Recordista em GPs, Rubens Barrichello estreava na Fórmula 1 há 20 anos

Da África do Sul em 1993 até Interlagos em 2011 foram 326 corridas de uma carreira polêmica

LIVIO ORICCHIO, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2013 | 08h21

MELBOURNE - É possível a um esportista ser amado e execrado ao mesmo tempo? Pois esse antagonismo associado a uma paixão sem precedentes pela velocidade talvez tenha sido o que mais caracterizou a carreira do piloto brasileiro mais polêmico da história.

Nesta quinta-feira faz exatamente 20 anos que Rubens Barrichello pela primeira vez largou numa corrida de Fórmula 1, no GP da África do Sul da distante temporada de 1993, pela Jordan, com Ayrton Senna no auge da sua genialidade, o que viria a ser determinante para explicar também essa relação de amor e repulsa da torcida com Rubinho.

Para muitos jovens brasileiros que não celebraram as conquistas dos títulos de Emerson Fittipaldi, em 1972 e 1974, de Nelson Piquet, 1981, 1983 e 1987, e Ayrton Senna, 1988, 1990 e 1991, Rubens Barrichello tem um significado. Revela ser um homem simples nas entrevistas, como de fato é, batalhador, competente, mas sem ser genial, porém esforçado e simpático. Claramente é visto com carinho por eles.

Já para parte dos torcedores educados com a ideia de que campeões do mundo, em uma atividade esportiva tão difícil e complexa de se fazer sucesso como a Fórmula 1, podem ser produzidos em escala industrial, Rubens Barrichello nem sempre é respeitado. Por vezes, até motivo de gozação.

O SUCESSOR DE SENNA

Daquele 14 de março de 1993 no circuito de Kyalami, em Johanesburgo, a 27 de novembro de 2011, no seu amado Interlagos, local da despedida compulsória na Fórmula 1, pela Williams, a trajetória desse paulistano de 40 anos foi marcada por ponto e contraponto na presença em impressionantes 326 GPs.

“Rubens seria o sucessor de Ayrton (Senna) na Fórmula 1 na mente de muitos brasileiros, o que é natural, afinal seu País teve campeões um seguido do outro. Rubens era o próximo.” A análise é de Bernie Ecclestone, o promotor da Fórmula 1. Rubinho, como Senna, venceu campeonatos nas categorias de base, Fórmula Opel, em 1990, com apenas 18 anos, e Fórmula 3 Britânica, 1991.

“Não vou entrar no mérito se Rubens possui ou não talento deles, mas não há na história um caso de uma nação apresentar campeões distintos na sequência porque para a conquista do título é preciso contar com uma série de fatores favoráveis rara de se repetir”, prosseguiu Ecclestone. “E só o talento não resolve.”

Em 1994, quando Senna faleceu no GP de San Marino, Rubens Barrichello estava na segunda temporada e já havia impressionado no ano de estreia, em Donington, pela modesta Jordan, como havia feito Senna em Mônaco em 1984, na chuva e com uma equipe pequena também, a Toleman. Tudo isso reforçou ainda mais a impressão de que o Brasil não tinha com que se preocupar. Ali estava o próximo campeão do mundo, Rubens Barrichello, agora já Rubinho.

“Esse foi o meu grande erro naquela época. Com a perda do Senna, quis assumir um papel que não era meu e me prejudiquei bastante”, assumiu Rubinho, ao Estado. “Na minha cabeça, eu tinha 21 anos apenas, poderia substituí-lo no coração do torcedor”, explica. “Só que eu competia pela modesta Jordan, sem apoio de uma montadora, como era e ainda é muito importante na Fórmula 1.”

MUITA COBRANÇA

Esse descompasso entre o que os fãs brasileiros da Fórmula 1 esperavam e Rubinho produzia, em grande parte por causa da falta de recursos técnicos, despertou grande desconfiança na torcida. O desgaste cresceu quando em 1995 a Jordan se associou a Peugeot e Eddie Irvine, companheiro de Rubinho, mostrou-se mais veloz na primeira metade da temporada.

“Naquele carro eu era obrigado a frear com o pé esquerdo, o que nunca foi o meu forte. Mantinha sempre o pé esquerdo levemente apoiado no freio, mesmo nas acelerações, o que elevava a temperatura do motor e me fazia perder potência”, contou Rubinho ao Estado, quase rindo. “Esse fator e o certo descontrole emocional decorrente da perda do Senna me trouxeram sérias dificuldades no começo de 1995.”

