11 Novembro 2017 | 17h00

O australiano Daniel Ricciardo, da Red Bull, vai perder no próximo ano seu maior companheiro de viagens, treinos físicos e de degustação de uísques japoneses. O piloto tem como melhor amigo na Fórmula 1 o brasileiro Felipe Massa, com quem aprendeu a gostar de brigadeiro, ouvir pagode, brincar com crianças e até alguns falar alguns palavrões (pesados) em português.

+ INFOGRÁFICO: O Guia da Fórmula 1 2017

+ Privatização de Interlagos preocupa Massa

Considerado um dos mais simpáticos e irreverentes da categoria, Ricciardo se divertiu ao contar para o Estado, durante entrevista nesta semana, detalhes sobre a amizade que tem com o piloto brasileiro. "A Raffa (mulher de Massa) faz um doce muito bom. É brigadeiro o nome? Eu aprendi também com o Felipe algumas músicas e alguns palavrões brasileiros, tipo...", contou o bem humorado australiano. Infelizmente, a sequência da frase é impublicável.

Os dois pilotos são vizinhos em Mônaco e convivem juntos. Pela manhã, ambos vão à academia para fazer treinamento físico, depois almoçam juntos. À tarde, a dupla vai para a musculação e, ao fim do dia, às vezes, até jantam no mesmo lugar.

Não raro Ricciardo passa horas com o filho de Felipe Massa, Felipinho, de sete anos, com quem já brincou de disputar uma corrida de carrinhos motorizados dentro de uma varada, segundo ele. A competição foi registrada em vídeo, inclusive.

Ricciardo diz gostar de conviver com o garoto para matar a saudade da infância na Austrália, onde cresceu cercado de primos. Apesar de ter o surfe como segundo esporte, a relação próxima com a família Massa lhe fez incorporar outro costume brasileiro, o de jogar futebol. Felipinho Massa o ensinou.

"Com o Felipe é assim: quando não estamos treinando, estamos comendo. Vou sentir falta dele na Fórmula 1, mas fico feliz que ele vai dar um novo passo na carreira. Ele é o meu melhor amigo no esporte. Uma pena não estarmos juntos no Japão de novo, para degustarmos uns uísques locais", afirmou o australiano, conhecido na categoria por comemorar as vitórias com o estranho ritual de beber a champanhe despejada dentro das próprias botas.

O piloto da Red Bull tem uma tradição, quase "religiosa", quando vem ao Brasil. Também por influência do amigo Massa, a primeira parada em São Paulo, antes mesmo de pisar em Interlagos, é em uma churrascaria. "Aos poucos, aprendo a comer carne. Nos primeiros anos, comia tanto que passava mal depois", diz. 

http://esportes.estadao.com.br/noticias/velocidade,o-objetivo-e-voltar-ao-topo-da-f-1-em-2018-diz-fernando-alonso,70002078886

Mais conteúdo sobre:
Fórmula 1 Felipe Massa Daniel Ricciardo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.