Melhorou um pouco quando Gary Anderson, diretor técnico da Jordan, atendeu o pedido de Rubinho e modificou a porção frontal do carro, de forma a permitir a seu piloto passar a frear com o pé direito. A alteração implicou rever redesenhar vários componentes. “Recordo como se fosse ontem. Foi no GP do Canadá. E como resultado terminei em segundo lugar e o Eddie Irvine ficou atrás, em terceiro.”

Anderson criticou Rubinho na época. “Para ele, se ficar em penúltimo e Eddie em último é melhor que ele em segundo e Eddie em primeiro.” Os adjetivos para qualificar Rubinho começaram a ser bastante pejorativos por “frustrar” o torcedor. “Piloto mercenário” era o mais comum. A McLaren, escuderia que levou Senna aos seus três títulos mundiais, quis contratá-lo no fim de 1994, mas Rubinho preferiu manter-se, inexplicavelmente para a torcida, na quase precária Jordan.

“Muita gente achou que era por causa de dinheiro. Mas se vissem o contrato que a McLaren me ofereceu jamais diriam isso. Eles não me garantiam o direito de correr. Eu seria um piloto da equipe, dentre outros.” O tema gera desconforto em Rubinho. “Imagine se eu poderia aceitar, aos 22 anos, cheio de gás, confiante que faria sucesso na Fórmula 1, assistir às corridas dos boxes. Tudo o que eu mais desejava era estar na pista e isso a McLaren não me oferecia. Hoje também não assinaria aquele contrato.”

NA FERRARI

Em setembro de 1999 o Estado publicou com exclusividade que Rubinho seria piloto da Ferrari nos três próximos anos. Era a oportunidade para se reaproximar da torcida, afinal teria um carro capaz de lhe permitir lutar pelas vitórias. Não haveria, portanto, desculpas.

“Não estou dizendo que o Schumacher não seja um grande piloto, mas a condição em que cheguei na Ferrari não tem nada a ver com a que existe hoje lá, refiro-me à forma como os dois pilotos são tratados”, diz Rubinho. “Todas as preferências eram para o alemão.”

A cisão de Rubinho com grande parte da torcida brasileira se estabeleceu de vez no dia 12 de maio de 2002, no GP da Áustria. “A equipe me pediu para deixar o Michael passar oito voltas antes da bandeirada”, lembra o piloto. Rubinho havia feito no dia anterior a pole position e liderava a prova desde a largada com grande altivez. Schumacher o seguia de perto, mas sem ritmo para tentar a ultrapassagem. “Deixei para o Michael me passar a apenas alguns metros da bandeirada. “ Ele não diz, mas sabe-se que fez dessa forma para a manobra criar o impacto que causou. Até Max Mosley, presidente da FIA, ameaçou as escuderias com severas sanções se ocorressem manobras semelhantes.

Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna se caracterizaram pela capacidade e personalidade. Jamais aceitariam cumprir uma ordem de equipe dessa natureza, frear para o companheiro vencer. Até porque por causa de seu talento não se colocariam numa posição tão submissa. Aquela era apenas a sexta etapa do calendário, Schumacher vinha de um bicampeonato e a Ferrari possuía o melhor carro, muito superior ao da concorrência. Não havia sentido.

“Apesar de tudo o que falavam a meu respeito, ainda havia uma parte importante da torcida que estava do meu lado, que eu percebia quando ia ao Brasil.” Não está bem claro se Rubinho tem consciência ainda hoje da extensão dos danos quase irreparáveis a sua imagem. Haja vista que nenhuma empresa brasileira o apoiava, desejava ver seu nome associado a ele.

Curiosamente dentro da Ferrari e na própria Fórmula 1 o episódio no circuito A1-Ring, em Spielberg, não teve nem de longe a dimensão ocorrida no Brasil e sua imagem de muito bom piloto, capaz de ser decisivo no desenvolvimento do carro e ajudar o time a ser campeão de construtores, se o outro piloto fosse alguém com Schumacher, estava em alta. Tão em evidência que a Honda, equipe oficial da montadora japonesa, lhe fez uma oferta quando adquiriu a BAR, em 2005.

DOIS VICES

Os dois vice-campeonatos conquistados na Ferrari, em 2002 e 2004, tiveram sabor de derrota para os fãs brasileiros da Fórmula 1 acostumados a comemorarem o título. “Nessa época eu já tinha dominado há tempos todas aquelas pressões que eu mesmo me havia colocado e, obviamente, colaboraram paras as coisas não fluírem. Na Fórmula 1 tão importante quanto saber ser veloz é sua capacidade de se isolar de todas as imensas pressões que te cercam. Aprendi isso na raça”, explica Rubinho. “Passei a ir para o GP do Brasil utilizando a energia do torcedor a meu favor e não contra, como ocorria. Eu era e sou um homem em paz.”

Mesmo com um ano de contrato com a Ferrari, para 2006, sonho da maioria dos pilotos, Rubinho negociou sua saída para a Honda. Foi atendido, abrindo espaço para Felipe Massa passar a ser o companheiro de Schumacher. “Nos esforçamos muito na Honda, mas o time não conseguiu produzir um carro minimamente competitivo.” Rubinho parecia acabado para a Fórmula 1.

A Honda anunciou o fim do projeto de Fórmula 1 por causa da crise mundial no fim de 2008. “Eu teria deixado a categoria profundamente frustrado por saber que mesmo sem marcar pontos, em 2007, nunca havia pilotado tão bem. Estava no meu melhor”, comentou Rubinho. “Em dezembro de 2008, Ross Brawn me telefonou para dizer que negociava assumir a estrutura da Honda e montar seu time. O melhor: eu deveria ser um dos seus pilotos.”

A essa altura, sem compromisso com nenhuma organização, deixaria a Fórmula 1. “Fui para a Inglaterra e levei o meu motorhome para dentro da área da Honda, então Brawn GP. Só sairia de lá depois de definido o meu futuro”, lembra, rindo, Rubinho. “O Ross me ofereceu um contrato que me garantia apenas nas quatro primeiras etapas. A Brawn GP não tinha dinheiro para disputar a temporada toda. Dependendo do que acontecesse eles talvez precisassem de um piloto que levasse patrocinador.”

O andamento da temporada foi muito melhor que o mais fantasioso sonho dos integrantes da Brawn GP poderia desenhar. O carro dispunha de um recurso aerodinâmico que os demais não tinham, o duplo difusor, ao menos com a mesma eficiência, pois o monoposto foi concebido para explorar seu imensos benefícios. Rubinho seguiu, em com sucesso, até o fim do campeonato, chegando a disputar o título.

“O melhor para mim foi mostrar ao pessoal da Fórmula 1 que eu estava certo quando dizia de meu estado como piloto, o melhor desde a estreia, em 1993.” Não foi por outra razão que Frank Williams o procurou para ajudá-lo a reestruturar o time que foi referência na Fórmula 1 na década de 90.

“Mesmo com um carro bastante deficiente, em 2010, somei 47 pontos. Quem entende viu o quão difícil era fazer aquilo.” A experiência de Rubinho o manteve na Williams em detrimento da jovem promessa alemã, Nico Hulkenberg, dispensado por Frank Williams. A temporada do ano seguinte seria a última de Rubinho na Fórmula 1.

“Claro que queria ter continuado. Eu nunca visitei tantas empresas na carreira como em 2011, para ajudar financeiramente a Williams e me manter na equipe. Consegui um bom volume de investimento e tinha certeza de que Frank Williams me telefonaria para mais um ano juntos”, diz Rubinho.

BRUNO SENNA EM SUA VAGA 

Mas o determinado dirigente lhe ligou para informar que a vaga seria de Bruno Senna, não dele. “O Bruno me ligou, sem saber o que falar, e eu lhe disse para parar com aquilo. Ele não tinha responsabilidade nenhuma. Desejei boa sorte. Comigo mesmo ficou a gostosa sensação de que não fui preterido por razões técnicas, mas financeiras”, afirma o piloto que contaminado ainda pelo virus da velocidade foi correr na Fórmula Indy.

“Algumas pessoas me consideram uma pessoa azarada. Pois digo que sou um homem de muita sorte por toda a minha trajetória na Fórmula 1. Foram 19 anos seguidos, resultado da minha dedicação, seriedade, por que não capacidade de ser útil ao time. Caso contrário não teria me mantido por tanto tempo sendo pago para isso”, afirma Rubinho. “Se tivesse de recomeçar faria quase tudo da mesma forma. Talvez aceitar menos algumas imposições iniciais na Ferrari mas depois revistas por eles próprios. Deixei quase que só amigos.”

FORA DA F-1

Ficar de fora da Fórmula 1 e este ano da Fórmula Indy não quer dizer abandonar as pistas. Próximo de completar 41 anos, dia 23 de maio, Rubinho está disputando a Stock Car brasileira. “Minha outra missão no automobilismo, agora, é também seguir a carreira de meu filho Eduardo, por enquanto, porque o Fernando pelo visto vai querer fazer o mesmo.”

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